Tereza Costa Rego – Artista Plástica, Militante Comunista, Feminista

“Os vermelhos perderam alguns tons de intensidade, neste domingo tão triste, em que Tereza Costa Rêgo se despede de nós. Deixa uma lacuna irreparável no cenário das artes plásticas no país e um lamento imensurável em nosso peito.

A história de Tereza é um relato contínuo de paixão pela vida, pela liberdade, pela arte e pelo direito de ser mulher em toda sua plenitude”. Assim descreve Luciana Santos Presidente do Partido Comunista do Brasil a partida da artista plástica, militante comunista e feminista, falecida no Recife a 26 de Julho com 91 anos.

Tereza, filha de uma família tradicional da aristocracia rural pernambucana, aos 15 anos ingressou na Escola de Belas Artes, no Recife. Aos 19 anos, casou-se com José Gondim Filho, mas separou-se após 14 anos. Em 1950, conseguiu expor sua primeira obra, no Museu do Estado de Pernambuco, e recebeu um prêmio da Universidade Federal de Pernambuco. Em 1962, já tendo conquistado três prêmios do Museu do Estado e um da Sociedade de Arte Moderna, realizou a sua primeira grande exposição individual, na Editora Nacional, ainda assinando suas obras como “Terezinha”.

“Eu me casei muito jovem com um amigo dos meus irmãos, um advogado e tive duas filhas, Maria Tereza e Laura. Mas meu casamento era uma coisa muito cinza. E de repente convivi com um personagem do Partido Comunista, uma pessoa muito forte e muito inteligente. Fiquei muito envolvida e me divorciei em 1964 em plena Revolução. Foi um horror, um Tsunami. Para uma família tradicional como a minha, não se usava esse negócio de se desquitar. Foi uma guerra, mas tenho uma característica que é um pouco do meu signo, eu sou de Touro, se você colocar um obstáculo eu pulo, qualquer um que seja. É uma coisa estranhíssima, tenho até medo. Meu companheiro dizia você não é corajosa não, você é temerária. Corajosa é uma qualidade, temerária é um defeito. Eu acho que sou mesmo temerária. E foi assim, fui deserdada, minha família inteira me rejeitou. Eu saí aqui sem lenço e sem documento mesmo, como a canção da época de 68. Fui para São Paulo, fiquei clandestina. A minha vida eu posso dividir em três pedaços. Eu acho que eu tive três nomes: fui Terezinha, fui Joana, e fui Tereza. Fui Terezinha, a menina rica, bonita, que usava vestidos de costureiras, importados, depois me divorciei e aí passei a ser Joana, quando eu era clandestina, é uma coisa muito… Eu ainda fico meio engasgada, quando eu falo nisso. É uma coisa muito complicada, você morar numa casa enorme com chofer, eu tinha 11 empregados no dia em que eu saí de casa. Aí você vai para um apartamento desse tamanho, você começa a se despojar de todos os seus valores, tá? Eu fiz Universidade em São Paulo, e vivi clandestina, eu era Joana. (Relato de Tereza Costa Rêgo)”.

Em 1962 apaixona-se por Diógenes Arruda, dirigente do Partido Comunista.

O casal Tereza Costa Rêgo (1929-2020) e Diógenes de Arruda Câmara (1914-1979)

Deixaram o Recife e foram viver para São Paulo. Lá, viveu na até 1969, dedicando-se à arte e aos estudos, formando-se em história na Universidade de São Paulo (USP), quando Diogenes que vivia na clandestinidade foi preso. Apesar da prisão de Arruda, deu continuidade a sua rotina, dando aulas de história e passou a atuar como paisagista.

Três anos depois, com a libertação de Diógenes, decidiram pelo exílio no Chile. Mas com o golpe militar no país, mudaram para Paris, onde passaram seis anos. Foi testemunha de muitos eventos histórico. Juntamente com Diogenes apoiaram as forças revolucionárias da Revolução do 25 de Abril, em Portugal, frequentaram os círculos do poder da China e na Albânia.

Em Paris não parou de pintar. Expôs seus quadros, assinando com o nome de Joanna. Fez doutorado em História, na Escola de Altos Estudos da Sorbone.

“Durante todo esse período de exilio na França, Joana foi uma grande parceira, solidaria e generosa, dedicada à atenção e ajuda aos camaradas e amigos nas dificuldades de toda ordem, próprias das condições do exílio; assumiu inúmeras tarefas do Partido, viajava com Arruda, sendo sua companheira de toda hora. Os textos elaborados por Arruda, eram ditados por ele, e escritos por Joana, em decorrência das sequelas deixadas nas mãos dele pelas torturas que lhe impuseram em sua prisão em São Paulo” Renato Rabelo dirigente do PC do B.

Em 1979, com a amnistia, os dois voltaram para o Brasil. Diógenes morreu pouco depois.

Diante do amor subitamente morto, decidiu: renasceria, definitivamente, como a artista plena que ainda não conseguira ser. “Ali, com ele enfartado diante de mim, enxuguei as lágrimas e resolvi. Chega. Chega de ser a filha do engenho, a bisneta do Conde da Boa Vista, a ex-esposa do juiz, a mulher do líder político. Ali, eu decidi. Seria apenas eu, uma mulher e sua pintura” Tereza Costa Rego

O falecimento de Diógenes marca a mudança de vida e os traços de Tereza, como destaca o jornalista Bruno Albertim amigo e biografo no livro Tereza Costa Rêgo: Uma mulher em três tempos (Cepe Editora).

Tereza foi viver para Olinda e criou um ateliê no Sítio Histórico. “Passou a se dedicar ainda mais às telas, pintando a sua liberdade, das mulheres e do corpo feminino. Suas pinturas se tornaram marco de sua libertação do patriarcado contra o qual ela se rebelou. Tereza é a grande pintora da arte moderna feita em Pernambuco. Tem uma biografia tão grande e tão impressionante quanto a sua obra. Viu de fato o século 20 se constituir e se dissolver na sua frente, incorporando essas vivências na sua pintura Pintou mulheres despidas e se despiu para convocar as mulheres a se despir do fardo do patriarcado”. frisou Bruno Albertim.

Durante estes 40 anos até ao se recente falecimento, dirigiu o Museu Regional, o Museu do Estado e o Museu do Mamulengo. Dá nome a uma galeria do Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco, dedicada a exposições temporárias de artistas nacionais e internacionais. Os seus quadros passaram a ser assinados como Tereza.

“Poucas pessoas captaram a questão do feminino de uma forma corajosa como ela. Com a sensualidade, autonomia, potência, com um olhar para o futuro, jamais aceitando a ideia da mulher submissa, recatada e do lar. Em muitas leituras conservadoras da arte brasileira, a produção feminina é vista como coadjuvante, mas Tereza quebra com isso. Sua produção dá uma dignidade, um tratamento que não se atém só para a beleza do feminino, mas para as suas potências”, Curador Marcus Lontra, crítico de arte.

“Tereza é uma dessas lutadoras, é um exemplo de transgressão de todos os papeis que o patriarcado tentou impor, nascida de uma família tradicional da aristocracia rural pernambucana. Os três tempos de sua vida são muito bem desenhados na sua trajetória: por sua origem, criada para ser apenas decorativa, preparada para um “bom casamento”, tolhida por limites retrógrados; rompe com esse status ultraconservador, desafiou convenções machistas, colocando-se contra as injustiças sociais, demonstrando sua marca de escolhas corajosas, se apaixona, se liga e segue um líder comunista, temido pelo status quo, numa demonstração ostensiva de uma clivagem com seu passado; por fim, após a morte de Diógenes Arruda, sem abandonar a sua formação política e ideológica, que lhe permitiu a maturidade e fortes convicções, assinaladas por ela própria, e seguindo escolhas corajosas, Tereza se encontra com ela mesma, desabrocha sua imensa inspiração artística, com traços e cores inconfundíveis” Renato Rabelo dirigente do PC do B.

Numa das suas ultimas obras Tejucupapo, ela interpreta, de forma épica, um dos mitos de um dos períodos sempre mais mitificados da história pernambucana e brasileira: a presença e expulsão dos holandeses no Brasil. “As imagens dessa batalha me acompanham há muito tempo. É mais ou menos como o que aconteceu com a minha série sobre o bordel. Tinha fascinação pelo tema, mas recalques antigos para trazê-lo a público. Na maturidade, resolvi vomitar o assunto. Chegou, agora, a hora de Tejucupapo” Teresa Costa Rego

Recentemente foi formado o Coletivo de Cultura Tereza Costa Rêgo, por artistas e trabalhadores da cultura de Pernambuco. Ela escreveu-lhes uma carta aonde diz:

“Eu tive uma alegria muito grande e fiquei muito honrada quando soube que ia dar nome a um coletivo de cultura. Um coletivo de cultura no Brasil numa época dessa, com um ambiente político desses, com o clima emocional que o país atravessa nos últimos tempos, é uma coisa muito importante para o Brasil.

Eu sou uma pessoa alegre, contente, não sou uma pessoa dramática. Mas a situação que vivemos hoje não está para brincadeira. Num cenário assim, é preciso se unir. Se os artistas e todo o pessoal da área da cultura se juntar, vai ter muito mais força.

E eu ficarei muito feliz de ver os resultados, que eu sei que virão. Esse coletivo de cultura vai ajudar a criar realidades que estão precisando ser colocadas na mesa. Um povo não existe sem cultura. Gostaria de dividir minha alegria com vocês, porque estou entusiasmada. Dar meu nome a esse coletivo é uma responsabilidade, que eu espero cumprir com dignidade. Um beijo em cada um de vocês, meus amigos”

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