Persiste em Portalegre a cegueira que dividiu o país em dois

Para fomentar desenvolvimento económico e social tem-se por consensual a necessidade de boas vias de comunicação.

Após a adesão à CEE sobreveio o histérico e tantas vezes precipitado processo de aproveitamento de fundos europeus para construir e melhorar vias de comunicação.

Com as excepções das ligações das margens-sul do Tejo e do Douro às grandes urbes de Lisboa e Porto, o saldo que ficou foi uma rede desmedida de boas e más estradas com elevados custos de construção e manutenção, em oposição à degradação e ablação do transporte ferroviário.

O desequilíbrio entre oferecer apenas a alternativa do uso do automóvel e sacanear, deixando que se degrade, a utilização do comboio como meio de transporte, assume maior gravidade à medida que se valorizam as componentes do ambiente, da segurança e do desenvolvimento sustentável.

Enquanto por todo o mundo, quer os países ricos, quer os países com um nível de desenvolvimento menos acentuado, optam por conservar e modernizar as redes ferroviárias, em Portugal, os governos vesgos escolhidos durante quarenta anos pela cor da gravata, não se preocuparam com a conciliação e o equilíbrio entre as duas opções para a mobilidade terreste em todo o território nacional.

E assistimos a coisas destas:

Enquanto em Espanha se anuncia o Transporte de Alta Velocidade de Madrid até Badajoz, em Portugal ainda se reivindica, sem grande esperança, a muito improvável electrificação da linha do Leste ( Entroncamento – Badajoz ) por onde, desde há um ano, se arrastam automotoras entre estações fantasmagorizadas pela ruína e pelo abandono – coisa mais degradante!

Enquanto se promove um aeroporto na Ponte de Sor – pode até tornar-se num pequeno polo desenvolvimentista apesar de estar servido por um futuro IC-13 que ligaria, se o completassem, Portalegre a Lisboa, mas que neste momento não passa de uma vereda – está à venda a estação de comboios da cidade, estrategicamente situada na Zona Industrial.

Há dias ouvimos uma solene proclamação do Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, António Mendes, após uma reunião de autarcas do Distrito de Portalegre : “O PS é o único partido que tem um programa de recuperação para o Distrito”

O Distrito de Portalegre ficou em suspenso. — Querem ver que é desta?

Não é. A resposta é pífia.

O  Interior Alentejano afunda-se num processo de desertificação irreversível e o Distrito de Portalegre, que é o nosso, consome-se num isolado cais de boas viagens por fazer. Mantém a capital isolada, enredada nos seus conflitos de estimação, entre ter ou não ter uma Fundação, entre ter ou não ter uma autoestrada, entre ter ou não ter uma barragem que garanta abastecimentos futuros, entre ter ou não ter uma ligação ferroviária moderna e funcional, entre ter ou não ter um Hospital Distrital a sério em vez de andar sempre dividido entre os lóbis  Elvense e Portalegrense. Entre ter ou não ter futuro.

De boas intenções, sabemos, está o mundo cheio.

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