Socialismo e Ecologia – o rumo necessário

O capitalismo explora a natureza com a mesma avidez com que explora homens e mulheres.

A mais recente crise mundial é o resultado de um regime de especulação e acumulação de riqueza imoral – fenómeno há muito conhecido – mas também de um produtivismo desenfreado, baseado na exploração irresponsável dos recursos naturais e em atentados à biodiversidade, tendo como consequência mais visível e grave o aquecimento global e as alterações climáticas.

É importante compreender que a catástrofe ecológica hoje anunciada não será a mesma para ricos e pobres. Os mais vulneráveis economicamente, seja em países mais desenvolvidos, mas sobretudo nos países em desenvolvimento, são quem mais sofrerá com a degradação ambiental que o regime capitalista nos impõe.

Uma sociedade virada para o futuro, tendo como base o legado marxista e socialista, deve responder à degradação social, ao aumento das desigualdades e à injustiça generalizada, mas também agora à degradação ambiental que a todos afecta, inclusive e principalmente as gerações dos nossos filhos e netos.

O crescimento económico, se baseado no mesmo regime de exploração do trabalho dos mais pobres e no esgotamento dos recursos naturais, não poderá nunca, por si só, sequer mitigar este caminho para o definhamento irreversível das sociedades humanas.

É fundamental que a partir de hoje mesmo se opere uma mudança profunda nos nossos modos de produção e consumo. Estes deverão ter como objectivo primordial satisfazer as necessidades humanas, da forma mais equitativa possível, preservando, ao mesmo tempo, os recursos naturais, indispensáveis à nossa sobrevivência, assim como dos demais seres vivos que connosco partilham o planeta.

Movemo-nos a energias fósseis altamente poluidoras. O seu esgotamento, inevitável, impõe uma reorganização dos nossos modos de vida. Os subsídios à produção e distribuição de energias fósseis deverão terminar, assim como qualquer apoio à sua prospecção. As energias renováveis deverão estar no centro da transição energética, mas também a redução do consumo e de bens supérfluos deverá fazer parte dos objectivos globais e particulares de cada país, de cada família e de cada indivíduo.

Ao nível dos estados, tal passa pela aposta nos transportes colectivos, na melhoria da eficiência energética dos edifícios e veículos, pela redução do transporte de mercadorias a longas distâncias, pelo desenvolvimento dos circuitos curtos de produção, pelos mercados locais, pelo aposta nos produtos de grande durabilidade, ao invés daqueles com obsolescência programada ou objectos de consumo imediato e de modas.

A exploração agrícola deverá caminhar no sentido de extinguir modelos de produção intensiva, depauperadores de recursos, gulosos em energia e por vezes prenhes de químicos nocivos. Ao invés, a agricultura familiar e a pesca sustentável deverão ser fortemente apoiadas, assim como os modos de produção biológica. Esta deverá ser uma exigência de qualquer estado junto das instâncias comunitárias e organismos de representação mundiais.

Os sistemas capitalistas de direitos de poluição transacionáveis, como as taxas de produção de CO2, equivalem à distribuição de direitos de propriedade sobre os recursos comuns, como o ar e a água, que são ou deveriam ser, inalienáveis.

Contrariamente a estes sistemas, que empurram os problemas para cima dos que menos causam a destruição ecológica, os instrumentos de incentivo financeiro e fiscais deverão ser utilizados apenas para premiar modos de vida sustentáveis e comportamentos amigos do ambiente. As indústrias danosas para o ecossistema e a saúde deverão ser fortemente taxadas, penalizadas e, finalmente, substituídas por outras mais ecológicas.

Cada estado tem a obrigação de traçar, democraticamente, objectivos ambientais concretos e reflecti-los nos seus orçamentos, ou seja, prevenir em vez ter de correr atrás do prejuízo.

O desenvolvimento económico não poderá mais ser perseguido de forma predatória, acumuladora num só lado – o do capital – desprezando os objectivos de sustentabilidade de que todos nós necessitamos e dos quais poderemos, se agirmos a tempo, beneficiar. A resposta exige-se hoje, não apenas em palavras mas em actos.

Imagem: Victor Pinto

1 comentário em “Socialismo e Ecologia – o rumo necessário”

  1. Quer esta opinião dizer que se concorda com o decrescimento como forma de viabilizar a sustentabilidade no planeta?

    E que, atendendo a que o nível de poluição e consumo de recursos naturais como solo e água potável é brutal na criação de animais, se devem seguir padrões de consumo alimentares e não só que eliminem esse consumo e respectiva produção?
    A título de exemplo note-se que a alimentação exclusivamente de base vegetal, feita nos níveis mais baixos da cadeia alimentar, é energeticamente muito mais eficiente gerando menos desperdício e menos agressões ao ambiente, ser biológico não basta.

    “A pecuária, incluindo aqui produção de todos os derivados animais, é responsável pelo consumo de 70% de água fresca do planeta, 38% de uso da terra e 19% da emissão de gases estufa, diz o relatório, que foi liberado para coincidir com o dia Mundial do Meio Ambiente no sábado.”

    https://www.anda.jor.br/2010/06/onu-recomenda-dieta-vegana-para-combater-mudanca-climatica/

    Ou é simplesmente actual e factual que o planeta não aguenta mas não há coragem para ir ao cerne das questões?

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