Trabalho e consumo: o “lado lunar” de uma relação biunívoca

“Não me estrague a minha vida. Tenho a casa e o carro para pagar”.

Ouvia isto, há uns anos, do responsável (director técnico) por uma obra de construção civil.

Tratava-se da demolição e reconstrução de uma rotunda em que, havendo necessidade de ali interromper o tráfego automóvel (com consequente incómodo para os munícipes), a respectiva câmara municipal impôs ao dono da obra e este contratualizou com o empreiteiro a condição de que se realizasse em apenas três dias.

Esta condição levou a uma grande intensificação do trabalho, quer em duração quer em ritmo.

Na situação, interpelado perante o facto de ali haver trabalhadores a trabalhar há 16 horas seguidas (e ele próprio, o responsável pela obra, há 20 horas seguidas), com as consequências de lesão de direitos e de sujeição dos trabalhadores (inclusive ele próprio) ao risco de acidentes de trabalho e associado incumprimento das inerentes disposições legais, o director da obra teve a exclamação citada.

Face à preocupação de pagar as suas dívidas como consumidor, aquele trabalhador, arrastando consigo outros que superintendia, prescindia e fazia com que outros prescindissem do exercício do seu direito / obrigação aos períodos legais de descanso.

Dezenas de anos já passados, aquela frase do engenheiro ocorre agora à memória por indução de duas outras frases bem actuais que, tendo-lhes por comum o trabalho, com ela se relacionam.

“A economia somos nós”, é uma destas frases. Podemos ouvi-la por aí agora na rádio, no espaço publicitário de um banco.

De facto, tem toda a propriedade o tal banco se publicitar lembrando-nos que “a economia somos todos nós”.

Já não digo pela suposta concepção que a administração desse banco poderá ter, na linha de Karl Polanyi, da Economia como ciência social. Com certeza que, mais pragmaticamente (como é timbre de qualquer banco), será pelo facto de que é com o dinheiro que “todos nós”, clientes, lá depositamos (e com que o banco negoceia operações bancárias com terceiros), bem como com as comissões por operações e serviços bancários que “todos nós” como clientes lhe pagamos, que a “economia” do banco funciona.

Mas, tanto ou mais do que por isso, para o banco “a economia somos todos nós” na medida em que somos todos nós que, cada vez mais, com as operações que realizamos no multibanco e na internet ou com as maiores deslocações para procedimentos presenciais que fazemos às dependências do banco mais raras e espaçadas territorialmente, que substituímos gratuitamente (e portanto com mais “economia” para o banco) os trabalhadores que esse banco (como a generalidade dos outros) “dispensa”.

“O supermercado somos todos nós” é uma outra frase que, com a mediação do trabalho, é associável às duas já citadas.

Podemos lê-la por aí, numa formulação com o nome comercial da respectiva cadeia de supermercados e hipermercados (que aqui se omite por razões óbvias), escrita em letras garrafais num enorme cartaz afixado na entrada de qualquer das “grandes superfícies” dessa empresa.

Sim, de facto, “o supermercado somos todos nós”. Mas não apenas porque é com as compras e respectiva facturação que lhe pagamos que o estabelecimento atinge os seus objectivos económicos.

“O supermercado somos todos nós”, porque muito somos todos nós que, enquanto ali como consumidores, acabamos por realizar tarefas próprias do serviço que aquele estabelecimento (e afinal, em regra, qualquer outro do ramo, seja de que empresa for) nos deveria prestar como clientes. E assim, com esse trabalho (também) como consumidores, todos nós contribuímos para que a empresa detentora do estabelecimento possa “dispensar” (ou pelo menos não admitir) mais trabalhadores para nos assumirem a prestação desses serviços comerciais de atendimento, endossando-no-lo como trabalho gratuito para “todos nós” com o sugestivo incentivo de nos ser “personalizado” o consumo.

Aliás, porque idêntico é o que também já por aí muito se verifica, certamente não ficaremos surpreendidos se por exemplo no restaurante passarmos a ter à entrada um cartaz dizendo “o restaurante somos todos nós”.

E, com as devidas adaptações, no mesmo sentido, também não ficaremos admirados se, qualquer dia, cartazes do mesmo teor passarmos a ler nas estações de serviço, nos hotéis, nos estabelecimentos que nos oferecem o “trabalho de casa” de montar o que compramos, nos balcões das empresas de serviços essenciais e até, como utentes (e não apenas clientes), em serviços públicos submetidos a referências de gestão empresarial privada.

Claro que a “transição digital” vai ser muito aproveitada nesse sentido. Até porque, de facto, é já isso que se passa, quanto mais não seja porque, ao consumirmos, de certo modo modo já há muito que trabalhamos para as empresas nas quais consumimos ao fornecermos-lhes dados pessoais cuja posterior utilização por essas empresas para fins relacionadas com a sua actividade (industrial, comercial ou de serviços) é uma forma de nós próprios, como consumidores, sermos também, seus co-produtores.

Algo a que, com certeza, subjaz a lucidez e racionalidade, para já não dizer ciência, mercantil da consultadoria e da gestão comercial que talvez não deixe de constar dos conteúdos do que se ensina nas escolas de negócios (business schools) mais bem colocadas nos rankings das faculdades de Economia e de Gestão do Finantial Times: o entendimento de que o consumidor, para consumir aquilo que quer consumir, objectivamente, tem que cada vez mais, de facto, passar a trabalhar para tal.

E daí o aproveitamento dessa perspectiva gestionária, quer vendo nisto (mais) uma forma de externalização do trabalho, quer, mais directamente, não desperdiçando uma mão de obra gratuita, disponível, fiel e motivada em que, progressivamente, de facto, (também) se transformam os consumidores.

E tanto mais motivada quando, tendo cada vez mais pressa em decurso do ritmo de vida quotidiano, por regra, tem cada vez menos trabalhadores do quadro de pessoal dos estabelecimentos comerciais e de serviços a que acorre como consumidor que, com prontidão, o possa atender presencialmente como cliente.

O consumidor vai deixando sempre mais um pouco de o ser, na acepção de isso se consubstanciar no pleno exercício dos seus direitos como tal, no sentido de lhe ser prestado um serviço pelo qual paga. Para, cada vez mais, ao consumir, passar para isso a ser também, de facto, trabalhador.

Para além da sua génese e objectivos de ordem publicitária, é também muito nisto que se consubstanciam estas duas frases citadas: “a economia somos nós” e “o supermercado somos todos nós”.

Mas voltando à frase inicial do director da obra, também aquele trabalhador deixava de verdadeiramente o ser no quanto prescindia dos seus direitos (mesmo que o não exercício de tais direitos se projectasse no risco da sua saúde e vida e na de outros) como tal, como trabalhador, em função de quanto o passava a ser mais consumidor.

Bem vistas as coisas, nada de surpreendente. Quem acompanha de próximo e com regularidade o que se passa na generalidade dos locais de trabalho sabe bem quanto situações idênticas são mais ou menos regra.

Evidências disso são as estatísticas que se podem fazer do número de penhoras de salários que se mantêm meses e meses, para além do quanto de tal não é dissociável a questão, muito actual e preocupante, do previsto próximo cancelamento das moratórias no pagamento de empréstimos bancários, sobretudo os que têm a ver com a habitação.

E tanto ou mais graves e frequentes são essas situações quanto, para assumirem, reivindicarem e exercerem efectivamente os seus direitos laborais, maior for o condicionamento dos trabalhadores em função, por um lado, dos baixos salários face ao custo de vida e, por outro, da sua fragilidade nas relações (individuais e colectivas) de trabalho em decurso da precariedade dos vínculos laborais e consequente insegurança do e no emprego, da individualização das relações de emprego e de trabalho, da diminuição da protecção nos despedimentos, do nível de desemprego “cá fora” e da baixa protecção social neste.

É certo que isto é pouco percebido e, muito menos, reflectido, debatido, para já não dizer agido, pública, institucional e politicamente.

Mas, em síntese, este é também o “lado lunar” da relação, biunívoca, entre trabalho e consumo: somos cada vez menos trabalhadores, na medida em que somos cada vez mais consumidores. E vice-versa.

 

[Uma versão deste artigo foi publicada no Público online de 23 de Junho de 2021]

1 comentário em “Trabalho e consumo: o “lado lunar” de uma relação biunívoca”

  1. Há uma dezena de anos, num hipermercado na região de Lisboa, uma empregada simpática e sorridente ajuda os clientes que passam por uma zona com quatro caixas de auto-pagamento ou lá como lhe chamam, explicando e exemplificando como aquilo funciona; acorre a um, corrigindo a forma como ele tenta passar a compra pelo scanner e a outro cuja maquineta se recusa a reconhecer o cartão bancário.
    Quando passei pelo local não me contive e comentei em voz alta: “cá estão ‘eles’ a eliminar mais quatro postos de trabalho!” E acrescentei para quem aguardava a sua vez de experimentar a novidade tecnológica: “já só falta darem-nos um porta-paletes e mandarem-nos ao armazém buscar os produtos…”.
    Ela estava a cumprir a missão que o chefe lhe tinha confiado e tentava desempenhá-la o melhor possível; não o fazendo, punha o seu próprio emprego em risco. A minha indignação claro que não era com ela nem com o gerente da loja, mas sim com o patrão que colhe os frutos da exploração de empregados, fornecedores e clientes, numa qualquer holding sediada num desses hipócritas países “frugais”.
    Por isso, rematei olhando de novo para a empregada: “desculpe… está a fazer o que lhe mandaram, claro…”.
    E ela limitou-se, mais uma vez, a sorrir.

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