Património, Comunidade e Memória: uma perspectiva desde Mação

Estamos no chamado interior de Portugal, mas também aqui se vive o fenómeno da globalização e as suas múltiplas consequências. Perseverança e fragilidade, identidade e diversidade, continuidade e mudança. Sentimos estas oposições em Mação, que são ao mesmo tempo o foco e o espelho das diferentes forças com que a globalização entra na teia das relações sociais, alterando as suas fronteiras tradicionais e redimensionando as escalas de leitura das interacções humanas.

Não queremos parar o que é imparável, mas queremos ajudar os mais velhos, e com eles também os mais jovens, a lidar com este fenómeno de forma saudável. Queremos que os novos tempos não impliquem abdicar das suas referências patrimoniais que são comunitárias e que carregam em si memórias individuais, mas também colectivas. Formas de vida que já foram, mas que não têm de ser apagadas pela voracidade do tempo acelerado dos nossos dias. Em Mação, através das aulas na Universidade sénior e dos serviços educativos do Museu de Mação, vamos dar uma pausa, falar do património, e através disso evocar o sentido de comunidade e recuperar memórias.

Quando falamos de património, de imediato nos surgem os conceitos de memória e identidade. E também de esquecimento, porque há memórias que só queremos guardar para que essas realidades se não repitam, e há outras que não queremos, de todo, lembrar, porque a isso temos direito. Porque o Património é o lugar onde as memórias e as identidades adquirem materialidade, e onde buscam a raiz da dignidade humana. Está vinculado à lembrança e à memória, mas também à necessidade de ganhar distância e fazer história, racionalmente e construindo um passado comum, pois todas essas dimensões são fundamentais para as acções com ele relacionadas, uma vez que os bens patrimoniais só são preservados em função da relação que mantêm com as comunidades e suas identidades culturais.

Percecionar que o património é algo que recebemos do passado e vivenciamos no presente para transmitir a gerações futuras é admitir que o património é historicamente construído e agrega em si o sentimento de pertencimento das pessoas a um ou mais grupos, esse mesmo sentimento que assegura a identidade cultural.

Fonte do Penhascoso, Mação: património, lugar de memórias e afectos

O património merece a atenção de todos porque a todos pertence, porque é obrigação de todas as comunidades proteger este legado da mesma forma que lhes chegou, e porque é objeto de herança para as gerações futuras. Estas noções contribuem para o desenvolvimento local sustentável e autónomo.

Na medida em que os cidadãos se identificam com o património e patrimonializam os vestígios existentes em colectivo, desenvolvem o sentido de pertença à comunidade.

O património é a essência de um local, indissociável da sua identidade, remete-nos para a história do lugar, ocorrida num determinado tempo, é um recurso imprescindível no âmbito do desenvolvimento local. Na dor que se segue às perdas, como nos incêndios que teimam em nos fustigar, esta terra continua a ser nossa porque é lá que está o nosso Património.

Estudar a memória é fulcral porque esta está intimamente relacionada com a construção da identidade, é através dela que podemos reconhecer os acontecimentos passados e conservar as informações que são relevantes preservar, tanto na memória colectiva como na memória individual.

Património, comunidade e memória estão relacionados no momento de selecção e produção cultural, proporcionando uma contínua consciência narrativa e temporal. Mas a memória dá o principal contributo para a manutenção do passado e possibilita a sua renovação e evolução, através da sua natureza selectiva, pois nem todos os factos ficam registados, apenas os mais determinantes e relevantes, resultando numa organização intelectual e emocional dos factores que geram unidade e coerência, ou seja, identidade.

A identidade cultural faz-se com a memória individual e colectiva a partir do momento em que nos predispomos a preservar e a divulgar as nossas ideias e bens culturais, dando-se início a uma construção cultural, a um compromisso com o outro, com o todo da comunidade, segundo critérios de identificação.

A sociedade afirma a sua identidade comunitária através da relação que mantém com o património e a memória, resguardando a sua história, originalidade e preservando-o.

 

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