Solidariedade com Rojava

Desde 9 de outubro, os povos do Curdistão sírio vêm sofrendo crimes terríveis cometidos pelo exército turco e pelos seus aliados jihadistas. Enquanto estes crimes continuarem, e enquanto os nossos representantes se mantiverem em silêncio perante estes massacres, é também nossa responsabilidade agir contra esse silêncio.

Sentimos que devemos exigir dos nossos representantes uma afirmação inequívoca de que a posição de Portugal e dos portugueses é pelos povos do Curdistão e pela paz e democracia no Médio Oriente.

A “RiseUp 4 Rojava Portugal” propõe que cada um de nós tome posição, subscrevendo a carta abaixo transcrita —- o que eu próprio já fiz.

Convidamos-vos a ler esta carta e, caso aí sintam a vossa voz representada, que também a assinem e enviem aos vossos representantes, seja nas autarquias, nos governos regionais, na Assembleia da República, no Parlamento Europeu ou na Presidência da República, independentemente da afiliação política. Quantos mais formos, mais forte será a nossa voz. Usemo-la em prol da democracia, da paz e da solidariedade internacional.

“Exmos. Srs.
Há cinco anos, o mundo assistia a uma resistência sem precedentes na cidade de Kobane, no Norte da Síria, onde homens e mulheres combateram lado a lado contra as atrocidades do Estado Islâmico (EI), um dos maiores grupos terroristas de sempre. Foi também nesta região que assistimos à emergência de um projeto democrático confederalista, onde milhares de refugiados encontraram um porto seguro, após uma das mais terríveis e longas guerras. É nesta região que curdos, Árabes, Assírios, Yazidis, entre outros, coexistem pacificamente, construindo uma sociedade baseada na igualdade de género e na tolerância étnica e religiosa.

A operação “Nascente de Paz”, movida pelo exército turco e seus aliados jihadistas, apresenta-se sob o pretexto de criar um corredor fronteiriço de segurança (em território sírio), para o regresso de 1.2 milhões de refugiados sírios, atualmente na Turquia, bem como garantir a segurança da fronteira turca. Segundo um relatório publicado pelo Rojava Information Center, já existem na região 1.65 milhões de pessoas em necessidade de ajuda humanitária e 310.000 deslocados internos, sublinhando que a capacidade de assistência na Síria se encontra no seu limite.

Adicionalmente, alerta o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados que “o regresso de refugiados à Síria deve ser voluntário, digno e quando for efetivamente seguro regressar”. Note-se ainda que, perante a pressão internacional, o presidente turco ameaçou enviar estes refugiados para a Europa. O realojamento forçado destas pessoas nunca poderá validar esta ofensiva.

Além disso, e como temos assistido nos últimos dias, este ataque da Turquia, nação aliada de Portugal na NATO, e seu segundo maior exército, representa uma clara tentativa de genocídio e limpeza étnica das populações locais, tendo já levado ao ressurgimento de células do EI em regiões previamente libertadas.

Segundo dados do Observatório Sírio para os Direitos Humanos (a 22/10/2019), em pouco mais de uma semana esta ofensiva já forçou à retirada de 300.000 pessoas, bem como a morte de 120 civis e centenas de feridos. Também 500.000 pessoas ficaram sem acesso a água. Há não sós relatos de execuções sumárias, como a da secretária-geral do Future Syria Party, Hevrin Khalaf, bem como vídeos divulgados pelas próprias forças jihadistas nas redes sociais. Várias organizações humanitárias, incluindo a Amnistia Internacional e o Crescente Vermelho curdo, denunciam que as forças do exército turco estão a usar armas químicas, como o fósforo branco, contra civis.

O recente “acordo de cessar-fogo” entre Estados Unidos e Turquia foi repetidamente quebrado pelo exército turco, como mostram os vários ataques em Ras Al-Ayn / Serekanye, cidade que foi, entretanto, evacuada. Tratou-se de um acordo unilateral que acolhe os objetivos da operação “Nascente de Paz” e não de uma garantia de segurança para as populações locais. Durante toda a operação, as forças turcas e pró-turcas têm estado a cometer crimes de guerra amplamente documentados.

Enquanto cidadãos, cabe-nos repudiar veementemente esta ofensiva. Assim, exigimos uma tomada de posição forte dos nossos representantes eleitos. Para parar este genocídio, Portugal e a União Europeia devem trabalhar em conjunto de forma a garantir com urgência o seguinte:

• O cessar total da invasão turca, assim como a retirada de todas as suas forças do território sírio.
• A declaração de uma zona aérea de exclusão no Norte e Nordeste da Síria.
• A facilitação da entrada de ONG de ajuda médica e humanitária no terreno, bem como a criação de corredores humanitários.
• Embargos e sanções económicas, em especial sobre as importações e exportações de armas.

Contamos com a vossa colaboração.
Com os melhores cumprimentos,”

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