Zeca Afonso – 90 anos

Nascido a 2 de agosto de 1929, em Aveiro, José Afonso faria hoje 90 anos. Prematuramente falecido, com apenas 57 anos, devido a uma doença degenerativa, o Zeca, como era popularmente conhecido, marcou a música popular portuguesa e uma geração inteira de cantautores, alguns dos quais iniciados nas lutas antifascistas e anticoloniais, como José Mário Branco, Sérgio Godinho ou Fausto Bordalo Dias.

No início dos anos 60, num contexto político de ditadura fascista, José Afonso escreveu a letra de Os Vampiros, um tema de revolta contra a repressão e contra o capitalismo, contra aqueles que “vêm em bandos com pés de veludo, chupar o sangue fresco da manada”. Enfrentando o regime e a censura, nem precisava dizer mais para que se percebesse quem eram aqueles que “comem tudo” e que, hoje em dia, continuam a ser “os donos disto tudo”.

Neste dia de aniversário do nascimento do cantor popular, a Associação José Afonso (AJA) entregou no Ministério da Cultura uma petição, com 11400 subscrições, onde se apela à classificação da obra de José Afonso como de interesse nacional, com vista à sua protecção, designadamente “a uma especial tutela do Estado”.

Em declarações à imprensa, a dirigente da AJA Jorgete Teixeira, referiu que “são as suas canções que queremos disponíveis às novas gerações, porque é urgente que assim seja. É a sua obra, de enormíssima e incontestável grandeza, que queremos encontrar acessível, porque é inadmissível que não existam no mercado discográfico todos os álbuns de um artista de tal valor!”

A intervenção do Ministério da Cultura com o objetivo de classificar a obra de José Afonso, de modo a garantir a sua proteção e reedição, é uma exigência e torna-se essencial, visto grande parte dos seus trabalhos não estarem disponíveis ao público. Francisco Fanhais já tinha denunciado o “imbróglio” em que consistia o facto da “Movieplay [editora de José Afonso] estar em situação de insolvência e não se saber do paradeiro dos masters das músicas gravadas pelo Zeca”.

Várias iniciativas estão programadas para assinalar o aniversário de José Afonso, muitas promovidas pela AJA, como é o caso do espetáculo “Como se fora seu filho”, nome do álbum editado em 1983, que vai ter lugar em Grândola, no próprio dia 2 de agosto, pelas 21:30 horas, com a participação de Francisco Naia e Banda e o grupo de hip-hop XOTO & westah. No dia seguinte, pelas 16:00 horas, na sede da AJA, em Lisboa, é apresentado o livro de Adelino Gomes, “José Afonso ao vivo”, com momento musical de Filipa Pais, Maria Anadon e Zeca Medeiros, acompanhados por David Zaccaria.

O valor cultural da obra de José Afonso é enorme e intemporal. A atualidade das suas canções levou o rapper Chullage a pegar nas palavras do Zeca para fazer Eles Comem Tudo (do álbum Repressão – Rap, Ruas e Resistência, 2012) que começa assim: “E a finança enche a pança com o aval da liderança, Despedimentos em vez de aumentos são os rumos da mudança, Especuladores, ladrões de ofício, grandes salários e benefícios, Bebem o fruto do nosso suor e depois pedem-nos sacrifícios.”

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