Uma eleição em que se contam contos e não se fala do que conta

Em política, as coisas são por vezes mais simples do que parece.

Que adiantam, ao trabalhador que tem de lidar com despedimentos, baixos salários, precariedade e destruição dos serviços públicos, afanosas discussões sobre as “culpas” na queda de um governo que, em seis anos, não fez nada do que o trabalhador necessita para (sobre)viver?

Que adiantam debates esotéricos sobre constelações eleitorais, maiorias absolutas, posições na classificação geral das eleições?

Há dias, a Oxfam, organização que não tem a pretensão de fazer parte do movimento operário ou socialista, publicou um relatório. Esse relatório diz que, desde o início da pandemia, tem aparecido um novo bilionário no planeta a cada 26 horas – enquanto 160 milhões de pessoas caíram na pobreza.

Nos últimos dezanove meses, diz a Oxfam, a fortuna dos bilionários aumentou mais do que nos dez anos anteriores.

Um porta-voz da Oxfam declarou: “A pandemia foi uma benesse. Se eles enriqueceram, não foi graças à mão invisível do mercado nem a estratégias brilhantes, foi por causa do dinheiro público entregue sem condições pelos governos e bancos centrais, de que eles souberam aproveitar.

É tal a evidência, que mesmo uma organização como a Oxfam o reconhece! Mas porque não é isso o tema central desta campanha eleitoral?

Recordemos que, durante a pandemia, também o governo português, como os seus congéneres, isentou os patrões de pagarem os salários, que foram pagos pela segurança social, portanto pelos salários e pensões futuros dos próprios trabalhadores.

O resultado foi que, em 2021, só em Portugal, as grandes empresas pagaram 7 mil milhões em dividendos às “pessoas” suas accionistas! Para as Holandas, para os paraísos fiscais, para os iates e os Ferraris.

Juntem-se-lhe os mais de 20 mil milhões entregues pelos sucessivos governos, em obediência às regras de Bruxelas, às “pessoas” accionistas da banca falida.

Junte-se a isso os salários que tais “pessoas” deixaram de pagar porque o governo mandou que fosse a segurança social a pagá-los – e vê-se a que ponto este regime do euro e da União Europeia é o regime da espoliação sem limites do trabalho pelo capital.

Porque aceitam então os debatentes da campanha eleitoral os “estreitos limites do orçamento possível”, a discussão das migalhas “realistas” que Bruxelas deixa discutir, porque se conformam com a condenação do SNS à destruição às mãos do privado, com o saque dos CTT, da GALP, da EDP, da ex-PT?

Durante as últimas décadas, os trabalhadores portugueses têm procurado, com dificuldade, defender o que os seus pais e eles próprios ganharam com a revolução de 1974, apoiando-se para isso, sempre que possível, nas suas organizações, sindicais, políticas, etc.

Muitas foram as desilusões.

Geralmente em nome da necessidade de submissão à União Europeia, muitos governos ditos de esquerda têm participado, tal como os de direita, no ataque cerrado a essas conquistas, cada vez mais encolhidas. As conquistas, recorde-se que são aquilo que ainda permite ao povo trabalhador sobreviver apesar dos salários ridículos que são pagos: o SNS, a escola pública e universal, as pensões, a negociação colectiva.

Quem trabalha e é explorada encara geralmente as eleições como um momento em que vota não por ter grandes ilusões nas direcções dos partidos, geralmente enfeudadas ao sistema, mas para fazer barragem aos Passos Coelhos e Rios que ameaçam abertamente vir destruir a eito pensões, SNS, escola pública, salários….

Por isso temos vivido em Portugal uma curiosa situação: os partidos que representam directamente os interesses do capital, o PSD e todos os outros que lhe saltitam à direita, não conseguem, contrariamente ao que acontece na generalidade dos países europeus, ter votos suficientes para governarem sem depender da ajuda de “socialistas” ou “comunistas” (com mais ou menos aspas).

Essa era, aliás, ainda, a situação à entrada da presente campanha eleitoral.

Ele era Rio, o seminarista incréu, a ameaçar privatizar tudo e partir tudo. Ele era o novíssimo iniciativo da moderna brilhantina liberal a dizer que, se Rio mata, ele esfola. E que, com ele, nem a escola se salva. E que ele percebe o que o jovem forcado do partido moribundo não percebe, que é que não basta falar para a Lapa, a Quinta da Marinha e a Foz, é preciso falar também para a Avenida de Roma e a Avenida da Boavista. Enquanto o dito jovem forcado barafusta que consegue falar mais depressa do que os outros todos juntos, e o palhaço fascista faz de palhaço fascista.

Face a isto, era natural os trabalhadores pensarem: a direita ameaça directamente dar cabo de nós, temos de apertar o nariz e ir votar contra quem nos quer destruir já amanhã.

Entretanto, a campanha começou.

E assistiu-se a este estranho espectáculo: todos a aceitarem que, como o orçamento e tudo o que realmente conta é ditado pela União Europeia, o melhor é não falar na União Europeia nem em nada do que realmente conta.

Todos a aceitarem que é nos corredores e passos perdidos do Parlamento, em negociações e “correlações de forças”, que se há-de resolver o pouco que resta depois de as instituições da União Europeia, de que não se fala, decidirem de tudo o que conta.

Tudo a reduzir-se a uma espécie de concurso Master Chef.

– Ah, que nós aumentamos aqui 300 gramas a este condimento, pomos este subsídio.

– Ah, que nós não, nada disso, nós tiramos 250 gramas de limão e baixamos este imposto.

– Ah, não, que nós pensamos é nas pessoas.

– Ah não, nós é que pensamos nas pessoas.

E por aí fora.

Todos a pretender, portanto, que, com a mesma receita e os mesmos ingredientes, conseguem preparar um prato melhor do que os outros.

Porque todos dizem que, no fundo, as coisas, como estão, mudar, no essencial, não podem mudar – a não ser para pior.

Não podem mudar, porque, como eles sabem e pensam, embora não o digam, quem manda são os credores da dívida externa, quem manda é Bruxelas, são os critérios orçamentais de Bruxelas e as condições de Bruxelas para o desembolso dos fundos; e, em Bruxelas, quem manda são as bolsas de capitais e a alta finança internacional. Por isso, por aqui, só se pode jogar a um dominó de migalhitas.

 

E o trabalhador que achava: os preços sobem, os salários descem, os contratos são cada vez mais precários, os jovens não arranjam trabalho, os tempos de espera no SNS sobem, médicos e enfermeiros vão-se embora, a escola está a cair e, por isso, o melhor, mesmo assim, é votar em seja quem for que dê melhores hipóteses de não voltar para cá outra vez a tropa da troika e do Passos, na forma do Rio, do brilhantina, do forcado ou do fascista, esse trabalhador, que como enfermeiro, lutou pelo contrato e pelo aumento de salários, que, como professor, lutou para recuperar o tempo de trabalho roubado durante a troika, que, como motorista de matérias perigosas, estivador, trabalhador da TAP, da Efacec, da GALP, procurou resistir à destruição, à espoliação, à sobre-exploração e à repressão, esse trabalhador que muito pouco apoio tem sentido mesmo de quem ele esperaria tal apoio, esse trabalhador, que não vê ninguém, na campanha eleitoral, a referir e louvar e defender as suas lutas e as dos seus camaradas, esse trabalhador que só ouve falar em “pessoas”, quando ele sabe que há pessoas que são os seus patrões que o exploram e querem explorar mais ainda, e há pessoas que são os trabalhadores como ele, que procuram resistir às tais pessoas, esse trabalhador dirá talvez: mas se são eles próprios, esses partidos todos, que dizem que no sistema não se toca, que não se fala de quem manda, que a UE e o capital são tabu, que falar de quem resiste e luta, isso então nem pensar, não pensará esse trabalhador que, se é para ficar tudo igual, mais limão menos açúcar, se os próprios partidos dizem que são todos mais ou menos iguais, por que raio é eu me hei-de chatear a ir lá votar? Que diferença faz?

Será por isso que as sondagens começaram a mudar?

Ora, se se quer ajudar a mudar, se se quer estar do lado das pessoas trabalhadoras contra as pessoas capitalistas, se se pretende representar os interesses dos trabalhadores e da juventude no parlamento, será assim tão complicado dizer:

– apoiaremos todas as greves e lutas de trabalhadores por aumentos de salários, pela revogação das leis da troika, pelo fim da precariedade;

– apoiaremos todas as medidas de um novo governo que saia destas eleições que melhorem, mesmo pouco, a situação de quem trabalha;

– mas não viabilizaremos nenhum governo que não se comprometa a revogar de imediato a legislação laboral da troika e a promover um aumento geral de salários;

– nem apoiaremos nenhum orçamento que não permita aos professores recuperarem os anos de carreira roubados; que não permita que todos os funcionários públicos recuperem os 20% de poder de compra perdidos nos últimos treze anos;

– não apoiaremos nenhum orçamento que não inclua um programa de investimento público massivo no SNS, na habitação popular e nos transportes públicos gratuitos e que não garanta a redução e o controlo dos preços da energia, dos combustíveis e das rendas;

– e não aceitaremos a subordinação da obtenção e investimento de fundos à realização das metas de contra-reformas determinadas pela Comissão Europeia.

Cartas na mesa, em vez de discursos retorcidos!

1 comentário em “Uma eleição em que se contam contos e não se fala do que conta”

  1. Tudo verdade!… Mas os insatisfeitos que se dizem de esquerda sendo eles grande parte da abstenção, na hora de votar não cumprem a sua obrigação como cidadãos responsáveis e deixam a direita sedenta proceder á união e votarem em massa, com o fim de voltarem ao Poder para exercerem de novo a exploração e controle do Povo Trabalhador. Contudo, não votando, dizem-se insatisfeitos e continuam apenas a criticar e a julgar quem algo faz para tentar alterar a vida dos portugas. As Centrais Sindicais, essas não abdicam da sua arrogância e sentido de poder que exercem junto dos Trabalhadores, fazendo assim a divisão entre a Classe Trabalhadora e os portugas, que só beneficia as aves agoirentas que pairam para nos subjugar. explorar e roubar. Por isso, na hora de cumprirmos as nossas obrigações como cidadãos responsáveis e preocupados com o futuro do País e dos nossos descendentes, devemos incondicionalmente exercer o direito de voto. Já que isso parece não ser possível ao se verificarem os aumentos da abstenção na hora de votar, deveria ser obrigatório fazê-lo, para assim se tentar com a união de todos mudar o rumo dos acontecimentos, já que os votantes de direita o fazem sempre em união. Enfim!!!… O mal, parece-me está naqueles que apenas esperam o que os outros façam para que eles também beneficiem e passam a vidinha a reboque de terceiros. Sabendo nós que não é nada fácil, não poderemos desistir de lutar, porque: “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”!

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