Vozes sedentas de servir os poderosos

Quando os comentadores de política ou economia, formatados às lógicas neoliberais, parecem mais vozes invejosas sedentas de servir os poderosos, reclamando do que dizem ser “presentes” e “bónus”, referindo-se ao último relatório do Conselho das Finanças sobre as contas do Estado, para concluir que Mário Centeno teve “presentes” como resultantes do crescimento dos impostos, em que terão sido cobrados mais 2 mil milhões de euros do que o previsto.

Ao que acrescentam que por dia entraram nos cofres do Estado quase 6 milhões de euros além do que esperavam os governantes. Juntando ainda como um “bónus”, uma poupança extra em juros da dívida pública, de cerca de 170 milhões de euros. Ou seja, para estas vozes, um bolo extraordinário da atual governação, que não sendo previsível na perspetiva da direita, seria aceitável caso a distribuição dos milhões “extra” fosse feita, segundo as suas alternativas ideológicas que melhor serviriam os interesses dos poderosos, continuando a deixar à margem as vítimas de sempre.

Os pobres não deixaram de ser pobres e o aumento do salário mínimo não resiste ao aumento do custo de vida. Mas o que mais preocupa estas vozes invejosas, não é a necessidade de mais justiça pela dignificação de quem trabalha no público ou no privado. O que une estas vozes é uma espécie de ódio de estimação aos funcionários públicos e aos salários que, depois dos cortes no tempo que antecedeu a troika e durante a governação ao serviço da troika, era expectável beneficiarem do acordo de “recuperação de rendimentos”, mesmo com luta reivindicativa por direitos. Política que resultou de opções diferentes das que só tinham como caminho a austeridade sobre os trabalhadores, mesmo com este Governo a insistir no fundamentalismo do “défice zero” e todas as suas consequências no investimento público deficitário.

“…continuando a deixar à margem as vítimas de sempre.”

Tais vozes invejosas, que não se conseguem libertar dos mandamentos da austeridade deixados pela troika, que baixaram salários e destruíram serviços públicos, como que rejuvenescidos defensores dos serviços públicos de ocasião, contrapõem fanaticamente ao custo dos salários o inegável estado de falta de investimento público, como na Saúde. Mas, curiosamente, não questionam os sorvedouros de dinheiros públicos em que se tornaram as Parcerias Público-Privadas (PPP) fundamentalmente na Saúde. Opções naturalmente ideológicas destas vozes cujos interesses que representam, o atual quadro político, por mais limitado que seja, e é, com riscos e ilusões à esquerda, acabou por estimular o debate político e o enfrentamento dos interesses instalados que não abdicam facilmente do festim de dinheiros públicos de que vêm beneficiando na gestão de serviços públicos com garantia de lucro privado.

Para investir neste caminho que ambicionam retomar, no da desvalorização dos salários e redução de funcionários públicos, fragilizando serviços públicos, as vozes invejosas já veriam com bons olhos, “presentes” e “bónus” capazes de arrecadar milhões para sustentar “buracos” na Banca e distribuir pelas PPP, assegurando o natural apoio, ainda que à custa do continuado sacrifício do investimento público, o défice zero em nome do combate ao despesismo, que para estas vozes representam os aumentos de salários e pensões por mais baixos que sejam. A velha e típica receita que continua a espreitar, caso tenham uma oportunidade para impor o seu revanchismo económico e social, depois de uma legislatura de certa forma à revelia da tradição.

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