Somos Bielorussos!

Vários países europeus iluminaram os seus monumentos e edifícios principais com as cores azul e amarelo da Ucrânia e muitos cidadãos europeus colocaram tarjetas da mesma cor nas suas fotografias com os dizeres: Somos ucranianos!

É um respeitabilíssimo reflexo de emoção e de bons sentimentos, mas é sabido quanto os sentimentos e as emoções perturbam a razão. Esta reação de entidades e de pessoas comuns é a esperada perante como resultado das ações de condicionamento de emoções que estão em curso nesta guerra, como em todas, aliás. Os nossos líderes querem que nos vejamos como ucranianos e fazem os possíveis através das imagens dos dramas pessoais que transmitem nas TVs que é reconfortante estarmos do lado do Bem. Mas a opinião que temos a nosso respeito pode não corresponder à opinião dos outros. Há quem nos veja como bielorussos. Julgo que é assim que nos vêm os dois antagonistas deste conflito, os poderes reais em Washington e em Moscovo.

Há pouco, 17 horas de domingo 27 de Fevereiro, a presidente da Comissão Europeia e o Alto Comissário para as Relações Externas da União Europeia vieram afirmar, de forma criptada, evidentemente, que a União Europeia estava para os Estados Unidos como a Bielorrússia para a Rússia: A UE era um Estado Satélite, por isso se prestavam a colocar em prática um conjunto de medidas de apoio à manobra dos Estados Unidos neste confronto com a Rússia, que é o que está a ocorrer e tendo essas duas superpotências como protagonistas.

Desde o final da guerra fria, do colapso da União Soviética e, em particular desde a emergência da China como superpotência, com a entrada na Organização Mundial do Comércio, que os Estados Unidos elegeram o gigante do Pacífico como o seu competidor/inimigo principal e o grande Oceano como a sua zona de interesse vital. A frente Leste da Europa deixou de ser a primeira prioridade, mas não podia nem pode ser descurada. Daí a manobra de colocar a sua fronteira (a dos EUA) com a Rússia o mais a Leste possível, primeiro com a integração da Polónia, Hungria e Roménia e dos países bálticos na UE e na NATO e o desmantelamento da Jugoslávia. A pedra de fecho desta Cortina de Ferro sobre as fronteiras ocidentais da Rússia seria a integração da Ucrânia na NATO e na União. Europeia. A fronteira dos EUA/Nato ficaria então a cerca de 700 quilómetros de Moscovo, a 50 minutos de um avião comercial!

A atual “operação especial” da Rússia é, em termos militares, uma operação de defesa avançada, ou de defesa ativa. A Bielorrússia serviu de ponto de apoio para o seu lançamento.

Nesta operação da Rússia de colocação da sua linha principal de defesa (que os militares designam por OAZR — orla anterior da zona de resistência) a União Europeia está a desempenhar o mesmo papel da Bielorrússia, no seu caso ao serviço dos Estados Unidos, como confirmaram os dois dirigentes hoje à tarde, com mais um pacote de medidas de apoio, que já incluem o fornecimento de armamento ao elemento que funciona como casus belli.

No conflito entre os Estados Unidos e a Rússia, a União Europeia tinha duas posições possíveis: servir de força de interposição, de amortecimento, assumindo os custos e também os benefícios de uma digna e proveitosa autonomia estratégica, ou servir de estado vassalo dos Estados Unidos.

Este conflito revelou a opção da União Europeia pelo papel de estado vassalo. É uma decisão dos dirigentes europeus e que estes têm apresentado como sufragada pelos cidadãos europeus através das manifestações que são exibidas nos seus grandes meios de manipulação, que foram decretados como os únicos autorizados a manipular, com a exclusão dos meios russos, o que é um ato natural de controlo de estados psicológicos de populações em situações de guerra.

Na realidade os dirigentes europeus nunca colocaram a questão do papel da Europa no mundo na agenda das suas campanhas eleitorais. As suas decisões são plebiscitadas, ou assumidas como decorrentes do mandato geral de governação. E agora estamos em guerra, sem declaração, nem aprovação!

O que é um facto é ser esta a opção da União Europeia: um espaço adventício dos Estados Unidos! E não boa nem má: É esta! Logo se verão as consequências do estado do guerra e da guerra em si. Ou alguém as equacionou?

Resta agora aceitar as consequências. Algumas parecem claras, independentemente do resultado no terreno, se a Ucrânia entra para a NATO e para a UE, se fica com um pé dentro e outro de fora, qual o grau de neutralidade ou de integração: Os Estados Unidos e os seus cartéis determinarão o preço da energia na Europa (logo do custo de vida e do nível de bem-estar das populações europeias); dominarão as áreas de investigação fundamental e as transferências de altas tecnologias; as redes de dados e de informação, o aeroespacial, de conjuntos integrados de satélites de informação, meteorológicos, de geolocalização (GPS), as telecomunicações, Deutsche Telekom, France Telecom, Telefónica etc.…Este domínio terá consequências em grandes empresas como a EADS (European Aeronautic Defence and Space Company) que integra a Airbus e a Europcopter), por exemplo que serão naturalmente integradas como subsidiárias do complexo militar industrial americano. O Euro será, como a libra, uma versão do dólar — o dólar europeu.

Mas os dois hierarcas da União Europeia também vieram dizer que a União deixou de ter alternativas de alianças e de ter peso noutros continentes, nomeadamente em África e na América Latina. Se a União Europeia se colocou debaixo da asa americana, que vantagens teriam os Estados africanos e latino americanos de se aliar à Europa? Porque correriam o risco de optar por uma petrolífera europeia se os americanos a dominariam (caso da Total francesa em Moçambique), por exemplo? Porque comprar aviões europeus? Ou submarinos (caso da Austrália com os submarinos franceses)? E o que terão os europeus a propor à Índia, os números de telefone da Casa Branca, ou do Pentágono, da General Electric ou da Boeing?

Um último ponto. Alguns analistas falam na necessidade de um Exército europeu. Não há nenhuma necessidade. Os europeus apenas são necessários para estes trabalhos de apoio, do tipo bielorusso, fornecer bases, recolher refugiados, tratar dos aspetos humanitários, o que alivia as consciências e, acima de tudo, comprar material americano.

Como corolário deste confronto, se as coisas correrem mal para o lado russo, como alguns europeus tão empenhadamente desejam, a Europa ver-se-á como alvo de armas nucleares táticas! Uma bela perspetiva!

Quem não salta é russo!

Nestes momentos de crise seria conveniente manter a cabeça fria, mas isso não rende votos… e estamos na fase em que os europeus parecem gritar como nas festas de adolescentes bem bebidos que quem não salta é russo!

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