Otelo é uma das figuras mais importantes da história contemporânea de Portugal

Ao contrário do que se propagou (na batalha pela memória vale quase tudo), Otelo foi no processo FP25 ilibado de todos os crimes de sangue. A amnistia foi para o processo FP25 mas não incluía crimes de sangue, dos quais foi de todos ilibado. É útil comparar por exemplo com Spínola, que fez dois golpes de Estado depois do 25 de Abril e fugiu para a Espanha franquista, onde se exilou, e de onde teve um papel dirigente da extrema-direita bombista (ELP e MDLP), nunca foi a julgamento e foi condecorado em 1987 em Portugal com a “Grã-Cruz (…) do Valor, Lealdade e Mérito”.

Pensar Otelo a partir da FP25 é uma construção que procura apagar o papel único que teve na nossa história – Otelo é uma das figuras mais importantes da história contemporânea de Portugal, não é isento de contradições mas em primeiro lugar é o militar que comandou uma operação brilhante, ainda hoje referência internacional no campo militar, que colocou fim a 48 anos da mais longa ditadura europeia e a uma guerra colonial que mobilizou mais de 1 milhão de homens contra a auto-determinação dos povos africanos (…)

O incómodo de Otelo é outro, é o 25 de Novembro, a linha divisória que ainda hoje desune dois países, o da democracia participativa, em que ele acreditava, embora com muitas ambiguidades e até pouca coerência ideológica, e o da ideia de que o povo é “caótico”, não “sabe pensar”, e o melhor é remete-lo à função de votar de 4 em 4 anos porque os “políticos profissionais sabem o que é melhor para o país”. Esse conflito é hoje a grande batalha em torno da figura de Otelo, e o marco mais importante não é as FP25, mas a sua prisão nessa mesma altura, pouco tempo depois de, em pleno despedimento da Lisnave (o último bastião dos direitos laborais), Otelo ter assumido que era de novo candidato, na maior crise que o país atravessava em 1982-87, ameaçando ser novamente uma figura de resistência e ressuscitar, com muitas contradições, é certo, os fantasmas da revolução social em plena “Europa Connosco” e início da longa e ainda mais aprofundada dependência do país, que o PS e o PSD pilotaram e o PCP seguiu, com uma ideologia contra mas uma prática anémica, cujo centro foi sempre a salvação da burocracia sindical, que primeiro cedeu na Lisnave, a seguir cedeu em todas as empresas.

Como a esquerda à esquerda do PCP nunca conseguiu criar líderes, e esteve sempre debaixo do chapéu de chuva militar, Otelo tinha esse papel de unir o “poder popular”, por isso nas eleições de 1976 teve não só quase 18% de votos mas um país inteiro, que acreditava no socialismo, mobilizado atrás de si naquele que foi o movimento eleitoral mais participado popularmente desde o 25 de Abril – nunca uma eleição popular teve a participação espontânea e massiva que teve a campanha de Otelo em 76. O seu papel na luta armada seria sempre, a acontecer, um fiasco, como foi toda a luta armada na década 70 (erro crasso da esquerda em muitos países, que com ela se auto isolou), já o seu papel político não estava vetado ao fracasso, pelo contrário. O esmagamento da Lisnave, em 1986/87, foi vitorioso, Otelo estava preso.

A partir daí conhecem a história – com a Lisnave de rastos ergue-se a concertação social, despedem-se os mais velhos, com pré reformas douradas, e abrem-se as portas à precariedade generalizada, com os despedimentos massivos limpam-se as empresas e bancos de trabalhadores bem pagos, e fazem-se as privatizações, limpas de custos, e que faliram como castelos de cartas a partir de 2001 – 2008 – PT, Banca, etc, uma década foi o que levaram a destruir as empresas que receberam capitalizadas pelas lutas da revolução, de que hoje desdenham. Podia Otelo, se não estivesse na prisão, ter tido um papel diferente nesta história? Não sabemos, porque não aconteceu, na história. Mas é uma hipótese a ponderar, politicamente, no quadro da convulsão dos anos 80.

Para se poder comentar história, dever de todos nós, não é necessário ser historiador. Mas é importante pelo menos dar-se ao trabalho de ler e conhecer a história que se quer comentar

3 comentários em “Otelo é uma das figuras mais importantes da história contemporânea de Portugal”

  1. O seu texto é o retrato que os meus olhos guardam. Estava a lê-lo e a visiolizar todos os acontecimentos, desde a Torre de Comando até à marcha triunfal dos cravos de Abril. Vivi intensamente e pouco me terá escapado dos gloriosos dias deste maravilhoso 25 de Abril. Vivi bastantes anos na ditadura… Hoje já vivi quase os mesmos em democracia.
    Obrigada pelo texto ajuda com certeza os mal intencionados a terem uma visão mais esclarecida, mesmo que continuem de olhos vendados. Gratidão a OTELO!

  2. Dos chamados crimes de sangue das FP 25 – execuções, neste caso – não foi Otelo condenado porque não houve provas do seu envolvimento ou ordens directas, tal como a história do Campo Pequeno nunca foi tomada à letra como uma ameaça, excepto pelos generais da moca e pela subserviente criadagem que tinha sido beneficiada durante o salazarismo. Por isso foi abrangido pela amnistia, promulgada pelo mesmo Soares que, anos antes, acabadinho de chegar do estrangeiro, teve como primeira preocupação perguntar: “já prenderam o Otelo?”
    A prisão era necessária na altura, a qualquer pretexto, até porque era urgente fazer esquecer os bombistas do ELP, MDLP e de certa gente acoitada no CDS, bem como o cónego Melo que cristãmente no ano de 1975 incentivou os ataques, agressões, incêndios e saques a perto de 150 sedes de partidos e organizações de esquerda.
    Não se pode legitimar a violência extrema dos crimes e execuções que as FP25 terão cometido – inconsequentes após o 25 de Abril que libertou o país sem usar armas (os quatro assassínios desse dia foram cometidos por elementos da PIDE), – mas nos ataques ‘jornalísticos’ dos actuais cães de fila do actual regime, esquecem sempre de referir quem foram esses democratas assassinados, aos quais o 25 de Abril deu voz (incluindo aos que antes censuravam, proibiam, prendiam e torturavam quem quisesse exercer esse básico direito).
    Essa teria sido a contradição desses crimes: subverter o princípio de movimento libertador dando, em seu nome, castigo àqueles para quem também reservou o direito à liberdade. Uma incongruência!
    Que os indignados com as ideias subversivas de Otelo (por exemplo, essa coisa de dar voz directamente aos que nada têm), que escrevam nos artigos da sua justa indignação, os nomes dos respeitadores da democracia assassinados pelas FP25. Ou não sabem do que falam?!

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