Revista do CES (Univ. de Coimbra) refere o “enorme contributo para a construção de uma práxis ecossocialista” das ativistas Maria do Carmo Bica e LaDonna Brave Bull Allard

O mais recente número da revista eletrónica e-cadernos CES, uma publicação semestral científica editada pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, que visa promover a divulgação de investigação avançada produzida no âmbito das ciências sociais e humanas, é dedicado a Maria do Carmo Bica, bem como a uma historiadora, LaDonna Brave Bull Allard, membro da tribo Standing Rock Sioux (EUA).

Na abertura da revista, é referido que “Dedicamos este número a duas maravilhosas mulheres, que muito admiramos, e que partiram recentemente: Maria do Carmo Bica e LaDonna Brave Bull Allard. Ambas deram um enorme contributo para a “construção de uma práxis ecossocialista para as transformações sociais e o Bem Viver para todas as pessoas da Terra” (Manifesto dosIV Encontros Internacionais Ecossocialistas, 2018).

Fonte de energia e inspiração, Carmo Bica era agro-activista, dirigente associativa e engenheira agrícola. Presidiu até 2020 à Cooperativa Três Serras de Lafões, em Vouzela, e durante 18 anos esteve à frente da

Carmo Bica

Associação de Desenvolvimento Rural de Lafões. Integrou o Grupo de Trabalho de Agricultura do Partido da EsquerdaEuropeia (2012-2020) e o Grupo de Trabalho de Agricultura e Desenvolvimento Rural do Bloco de Esquerda.

LaDonna Brave Bull Allard

Alimentadora e congregadora das lutas, LaDonna Brave Bull Allard era membro da tribo Standing Rock Sioux, no Texas, Estados Unidos da América, e historiadora tribal. Dedicou a sua vida à protecção da água e foi líder do movimento global de oposição à construção do ducto de transporte de petróleo de Patoka até Nederland, no Texas, o Dakota Access Pipeline (DAPL). No contexto desta luta, foi a fundadora do Sacred Stone Camp em Standing Rock, um acampamento cultural dedicado à preservação das tradições culturais Dakota, Lakota e Nakota, perto de Cannon Ball, na fronteira nordeste da reserva.”

O número 34 da e-cadernos CES , organizado por Lanka Horstink (ICS), Lúcia Fernandes (CES) e Rita Campos (CES), tem como tema “Alerta vermelho, alerta verde: dar forma à transformação ecossocialista”. Na nota introdutória, as organizadoras consideram que o “ecossocialismo tem como premissa principal a indissociabilidade do socialismo e da ecologia. Um socialismo não-ecológico é um beco sem saída e uma ecologia não socialista não está preparada para lidar com a complexidade da presente crise ecológica (Löwy, 2015: xi). Assim, o ecossocialismo afirma-se como uma resposta “vermelha verde” aos desafios dramáticos que a humanidade enfrenta: e.g., o colapso ambiental – incluindo a deterioração acentuada dos ecossistemas –, a imparável perda de espécies, a desflorestação descontrolada, ou a aceleração do aquecimento global.”

Segundo aquelas autoras, “as pessoas com poder de decisão a todos os níveis, desde o supranacional ao local, falharam redondamente em mitigar, ou mesmo reverter, a tendência do aumento das emissões globais de gases com efeito de estufa e a degradação ambiental agregada, enquanto “a análise e o diagnóstico das raízes e causas da crise ambiental é, na maioria dos debates correntes, embaraçosamente superficial” (Borgnäs et al., 2015: 2). Há provas mais do que suficientes de que o capitalismo neoliberal não só cria como se sustenta na presença de mecanismos socioeconómicos tais como a desigualdade social, a acumulação do capital, a financeirização extremada, e as democracias débeis (ibidem). Löwy (2013: 79) fala até em uma “total irracionalidade de um sistema económico baseado na mercantilização de tudo, na especulação desenfreada, no totalitarismo dos mercados financeiros e na globalização neoliberal ao serviço exclusivo do lucro capitalista”.

34 | 2020 Alerta vermelho, alerta verde: dar forma à transformação ecossocialista (openedition.org)

Deixe um comentário