Riccardo Marchi e o Chega: um partido ‘anti-sistema’ ou um instrumento legitimador da extrema direita?

Tendo subscrito um manifesto conjunto sobre o livro de Riccardo Marchi intitulado “A nova direita anti-sistema. O caso do Chega” – manifesto este que, sendo obviamente legítimo, teria sido entendido por algumas vozes como um ‘ato de censura!’ – reafirmo que o referido livro, apresentando o Chega como um partido radical da nova direita, acaba por, sob uma capa alegadamente científica, legitimá-lo como um partido da nova direita radical, liberal na economia, moral e politicamente conservador mas democrático. Com efeito, o autor obnubila  o facto de estarmos perante um partido não só de extrema direita, como imbuído de traços racistas e xenófobos, cavalgando sobre o descontentamento presente em crescentes camadas da população portuguesa, carenciadas mas desinformadas sobre as causas do seu mal-estar, insatisfação e insegurança. Estas camadas populares têm razões para desacreditar de tradicionais partidos rotativos no poder que prometem mas não cumprem e/ou têm estado enleados em interesses e promiscuidades entre o económico e o político, entre agentes do setor público e do privado. Porém, o que leva Riccardo Marchi a considerar o populista Ventura e seu Chega como uma alternativa anti-sistema?

Este texto visa contribuir para desmontar a falaciosa narrativa de que o Chega seja um partido anti-sistema. Toda e qualquer extrema direita – desde a velha implantada sob o nazismo, passando por diversas experiências políticas autoritárias e ditatoriais, até aos velhos e novos projetos fascizantes ou fascistas corporizados por partidos de extrema direita na Europa e no mundo – apresenta-se contra o sistema da democracia formal implantado, amiúde acusado de elitista e corrupto, mas jamais foi ou é uma alternativa anti-sistema.

De facto, os sistemas ditatoriais e fascistas no quadro do capitalismo foram gerados pelo próprio sistema capitalista que, quando não consegue subjugar e/ou domesticar as classes populares, nomeadamente trabalhadoras, sobretudo quando insurgentes, não tem qualquer pejo em socorrer-se de vias ditatoriais ou mesmo fascistas para manter os poderes, interesses e inerentes privilégios das classes dominantes.

Mas voltando ao livro de Riccardo Marchi: qual ou quais os critérios sustentados por este  cientista político que, em conformidade com a encomenda da Editora, implicaria recusar ora a apologia ora a diabolização do Chega? O autor aponta três fontes: a imprensa portuguesa, os documentos elaborados pelo Chega e as entrevistas em profundidade realizadas com duas dezenas de fundadores do Chega. Ora este pretenso cientificismo político redunda de facto num completo fechamento justificativo que toma à letra e incorpora ‘ingénua’ e piamente as narrativas escritas e orais internas do líder e fundadores do Chega, aos quais atribui um coerente valor facial, ao mesmo tempo que desqualifica vozes externas nomeadamente críticas.  Mas, lendo atentamente o livro, o autor, posicionando-se como um cientista social neutro, reproduz de modo descritivo e acrítico a trajetória e as vicissitudes, os posicionamentos e narrativas dos protagonistas do Chega, ignora as discrepâncias entre a retórica e as práticas e objetivos do Chega e, mesmo quando discute as ideias do líder e demais fundadores, de modo algum problematiza, interpela ou sujeita à análise crítica os mais diversos e até contraditórios posicionamentos. Poder-se-ia conjeturar que Riccardo Marchi professa um posicionamento positivista, mas convinha ter presente que os positivistas desde Comte aos mais recentes, apesar de se declararem observadores rigorosos no método e pretenderem separar factos sociais e valores, na prática injetam sob a auréola cientificista os seus próprios valores e ideologias que servem outros objetivos, mesmo quando não abertamente confessados, como me parece ser o caso deste livro. Basta ver a repercussão e aceitação que o livro teve entre arautos da extrema direita e inclusive dalguma direita. Por exemplo, Luiz Cabral de Moncada subscreve a tese de Marchi, a qual seria susceptível de desacreditar todos os partidos por igual, salvo o do Chega, avaliando todos os políticos e deputados como arrivistas, irresponsáveis e apontando a partidocracia como a raiz de todos os males da República mas sem identificar nem pôr em causa sequer os interesses do grande capital (inter)nacional. Com efeito, este facto por si só seria suficiente para concluir que o Chega não é anti-sistema, mas defensor do vigente sistema económico (neo)liberal desregulado com a particularidade de pugnar por um modelo conservador de família e por um ‘Estado forte’ mas supletivo e minimalista em serviços e bens públicos (educação, saúde, segurança social), tal como se lê em diversos documentos do Chega, escritos e testemunhos do líder, de seus ideólogos e militantes. Porém, Marchi prescinde de operar uma análise comparativa com os demais partidos de modo a aferir quais os partidos que são do sistema e os anti-sistema. Se o autor procedesse a tal exercício comparativo, uma simples leitura dos programas dos partidos existentes levá-lo-ia a concluir que são justamente os partidos de esquerda BE e PCP/PEV – que não o PS, apesar da sua designação de socialista – que são os reais partidos anti-sistema, em termos económicos e políticos, pela simples razão de estes partidos, não obstante serem respeitadores da Constituição e do próprio Estado de Direito, apontarem o socialismo como alternativa ao capitalismo. Mais, para além desta distração imperdoável, Marchi preferiu fixar-se de modo subtilmente propagandístico no Chega, assumindo-o acrítica e aprioristicamente como um partido anti-sistema, avaliando mesmo como positiva a função do Chega por aproximar e mobilizar setores sociais desinteressados ou desanimados da política, traduzir pulsões anti-sistema segundo as regras do jogo democrático e reduzir a margem de manobras dos extremismos. Se é certo que no Chega há militantes e apoiantes de diversas tendências  (ultra)conservadoras, o autor não aferiu devidamente a presença e/ou infiltração de grupos ou figuras de orientação declaradamente fascista nem investigou sobre eventuais financiamentos semiocultos nomeadamente por parte de figuras políticas (inter)nacionais e/ou pastores reacionários de Igrejas Evangélicas originárias do  Brasil. Mais ainda, o autor nem sequer analisou criticamente o programa do Chega, do seu Manifesto e doutros documentos e sobretudo das suas posições e práticas políticas antes e durante a sua formação até ao presente e, como tal, desrespeitadores de princípios e valores civilizacionais que dizem proclamar, o que se manifesta em: (i) assumir sem filtragem crítica a tese de que o fascismo seria um sistema derivado do socialismo; (ii) considerar o poder da maioria (do ‘povo’ entre aspas) como abominável; (iii) anunciar uma IV República ‘ideologicamente neutra’, assumindo esta III República nascida com o 25 de Abril de 1974 e a Constituição de 1976 como geradora de ‘corrupção’ e de partidos ‘mafiosos’, clientelares e rotativos no poder, a saber, o PSD/CDS, PS/PSD ou PS apoiado por BE e PCP/PEV ; (iv) advogar por um Estado securitário e apresentar propostas como a castração química para violadores, a pena de prisão perpétua e o trabalho forçado para reclusos; (v) negar o esclavagismo e até elogiar a colonização portuguesa realizada e a que se pretenda fazer (“o orgulho de dar novos mundos ao mundo”); (vi) estimular o ‘ódio’ a migrantes irregulares e a ‘deportação’ de islâmicos, ciganos ou negros, incluindo legítimas deputadas eleitas na Assembleia da República como Joacine Katar Moreira; (vii) a simpatia, adesão e/ou integração do Chega pela família política da extrema direita na Europa e no mundo (vg. Vox, Liga Italiana, partidos xenófobos de países de Visegrado, Trump e  Bolsonaro);  (viii) recusar o ‘marxismo cultural’ e a alegada ‘ideologia de género’ com grande dose de ignorância e mistificação,  num alinhamento com os referidos partidos de extrema direita; (ix) e, por fim e certamente ainda mais relevante, a hostilidade ao multiculturalismo, a assimilação forçada, os ataques xenófobos e racistas, nomeadamente propostas de confinamento e criminalização das comunidades ciganas  classificadas como ‘ilegais’, ‘incumpridoras’ de deveres e ‘parasitárias’ do Estado, aliás colocados no mesmo registo que banqueiros fraudulentos ou políticos corruptos.

Ora, se nem a própria direita liberal defende tais propostas anticivilizatórias, em que quadrante político coloca e/ou deveria colocar Ricardo Marchi o Chega? Por que é que se recusa classificar o Chega na extrema direita inclusive com laivos racistas e xenófobos para o classificar como ‘Nova direita’ radical e ‘anti-sistema’? Mas a que sistema se refere? Por que é que o autor, à boa maneira de teóricos liberais, analisa o político como um mundo do poder separado do económico (propriedade, capital, relações laborais)?

Perante o crescendo da influência do Chega na sociedade portuguesa, o que fazer neste quadro? Ignorar o Chega, como algumas vozes no seio de partidos de esquerda apontam, para não lhe dar publicidade? Ou, como fazem responsáveis de um outro partido de esquerda, meter a cabeça na areia sustentando de que não existem na sociedade portuguesa, nomeadamente e inclusive entre classes populares e trabalhadoras, preconceitos e representações xenófobas, por exemplo, contra islâmicos, negros e sobretudo ciganos?

Se as narrativas de políticos do tempo colonial e salazarista, que apresentavam Portugal como um ‘país de brandos costumes’, lusotropicalista e  multirracial entraram em descrédito, como se explica que no Portugal democrático desde 1974 e, em particular, o atual Presidente da República continue a fazer proclamações categóricas de que Portugal é um país não só multirracial e multicultural como universalista que não conhece no seu seio formas de racismo institucional e quotidiano, flagrante e subtil?

Os dados apurados por cientistas europeus e portugueses como Jorge Vala, Alice Ramos e outros apontam uma taxa mais elevada de ‘’racismo biológico” e ‘racismo cultural’ em Portugal que a média europeia, ou seja, respetivamente 52,9% e 54% versus 29,2% e 44%. Eu próprio, em investigação realizada há mais de 15 anos sobre relações e representações interétnicas entre portugueses e africanos negros e portugueses ciganos (cf. Africanos dos PALOP no Distrito de Braga e Sina Social Cigana), constatava esta realidade no distrito de Braga e outros estudos mais recentes a nível nacional o confirmam. E é justamente neste campo que as esquerdas devem levar esta realidade em linha de conta na base dos interesses de classe e étnico-raciais das camadas populares autóctones e imigrantes, os quais importa conjugar e articular e defender em base unitária. Torna-se imperativo não só esclarecer as populações menos informadas – que veem os imigrantes como concorrentes e ‘bodes expiatórios’ das suas situações precárias – como lutar no terreno e a nível institucional para que o Estado proporcione segurança mínima e acuda a carências básicas que, além de dividir, atingem não só as minorias étnicas como uma parte considerável de portugueses/as, desprovidos de recursos e abandonados nas periferias e subúrbios. Uns e outros são vítimas do sistema capitalista e cujos problemas os Venturas do Chega de modo algum estão interessados em resolver, mas em instrumentalizar demagogicamente no campo eleitoral para seus objetivos de poder musculado na mira de um Estado penal e punitivo contra os mais vulnerabilizados.

Concluindo, contrariamente à acusação de que os subscritores críticos do manifesto sobre o livro de Riccardo Marchi teriam cometido um ‘ato de censura,’ parece evidente  que se trata de expressão crítica sobre um livro que legitima um embuste ‘democrático’ chamado Chega.

 

Destaques e sublinhado da responsabilidade de Via Esquerda

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