Os problemas da rentrée

Não gosto de puxar dos galões. Primeiro, porque os não tenho no coletivo do Bloco; e, segundo, porque não gosto de me empinar em bicos de pés, correndo o risco de ser ridicularizado pelos resultados – não somente pelo julgamento daqueles que me ouvem ou leem.

A verdade é que o Via Esquerda me deu a voz no artigo “ Dignidade Sindical – Precisa-se” e antecipou o que a Coordenadora Nacional do BE acabou por corroborar no apelo que faz aos deputados do PS a propósito das alterações à lei do trabalho, confiando na maturidade socialista deste núcleo de “enfatuados democratas” pouco dado ao confronto com os capitalistas (não confundir com patrões) e menos virados, ainda, para a afirmação de uma classe cada vez menos dispensável – como às vezes se pretende – na recuperação do país: os trabalhadores.

Compete-me ainda registar o momento de viragem do PS não à direita, mas ao Cartel Europeu, e que anunciei muito claramente, logo que o Ministro das Finanças foi eleito Presidente do Eurogrupo. Tal como registei, esta eleição radica no êxito inicial das políticas orçamentais dos primeiros anos desta coligação; e, perante o êxito insofismável, a Comunidade decidiu aplicar a máxima: “Não afastes os inimigos e prepara-te para acolhê-los no teu seio”. A partir desse momento, o Governo mudou as agulhas e, confiando na fraqueza dos aliados internos provocada pela aproximação ao poder, desatou a trabalhar para a imagem (destinada à Europa), com alianças programáticas à direita.

Nada mais ilusório. O PSD está ali para comer o lado direito do PS; o PSD não mitiga acordos para ficar de mãos vazias; nunca nenhum líder partidário do PSD será agraciado com maiorias internas, se apresentar como único resultado as cedências do PS e ficar nas covas nos resultados eleitorais. Sejamos realistas.

O grande debate faz-se, hoje em dia, à esquerda. Alguma disfuncionalidade será de imediato rejeitada pelo eleitorado. O BE não precisa de ser intérprete maleável de políticas de direita, nem pode recear, mas pode deter, a intrusão do PSD na travagem da cadência da recuperação económica, dos rendimentos e do direito à Contratação Coletiva, agitando a legitimidade da sua liderança programática com o PS e o PCP.

O país precisa de todos. Precisa tanto de enfermeiros e médicos como de operários e técnicos, como de engenheiros e professores. O País precisa de zelar por quem o foi mantendo e construindo; por quem o salvou, com sacrifícios extremos, da bancarrota resultante dos devaneios dos governantes, por duas ou três vezes; e por quem fez o 25 de Abril.

O país esteve moribundo durante quatro anos e, muitas das energias que se hoje se gastam, são consumidas para resolver erros crassos e opções económicas e políticas desastrosas decididas durante esse período negro para trabalhadores, reformados e pequenas e médias empresas. Vide : tempo de contagem na carreira congelado, ordenados inalterados durante anos, saúde por um fio, 35 horas semanais transformadas em 40 horas, projetos de desenvolvimento do Interior sistematicamente adiados, cortes nos ordenados e pensões, aumento e sobretaxas no IRS, transportes e ligações de e para o Interior suspensos e coartados, redução drástica de serviços públicos ( incluindo segurança), nas áreas de Baixa Densidade ; lei das rendas, lei da proliferação do eucalipto, portagens, penhoras, aumento do preço da energia e dos serviços resultante do aumento para 23% do IVA, etc. A lista é interminável.

Anuamos e sejamos clarividentes: não é possível fazer a recuperação e o ajuste num prazo satisfatório para todos.

Mas será mais grave, ainda, para aqueles que discutem hoje em dia com o governo a recuperação de rendimentos (que justificadamente se impõe) ajustada ao recrudescimento económico do qual são verdadeiros intérpretes…

Falamos de sindicatos, partidos apoiantes da maioria, comissões de trabalhadores, autarquias e Regiões do Interior;

Falamos das pequenas empresas impedidas de ter crédito pressionadas para negociar as dívidas bancárias e confrontadas com custos de produção e impostos insuportáveis -PEC(s) – apesar dos balanços negativos;

Inevitavelmente, falamos dos reformados, dos desempregados, dos doentes com baixa médica, dos casais com filhos e dos cidadãos com pequenas dívidas ao Fisco;

Falamos mais ainda dos funcionários públicos, dos recém-nascidos, dos que arrendaram casa, dos jovens à procura do primeiro emprego e de constituir família, dos licenciados minorados, dos estudantes universitários, dos empresários em nome individual, das forças de segurança, da indústria hoteleira, dos titulares de poupanças, dos automobilistas inevitáveis e dos que precisam de transportes na saúde e na burocracia, dos comerciantes e industriais arrendatários – alguns deles seculares -, dos consumidores em geral e de todos aqueles que são obrigados a comprar energia, comunicações e serviços multimédia,etc.,etc.,etc.;

…será mais grave para todos eles, dizíamos, se este governo se aliar, tácita e formalmente à direita (única intérprete de todas as políticas que tantos de nós penalizou e penaliza), se abandonarmos o barco tão próximo das decisões fundamentais para os próximos quatro anos e passarmos apenas ao protesto, permitindo que o adormecido ressentimento tome novamente o poder e se lance nos famintos braços da direita.

 

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