Obrigado, Cidadão Mário Tomé

Na Homenagem ao Coronel Mário Tomé, antigo Deputado da Assembleia da República, a 25 de Janeiro de 2020

Permitam-me, sem prejuízo da consideração que tenho pelos títulos civis e militares de tantas notáveis personalidades aqui presentes, que a todos trate pela palavra que os “sans culottes” entenderam substituir o classista “Senhor”, a partir de 1792. E como estamos em ano de comemoração dos 250 anos do nascimento de um dos maiores homens que a Humanidade regista, Ludwig van Beethoven (sobre o qual Hans Keller afirmou ser, provavelmente, a maior mentalidade de que há registo), lembro que também ele desejou que os homens fossem chamados por uma única dignidade a anteceder o nome próprio. Portanto,

Cidadãs e Cidadãos:

A vida de Mário Tomé (que chamo, por íntimas mas boas razões, meu General, posto que, sem atrevimento, digo deveria ter) “pobre amante impositivo, oficial de Cavalaria na Guerra Colonial, implicado no 25 de Abril e preso no 25 de Novembro” (citei-o) é exemplo, em todo o seu percurso, do que Napoleão Bonaparte disse ao Arquiduque Carlos: “Os militares valentes fazem a guerra e ambicionam a paz”.

Mário Tomé desenvolveu uma apurada compreensão das circunstâncias, nunca se deixando aprisionar pelas particularidades de cada episódio da sua vida. E perante cada um dos que com ele se cruzaram manteve-se, sempre, fiel à necessidade de ser, simplesmente, atento, sem dramaticidades escusadas, mesmo quando enfrentou os pícaros que sempre preenchem as salas e os corredores dos poderes que se enfrentam em momentos decisivos.

É este aspecto do modo de estar do nosso Homenageado que, de novo, me faz recorrer à fina observação de Napoleão: “há pícaros suficientemente pícaros para procederem como pessoas honradas”. Com efeito, ele viveu tempos onde teve de os enfrentar, e desmascarou-os sem reclamar que o fizera.

A título evidentemente pessoal, embora saiba que estou por muitos acompanhado, não posso deixar de sublinhar que o nosso homenageado assumiu, em hesitações, o seu apoio ao segundo Infante D. Pedro da nossa História, no dizer reflectido do Professor Teixeira Ribeiro: o General Vasco Gonçalves, militar da mais elevada cultura humanista e de superior sentido ético. Apoiou-o por, a seu ver, ele representar os mais profundos anseios de Portugal. A propósito, considero muito interessante que tenha sido um civil e não um militar que salienta esta semelhança.

Este comportamento é, a meu ver, coisa maior da vida de Mário Tomé.

Vou ler-vos um muito breve texto literário. Confidenciou-me o seu Autor que ” se alguma vez gostei de escrever alguma coisa, foi esta”. É sobre a esplêndida Natália e o seu marido Dórdio Guimarães (amigo comum meu e do nosso homenageado, grande poeta injustamente esquecido) e termina assim: “E sei que estou na melhor das companhias e em bom caminho, que vou fazendo caminhando”. Mário Tomé, ao escrevê-lo, evocando o genial António Machado, a todos lembra que não há revoluções acabadas, que o Homem não pode deixar de caminhar, que o Homem Novo, o Homem do Futuro quer sempre ir adiante. Quem o conhece sabe que foi por isto que lutou e sempre lutará.

Porque nenhum Povo vai mais longe por ficar convencido que é “o melhor dos melhores, quando é bom”, como, nesciamente, alguém muito responsável vai dizendo aos Portugueses, recolhendo os seus aplausos por muitos, muitos deles estarem afastados de qualquer entendimento libertador do que é olhar o Futuro.

Obrigado, Cidadão Mário Tomé, pelo que fizeste e pelo que fazes, as tuas mãos dadas a outras mãos.

 

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