Silêncio sobre a Grécia

A Grécia desapareceu das primeiras páginas e dos espaços de notícias internacionais. Mas, há 6 anos, a comunicação social acompanhava ao minuto os atrevimentos de um governo do Syriza que ameaçava não pagar uma dívida até pelo FMI classificada de “impagável”.

O desfecho desse confronto é conhecido. As autoridades europeias e o Fundo Monetário Internacional levaram ao tapete um país exangue, arruinado e, para usar as palavras do jornalista francês Serge Halimi, “rebaixado à categoria de protetorado”.

O silêncio sobre a atual situação grega indicia que terá sido reposta a ordem de quem manda e se terá voltado ao “normal”.

Na edição portuguesa de novembro do Le Monde Diplomatique, Serge Halimi traça um retrato pequeno mas muito impressivo dessa normalidade imposta pelo esmagamento da luta do povo grego, em 2015.

“Aumentos fulgurantes das taxas e das contribuições da Segurança Social; um aumento para os 67 anos da idade da reforma (tendo as reformas sido amputadas catorze vezes seguidas); diminuições dos subsídios de desemprego e do salário mínimo (menos 32% para os menores de 32% para os menores de 25 anos); hospitais a abarrotar e sem meios nem medicamentos, etc”.

É gritante a degradação da vida do povo grego, de há 6 anos para cá.

Em 2015, qualquer despesa social era classificada com incompatível com o imperativo pagamento da dívida externa. Contudo, a parte dos créditos militares no PIB da Grécia passou de 2,46% em 2015 para 2,79% no ano passado.

Segundo Halimi, as forças armadas gregas receberam “vinte e quatro aviões de combate Rafale e três fragatas de último grito, enquanto aguardam pelos F-35 e pelos helicópteros Sikorsky, sem esquecer os aviões teleguiados (drones), os torpedos e os mísseis”.

Tais gastos não incomodam a ortodoxia financeira. Assim como não parece incomodá-la o aumento da dívida externa grega ter passado dos 177% do PIB, em 2105, para 205%, em dezembro do ano passado.

Tão revelador como a evolução social, económica e militar da Grécia será, talvez, o silêncio que sobre ela se abate na comunicação social dita de referência.

Quem, em Portugal, defende que, tarde ou cedo, terá de haver um enfrentamento com a finança, para renegociar a dívida externa terá de atender a todos os contornos da “batalha grega”. No muito que se disse e também no muito mais que agora é silenciado.

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