Perspetiva de classe nas lutas feministas, sim! Mas há que falar do conservadorismo e das discriminações de género.

O debate em torno das identidades assume particular importância nos tempos atuais, em especial quando uma onda “anti-gender” conservadora e reacionária procura afirmar o seu discurso na Europa, EUA, Brasil e em outros países do mundo.

Investigadoras feministas como Nancy Fraser[i] têm chamado a atenção que a luta pela redistribuição dos rendimentos é algo que não pode ficar de lado por parte das feministas, ou seja a perspetiva de classe social, que também marca as diferenças entre as mulheres, para além da orientação sexual, da etnia, da região ou país de origem, entre outras.

Quando se fala de “múltiplas discriminações”, procura-se entrelaçar todas as discriminações que recaem sobre as mulheres. Deste modo, a perspetiva de classe social cruza-se com as identidades, que não sendo fixas, podem fluir ao longo da vida.

Contudo, os direitos das mulheres dependem de questões básicas como o direito ao emprego e à igualdade salarial com os homens, assim como acabar com a precariedade, garantir o direito à saúde, que sendo reivindicações para todas as pessoas, acabam por se fazer sentir de forma especial na vida das mulheres.

Foi isso que Catarina Martins do BE no debate com Assunção Cristas do CDS quis mostrar – falar de alguns paliativos em termos de impostos para as famílias não ia alterar a situação real das mulheres. E teve muita razão!

Assunção Cristas não quis expor as propostas do seu programa que configuram a sua ideologia conservadora: trabalho a tempo parcial, trabalho a partir de casa. Para quem? O seu programa não diz, claro, mas essa foi a experiência de alguns países europeus que empurraram mulheres para casa em torno destas propostas. Trabalho sem direitos, trabalho que misturado com o trabalho dos cuidados, colocou mulheres em exaustão, com interrupção das suas carreiras profissionais.

Assunção Cristas só falou dos direitos das famílias, não dos direitos das mulheres! O programa do CDS não tem uma única linha sobre a luta contra as discriminações. A violência sobre as mulheres, não existe, porque o que se pretende é harmonizar as famílias. O grande desígnio do seu programa é construir um “Projeto de Vida em Família”. Aliás, as palavras mais utilizadas são “Família”, “Empresas” e “Flexibilidade”.

Para Assunção Cristas, as mulheres só existem em função da família. Licenças parentais alargadas e flexíveis e também em paridade, certo. Mas as mulheres que não têm filhos, ou as que organizam outros tipos de família? Essas, não existem para Assunção Cristas, porque fogem aos padrões da família tradicional o “grande sustentáculo da sociedade” para o CDS.

Tudo isto se conjuga com outros aspectos do programa do CDS, por exemplo, na área da Educação onde o programa da disciplina “Educação para a Cidadania” vai depender da “autorização das Associações de Pais”, que podem sugerir alternativas, em especial, em relação às organizações que possam ser chamadas à escola no âmbito dessa disciplina para tratar diversas temáticas.

De forma encapotada o CDS pretende ter um papel fiscalizador sobre aquilo que alguns designam como “Ideologia de Género”. Estes combatentes da dita ideologia, mais não fazem, como afirmava em recente artigo no Público (30 de agosto), António Guerreiro, do que espalhar uma “ideologia reactiva, atávica e obscurantista”.

Em Portugal, estes ideólogos “anti-gender”, ainda não se atrevem muito a mostrar as suas garras, mas é preciso não nos deixarmos enganar, porque “não vêm com botas cardadas, mas com pezinhos de lã”, como afirmava Sérgio Godinho, a propósito do fascismo.

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[i] Nancy Fraser, filósofa afiliada à escola de pensamento conhecida como Teoria Crítica. Professora de Ciências Sociais e Políticas da New School University, em Nova Iorque.

 

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