Privacidade à venda

Todos os dias usamos redes sociais. É lá que sabemos o que se passa com os nossos amigos e é onde muitas pessoas partilham informação, notícias e propaganda. Todos os dias, por comodidade, se precisamos de encontrar um sítio onde ir comer, onde comprar determinado produto, ou se só queremos saber o caminho mais rápido para chegar a algum lado, usamos a Google. Todos os dias, ao ligar o nosso computador, utilizamos o sistema operativo da empresa Windows ou Apple, na maioria dos casos. Todos os dias entregamos, gratuitamente, todos os nossos dados pessoais a um pequeno conjunto de empresas.

Hoje, menos de uma mão de empresas privadas dos Estados Unidos da América – Google, Facebook, Windows e Apple, controlam e guardam nos seus servidores, o sumo da informação pessoal de milhares de milhões de pessoas, de virtualmente todos os países do mundo. Com que fim querem estas empresas tanta informação? (Que é privada e pessoal) É simples, para vender a outras empresas, para decidir quais os melhores anúncios e propaganda para cada qual e, com isso, modificar o comportamento das pessoas, mesmo que ligeiramente, para aumentar os lucros das empresas que mais investirem nesses meios.

Hoje é impossível ser uma grande empresa, ou até mesmo média empresa, sem investir muito dinheiro nos meios disponibilizados pela internet, que são esmagadoramente controlados pelas empresas acima mencionadas. Hoje, as pessoas vivem presas a essas empresas que monopolizaram todos os serviços mais importantes e uteis da internet.

No caso da Google, o que antes era apenas um motor de busca, controla hoje o mercado de anúncios na internet, tem o browser mais utilizado de todos, a melhor aplicação para mapas, para guardar e partilhar documentos, entre muitas outras aplicações, como a visualização e partilha de vídeos (a YouTube também é controlada pela Google). Só não conseguiu ganhar à Facebook nas redes sociais e à Windows e Apple em sistemas operativos, de resto, asfixia todas as outras alternativas. A Facebook, pelo seu lado, controla todo o mercado de redes sociais, quando usamos Instagram e o WhatsApp, por exemplo, a Facebook tem acesso a toda a informação que partilhamos, incluindo mensagens privadas, que usa para vender para empresas, para aplicar algoritmos que tentam prever e modificar o nosso comportamento – para decidir o que compramos a seguir.

Ou pior, para decidir em quem votamos, como foi o caso (escandaloso) da Cambridge Analytics, que usou informação de milhões de pessoas dos Estados Unidos para prever que slogans políticos provocavam maior reação nas pessoas. Essa empresa percebeu, entre outras coisas, que propaganda a favor da construção de um muro a impedir a entrada de emigrantes nos Estados Unidos provocava reações bastantes fortes nas pessoas e, curiosamente, no ano seguinte é um dos maiores slogans de Donald Trump, que venceu as eleições em 2016. Há ligações entre a utilização de redes sociais e a eleição de Bolsonaro ou o referendo Britânico que levou à saída da UE, entre outros exemplos.

Qual é o maior problema desta utilização dos nossos dados pessoais?

As empresas que pagarem mais são as que sobrevivem, os políticos que pagarem mais, são os que vencem. A informação que vemos em qualquer rede social não é, de nenhuma forma, imparcial, é sempre (e repetimos, sempre!) moldada para cada um de nós, de acordo com o que provoca maior reação. Se o que não gostamos na sociedade é o que provoca mais reação, vão-nos mostrar o que não gostamos e isso explica (pelo menos parcialmente) o porquê de tanto populismo de extrema direita a crescer nos últimos anos – Porque são meios que facilitam a desinformação, a alienação e a política feita de casos, alheia à visão geral, aprofundada e séria dos factos.

A questão está em como resolver este conjunto de problemas, sem colocar em risco a liberdade da internet. Problemas novos certamente vão necessitar de soluções novas e a maior parte dos partidos políticos, da esquerda à direita, não sabe como lidar com estas questões tão recentes. Mas é um bom começo entender que nem a Facebook, nem a Google são de utilização gratuita, pagamos com os nossos dados pessoais. Essas empresas não sabem “algumas coisas” sobre nós, sabem tudo (mesmo tudo!)

No final das contas, não somos tanto utilizadores como somos o produto (através das nossas informações) que é vendido.

Deixe um comentário