Venezuela: A guerra fria na era da desinformação

Ao contrário dos Estados Unidos de Trump ou do Brasil de Bolsonaro, na Venezuela muito pouco do que parece é. Nem o dito “socialismo” de Maduro é mais que um caudilhismo tardio latino-americano, muito distante do ímpeto inicial do regime de Chavez, nem o surgimento de Guaidó corresponde a qualquer levantamento libertador de cariz democrático. Na Venezuela joga-se possivelmente o primeiro “round” de cariz militar entre as potências capitalistas, a dominante (os Estados Unidos) e a desafiante (a China).

Com muitas semelhanças com os múltiplos conflitos da guerra dita “fria” da segunda metade do século passado entre os Estados Unidos e a URSS, a sucessiva escalada da tensão entre as duas partes no terreno poderá eventualmente resultar num conflito armado, seja através de uma guerra civil ou através de uma intervenção militar norte-americana (com ou sem os seus aliados).

Em análises mais aprofundadas da situação, circula frequentemente a informação de que o conflito terá por base a intenção dos Estados Unidos se apoderarem dos abundantes recursos petrolíferos da Venezuela. Ainda que tal tenha um fundo de verdade, convém espreitar um pouco mais por detrás do biombo da geopolítica e entender realmente quais são as partes em conflito.

Para isso, temos de recuar um pouco no tempo até Setembro de 2018, altura em que Nicolas Maduro realiza uma visita a Pequim. A Venezuela encontrava-se então no auge de uma longa agonia económica derivada quer dos anos de políticas económicas erradas (que se traduziram na manutenção da dependência do modelo económico extrativista), quer pelo continuado bloqueio norte-americano à importação de bens essenciais, incluindo produtos químicos necessários para a extração e transporte do petróleo de areias, que constitui grande parte das reservas venezuelanas. Por essa altura, Maduro tentou romper a situação que resultava no progressivo enfraquecimento do seu regime através de um acordo comercial com a China. Este acordo garantia um novo financiamento de 5 biliões de dólares para o estado Venezuelano por parte da China em contrapartida pela cedência de nova parcela na exploração e produção petrolífera para as empresas chinesas. Na última década a China já transferiu para a Venezuela mais de 50 biliões de dólares no âmbito de acordos de “empréstimos pagos em petróleo”

A Venezuela, que há uma década produzia cerca de 3 milhões de barris diários, produz actualmente somente cerca de 1 milhão por falta de investimento. Grande parte desta produção tem como destino os Estados Unidos, mas a China (actual segundo comprador) está a um passo de ser o principal destino da produção venezuelana e possui capacidade para fornecer os necessários diluentes para repor a capacidade de produção de óleo venezuelano. Maduro terá afirmado após a visita à China que pretendia fornecer a este pais 1 milhão de barris diários.

A compra de petróleo venezuelano pelos Estados Unidos, ao contrário do que comumente circula nos média, não se deve a qualquer dependência dos Estados Unidos desta fonte de abastecimento. Na realidade os Estados Unidos são, desde há quase uma década, praticamente auto suficientes nesta matéria prima. São, desde finais de 2018, o maior produtor mundial, e preparam-se para ser um exportador líquido de petróleo (sendo já, por exemplo, o maior fornecedor de petróleo do Reino Unido). No entanto procuram, através do seu papel duplo de grande comprador de petróleo bruto e de vendedor de produtos refinados no mercado mundial, tornar-se no grande entreposto desta matéria prima, e desta forma controlar o preço e sobretudo o acesso do seus principais competidores a esta fundamental fonte de energia.

A China, como o principal comprador mundial e com diminuta produção para o seu enorme mercado, tem uma grande dependência dos mercados internacionais desta matéria prima, encontrando-se desta forma num papel de subalternidade perante o seu mais directo competidor. O acesso por parte desta potência a fontes petrolíferas mais “independentes” como o Irão, a Rússia ou a Venezuela tem sido uma das pedras angulares da sua politica externa, que tem feito com estes países grandes acordos comerciais. Curiosamente, ou talvez não, são estas três nações os principais alvos da política de sanções económicas dos Estados Unidos, que visam sobretudo afectar a capacidade destes de produção e exportação petrolífera.

Embora nenhum dos factos acima descritos seja desconhecido pela generalidade da comunicação social, este contexto geoestratégico do conflito na Venezuela não transparece nos média. A realidade desta disputa capitalista é que nenhuma das partes em conflito terá interesse na divulgação deste contexto. A exposição de um conflito tão aberto entre as duas maiores potências mundiais traduzir-se-ia numa rápida instabilidade e colapso nos mercados financeiros, seguidos de uma provável recessão à escala global.

Qual é a saída para a situação dramática do povo venezuelano? O ponto de partida terá de ser a paragem imediata da escalada de tensão militar na região. A proposta de intermediação de diálogo por parte dos governos mexicano e uruguaio parece exequível e a que mais apoios poderá recolher internacionalmente. A realização de novas eleições livres e plurais para todos os orgãos de poder permitirá uma clarificação da correlação de forças e devolver autodeterminação à sociedade civil venezuelana.

Numa perspectiva mais longa, importa construir um modelo de desenvolvimento económico que ponha fim à “monocultura do petróleo” (actualmente petróleo, sobretudo em crude, e algum refinado constituem mais de 90% das exportações da Venezuela!) e que recupere e aproveite de uma forma sustentável os vastos recursos hídricos, florestais, de solo e climáticos que existem na Venezuela.

(*) Geólogo

 

 

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