Piromania política

Caros, em matéria de eucalipto eu sugiro fazerem o que eu fiz sempre com as minhas médicas sobre a pílula. Em geral a resposta à minha pergunta – “Há risco de cancro ou cardíaco?” – era sempre a mesma: “há risco de cancro, mas depende da genética; há risco mas não se sabe bem; há estudos que até provam que a pílula protege de certos tipos de cancro; há muitas mulheres com cancro que não tomam a pílula”. Bom, perante tal diversidade de estudos contraditórios a minha pergunta era sempre a mesma – “A Dr.ª permite-me uma pergunta: toma ou tomou alguma vez a pílula?”. E a resposta que ouvi, ao longo de mais de 20 anos, foi sempre a mesma – “Eu não”. Bom, se a Dr.ª não toma, eu também não tomo.

Estudos sobre o eucalipto há para todos os lados, depende da metodologia que usamos, não estão necessariamente aldrabados, é apenas um corte estatístico que usamos. A pergunta é: os donos da Portucel têm as casas rodeadas de eucalipto? Não. E os engenheiros e arquitectos paisagistas que vêm defender o eucalipto, têm? Não. Trabalham em eucaliptais nas zonas de montanha, onde andam a passear em Agosto? Não. Trabalham em eucaliptais em Agosto que têm 24 horas um helicóptero, vigias, e bombeiros, em propriedades fechadas de eucalipto? Sim. Recomendam que se plante mais eucalipto? Sim.

Como é óbvio limpar matas, fazer leis duras contra pirómanos, e criar alertas de todas as cores não serviu de nada. A natureza é mais forte, e aqui calor e vento são o normal e previsível. Só não há mais gente ferida e casas ardidas porque o Verão está ameno. O Governo falhou. Falhou. Falhou. E falhou outra vez. Dizer que a culpa é de um fogo posto ignora, por exemplo, que nós não temos 2 ou 3 anos de idade – o eucalipto voa a kms com o vento, põe fogo a si próprio, em 5, 6 ou 10 lados ao mesmo tempo.

O pirómano deste país chama-se cobardia política em enfrentar o monopólio da exportação de pasta de papel, que vai destruindo a vida dos aldeões e pequenos proprietários, muitos dos quais convencidos até a plantar eucaliptos à sua porta, para pagar os estudos dos filhos, ou ter uma poupança na reforma.

O homem devora-se a si próprio nesta economia, onde, sinceramente, por vezes é melhor e necessário desligar a TV para manter a sanidade mental intacta. É que aquele momento em que, ainda rodeado de chamas que se elevam quase às nuvens, voando campos inteiros, chega um Ministro e explica o fogo com base na teoria da conspiração – “um fenómeno estranho”, disse ele -, é simplesmente ridículo…

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