Um jovem de 20 anos

Depois do «COMEÇAR DE NOVO» e da necessária fase de as correntes fundadores e seus próceres legitimamente reconhecidos como tal, terem conseguido organizar o partido/movimento da “estrelinha com cabeça” e conseguir a unidade e a harmonia necessárias entre históricos de origens fundadoras diferentes, em que a unidade primordial decorria da necessidade de confrontar o sistema, de mudar o mapa político e da inspiração na filosofia e proposta de acção de Karl Marx, paulatinamente foi-se impondo uma tendência para as tendências.

Afinal essa tendência iria levar a uma espécie de novo correntismo com que se jurara ter acabado. Instalou-se uma doutrina segundo a qual a democracia no Bloco sairia enriquecida não já com as correntes, mas, pasme-se, com as tendências. E surgiu mesmo uma envergonhada palavra de ordem: o tempo das tendências.

Surgiu a Tendência Socialista (TS) (as outras seriam naturalmente capitalistas?) e, já agora, a Tendência Esquerda Alternativa (as outras seriam naturalmente TIA’s (There Is No Alternativ).

A TS acabou e, depois de uma grande e dispersa incomodidade decorrente da militância da UDP que se quereria apoderar do aparelho (!), por uma espécie de ordem de serviço decretou-se o “tempo das tendências”.

Cada corrente deu ao Bloco o que de melhor tinha e a UDP transportou consigo uma grande ligação ao povo e aos trabalhadores que só favoreceu a evolução política do Bloco conjuntamente, claro, com os TS e os XXI’s infelizmente sem o Miguel Portas mas com todos os ganhos que ele nos trouxe.

Assim se desencadeou uma interessante e intensa luta política que poderá ou não iluminar a luta que o Bloco, no seu todo, enquanto partido de militantes e aderentes, vai travando com coragem e inteligência na cena política europeia; Portugal incluído, naturalmente.

Claro que os efeitos da “tendencialização” – ideia profundamente (social/)democrática – já estão a produzir excelentes doses de cristalização tendenciosa e de sectarismo aberto e democrático.

A política do Bloco corre então o risco – já sentido – de ser definida no confronto ou acordo entre tendências e não nas assembleias de aderentes com repercussão nos órgãos eleitos e na construção de listas em torno de plataformas políticas não cristalizadas.

Os aderentes que não pertencerem a qualquer tendência (mas estarão sempre a tempo, não é?) voltarão à situação do tempo do correntismo que foi abolido, e bem, cumprida a sua missão inicial.

Ou seja, o Bloco pode transformar-se de partido/movimento dos aderentes num partido das correntes/tendências, onde pontifica, claro, a culta inteligência dos mais dotados!

Intervenção no terreno

A intervenção do Bloco no terreno deve ter como base a sua organização territorial e sectorial e um sistema flexível de trabalho em rede que assegure a todos o acesso à informação, à participação e capacidade/possibilidade sustentada de intervenção na formação da política e, logo, na sua concretização.

Os núcleos de intervenção local e regional – ou mais concretamente as concelhias e distritais – devem, em minha opinião, ter como base, sempre na exploração permanente de possibilidades de alargamento e recrutamento, claro está, as listas formadas para as eleições autárquicas que são o elemento mais amplo de influência no movimento social indiscriminado e de possibilidade do seu alargamento.

Funcionários

Pela sua própria função, importância intrínseca e dependência material, o corpo de funcionários tende, objectivamente, a tornar-se um instrumento do aparelho central do partido e, nessa qualidade, a ganhar o seu próprio poder que é, ao mesmo tempo, a sua própria sujeição.

Há que assegurar que a operacionalidade dos funcionários esteja exclusivamente de acordo com os princípios e valores democráticos do partido e não sejam um “instrumento” burocrático.

Garantindo os direitos laborais e políticos intocáveis dos funcionários que devem integrar, com todos os direitos e deveres inerentes, os órgãos para que sejam eleitos, enquanto aderentes. Algumas opiniões que vi expressas propendem para tornar os funcionários numa espécie de betas do admirável partido novo.

No Bloco só deve haver funcionários políticos.

Funções administrativas, técnicas e especializadas são cumpridas por aderentes qualificados, que são sempre políticos.

Os funcionários cuja actividade é regional devem ser escolhidos pela região e ratificados pela direcção nacional. A responsabilidade pelo salário deve ser da própria região de acordo com «protocolo» combinado com a direcção nacional para decidir a origem e a forma das verbas em jogo.

Os funcionários nacionais são obviamente escolhidos pela direcção nacional. Na sua actividade nacional por orientação da direcção nacional, não poderão impor-se, sob qualquer argumento, às normas, formas de funcionamento ou decisões das direcções regionais ou concelhias. Os diferendos ou conflitos decorrentes serão derimidos entre a direcção nacional e as direcções em causa.

A questão fulcral: a eficácia na política revolucionária impõe sempre mais e mais a necessidade de tornar o funcionamento do partido mais e mais democrático, mais e mais transparente, mais e mais descentralizado.

Esta a única forma de travar a vertigem historicamente ilustrada para o autoritarismo democrático, para a autonomização de corpos com poderes fácticos, para o apoderamento da política pela burocracia, para a degenerescência da capacidade revolucionária do organismo vivo que é o partido.

 

Por lapso de edição Via Esquerda, a parte final deste artigo foi truncada inicialmente. Agora, republica-se  completo,  com um pedido de desculpas ao autor.

Destaque da responsabilidade de Via Esquerda

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