Ver novela? Só no youtube

Não era preciso ser genial para antecipar com alguma antecedência a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais brasileiras de 2018. Observar a mutação existente nos média brasileiros (e no mundo) e a sua relação com as populações ajudaria a análise.

1 Nascimento de um mito  

Paulo Henrique Amorim, jornalista com mais de 50 anos de carreira e profundo conhecedor e denunciador da Rede Globo, salientava já em 2017 nas suas palestras¹, que o grupo vinha perdendo fôlego e que só as participações acionistas em bancos, permitia equilibrar as contas. A comunicação já não se pagava. O elevado custo de produção própria, com novelas de elencos milionários e produções hollywoodescas (afirma PHA que só em artistas que não estão no ativo durante o ano, a Globo pagava cerca de R$ 15.000.000,00 / +- 3,6 Mi € para que não fossem trabalhar noutras emissoras), já não é coberto pelos anunciantes. Esses começaram a preferir outros canais.

Acompanhando a tendência global, os anunciantes começaram a sua migração dos veículos tradicionais para a internet. O anúncio no intervalo da novela não era parelho do anúncio direcionado do google ou do facebook. A empresa de whisky vai preferir anunciar junto a um público de meia idade, masculino, de classe média e, de preferência, com elevado consumo de prozac ou similares. Hoje o anúncio tem destinatário, num controlo de mercado e acertos milimétricos.

As maiores empresas da internet como a Google ou Facebook suplantaram a Globo como maiores arrecadadores de receitas publicitárias no Brasil. Demonstração que o público e sua opinião também haviam migrado para a internet. A política nunca ficaria de fora dessa tendência. E isso fez toda a diferença nas eleições de 2018 e continua a fazer na política pós facto.

O Brasil tinha saído das eleições de 2014 profundamente dividido. A direita, que nunca aceitou o resultado, desenvolveu uma comunicação digital forte, proliferando perfis, grupos e canais nas redes sociais. Movimentos “cívicos” e personalidades com financiamentos escusos criaram legiões de seguidores. Youtubers como Kim Kataguiri e Arthur Moledo do Val (mamaefalei), ambos do Movimento Brasil Livre, ou o ator Alexandre Frota atingiam com facilidade centenas de milhares e até milhões de visualizações nos seus vídeos online. O espaço que antes pertencia à Globo começou a ser ocupado por estes intelectuais de twiter, num meio sem controlo de fontes, estatutos profissionais, critérios editoriais ou contraditório para estorvar. Discursos reacionários, com uma linguagem direta e sempre com uma predominância da acusação odiosa. Hoje são todos eleitos do congresso nacional.

A esquerda brasileira, sabendo que Bolsonaro não era o candidato preferencial das elites e dos média tradicionais, iludiu-se até muito tarde com a possibilidade do desmonte da candidatura com o aparecimento de casos de corrupção na família Bolsonaro. Mesmo que houvesse (e havia) e mesmo que fosse publicitado pelos média (e é), a população já não estava (nem está) lá para escutar. O PT negociou até ao cair do pano as alianças pré eleitorais para garantir o máximo de siglas possível e assim aumentar o espaço televisivo de tempo de antena. Enquanto isso, Bolsonaro postava vídeos nas redes sociais. A seis meses das eleições tinha mais seguidores nas redes sociais que todos os outros pré candidatos juntos.

Com a opinião pública a derivar pela internet, depois do massacre feito pelos média tradicionais contra o PT em particular, mas por arrasto ao sistema político como um todo, e ainda a ressacar os efeitos da lava jato; o algoritmo tomou conta, polarizando a sociedade e ajudando que o discurso mais radical, mais anti PT, mais odioso chegasse ao poder.

2 Telinha vs Globo

Com Lula na prisão e a menos de 2 meses das eleições, Bolsonaro liderava confortavelmente as sondagens, sem ultrapassar os 30% da intenção de voto até 4 dias das eleições. Então entrou uma força poderosa em campo, com campanhas massivas de fake News, que beneficiaram claramente o candidato de extrema direita, levando-o em 4 dias até aos 46% (quase 50 milhões de votos) na primeira volta. Esta força composta por financiamentos ilegais, acesso ilícito a bases de dados e um tratamento totalmente obscuro de um dos maiores capitais circundantes na internet: as informações sobre todos nós; continua ativa e com resultados.

O já eleito presidente Bolsonaro, seguindo o roteiro que Steve Bannon escreveu e levou à cena na casa branca, descredibilizou todos os média tradicionais (deixando só o canal de tv SBT como parceiro estratégico para manutenção do eleitorado evangélico), mantendo um contato direto permanente com os seus seguidores via redes sociais. Os média preferem ignorar a mudança, alegando que Bolsonaro ainda não entendeu que já não é candidato e que como presidente necessita do intermediário do costume para comunicar com a população. Triste agonia de um setor que tanto fez para criar a política pós facto e agora está condenado por ela.

Bolsonaro não era o candidato das elites brasileiras. O candidato da Globo e das elites que ela representa era outro, um mais qualificado e de acordo com a sua tradição política. O candidato era Geraldo Alckmin do PSDB, Governador de São Paulo, protegido pelo poder judiciário nas imensas denúncias e investigações; médico. O homem certo com as relações certas e o pedigree recomendado para a tarefa. Bolsonaro é um presidente de recurso que está a ser enquadrado pelas elites brasileiras nos seus interesses.

A Globo tem diariamente dado cobertura à investigação que o COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) estaria a desenvolver sobre repasses de dinheiro na ALERJ (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), que envolve Flávio Bolsonaro. Seria de esperar uma reação mais forte por parte da população que elegeu o discurso anti corrupção em Outubro último. O Jornal Nacional não ressoa mais nos lares brasileiros como dantes. Um post de Janaína Paschoal, advogada participante do impeachment de Dilma e a deputada eleita (pelo PSL) com mais votos na história do país, ao pedir o levantamento do sigilo bancário de Flávio Bolsonaro levanta mais dúvidas dentro das hostes bolsonaristas que matérias recorrentes na Globo sobre o caso Queiroz.

3 Cenas dos próximos capítulos

Neste início de mandato, a Globo tem se revelado bastante crítica. Pode apenas ser fruto de um contexto de retirada da publicidade do governo e de suas receitas milionárias da Globo. Afinal, o grupo de Bolsonaro e a Globo têm interesses em comum. O aspecto privatizacionista e os ainda maiores benefícios para o setor financeiro que o novo governo traz, faz com que os média tradicionais tenham que defender projetos económicos do governo. Reformar a previdência é necessário para os interesses dos acionistas do Grupo Globo. A oposição da Globo e dos média esbate-se nas oportunidades de negócio para a família Marinho e restantes elites.

A continuação de uma agenda política difusa, até contraditória por vezes, não é boa para o negócio de alguns setores tradicionalmente estabelecidos no Brasil.

Não se prevê de imediato que o poder judiciário consiga aparelhar o novo governo aos interesses da elite tradicional brasileira, mas a continuidade das investigações a Flávio Bolsonaro indica que vai tentar até conseguir. Dir-se-ia que é briga entre a direita e a extrema direita e seus respetivos grupos de interesse.

Por mais que o judiciário ( 1º poder a fascisar-se e a desenvolver a mudança no poder do Brasil) tente colocar uma trela curta na família Bolsonaro e assim garantir ainda mais os seus interesses, o Presidente tem o voto e mais que isso, tem uma trela realmente curta nos seus seguidores. O Whatsapp, que se revelou instrumento decisivo nas eleições, continua a dar as coordenadas políticas para milhões de brasileiros. No telemóvel, sempre à mão, traz sempre mensagens importantes de alguém conhecido, de confiança. Amigo ou parente vai enchendo o telemóvel de informação, só fazendo pausa para o sono do utilizador.

Adivinha-se ainda com facilidade a economia do desastre. Num país dos mais desiguais do mundo, toda a agenda económica anunciada é para aumentar esse fosso. O discurso milagroso que o investimento privado trará o fim da crise tem dificuldades de aderência com a realidade. Ainda estamos à espera do investimento de R$ 500 Mi que Luciano Hang (Ceo do Grupo Havan e efusivo apoiante de Bolsonaro) prometeu nas redes sociais durante a campanha eleitoral caso Jair Bolsonaro fosse eleito. Continuando o desinvestimento e restrição dos gastos públicos, o número de brasileiros e brasileiras a viver abaixo da linha da pobreza (que nos dados de 2017 chegam aos 57 milhões) chegará rapidamente aos 100 milhões de pessoas. Todo o tipo de atrocidades vão ser aplicadas, na economia e nos costumes.

Finalmente, os grandes ausentes na direção de todo este processo: o povo e a esquerda brasileira.

Os apoiantes de Bolsonaro gravitam entre o delírio e o sentimento anti esquerda. Reféns do seu próprio ódio, não será fácil vir a reconhecer que toda a histeria em torno do papão socialista que o PT estava a implantar, que os biberons com pontas em formato de pénis dados nas creches públicas ou que todos os professores do sistema público de educação seriam perigosos doutrinadores comunistas; não passaram de golpes baixos de campanha do qual eles foram vítimas. As posições foram muito extremadas e será urgente restabelecer pontes de diálogo com essa massa imensa de gente. Sendo certo que uma camada será irredutível nas suas convicções, talvez perto dos 12% de apoiantes, aqueles que tinha antes da cavalgada virtual que o levou ao poder.

À esquerda cabe amplificar as atrocidades praticadas e apresentar alternativas económicas e sociais. Quanto ao meio para sair do isolamento e tentar que o “outro lado” consiga um entendimento político da realidade dentro do facto, a governação e queda do PT apresenta algumas pistas. O PT começa a sua queda quando se desliga dos movimentos sociais e do povo. Começou a ser um partido igual aos outros, que só dialogava com a base em tempo de campanha ou através da popularidade de Lula, retirando paulatinamente espaço político às bases, substituindo-as pelos representantes dos grandes interesses económicos.

A tendência natural da esquerda é tentar recuperar o tempo perdido na internet. Embora seja necessário manter presença e uso da net, parece ligeiramente ingénuo pensar a reversão no quadro de influência da esfera virtual. Seria como conseguir impedir o golpe de 2016, no auge de influência da Globo na criação da imagem anti PT, através da tv. Não existe possibilidade da esquerda destronar o poder político através dos meios, da comunicação. Já na cativação das pessoas para a participação dos processos políticos, o espaço é quase exclusivo da esquerda e é o seu caminho natural: promover a participação para criar uma fase política pós comunicação.

Urge regressar às origens, no Brasil e no Mundo. Só uma política presente na base, no corpo a corpo, pode competir com estes novos instrumentos de alienação. A TV representava um papel importante na consolidação da ideologia dominante, mas era só pós laboral ou estudo, 4 a 5 horas por dia. Hoje, a trela tecnológica/ideológica é bem mais presente na vida das pessoas, não deixando tempo nem espaço mental para interpretações divergentes. Recuperar princípios e práticas de participação que envolva militâncias e ativistas, que ecoe seus anseios e lutas é necessário para renovar os espaços de interpretação política. Só a envolvência das pessoas na participação nas decisões políticas tem a capacidade de destronar estes meios na compreensão da realidade.

Trabalho de base necessita-se… às toneladas.

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