O Toni vai fazer-nos falta

Barcelos Popular

O António Silva era conhecido afetuosamente entre familiares, amigos e camaradas como o Toni.  Foi um choque imenso saber do seu falecimento no passado dia 28. Não conseguiu resistir à doença, mas acredito que deva ter sido uma luta dura, que o Toni não era de se deixar ficar à primeira.

Sim, era um lutador, muito combativo, e sabia de que lado estava da barricada. Foi sempre um ativista pelos direitos de quem trabalha, dirigente ao longo de anos e até presidente do Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços do Minho. Sei que muitos e muitas trabalhadoras de Barcelos daqueles setores laborais se lembram bem da sua permanente disponibilidade para prestar o seu apoio esclarecido. Colocou a sua experiência e capacidade ao serviço de vários sindicatos, como os da Construção Civil, Vestuário e Comércio.

O Toni fazia parte de um conjunto de companheiros de esquerda, como o inesquecível Gonçalves da Silva (CTT), o Adelino Mota (Têxteis) ou o António Lima (Comércio e Serviços) que, nesta Região, em condições muito adversas, era um exemplo nacional de envolvimento nas lutas dos trabalhadores e nas suas organizações de classe, num combate duro contra a burocracia, não abdicando de uma linha revolucionária e anticapitalista.

O seu empenho nos combates políticos e sociais vem desde os tempos mais difíceis da ditadura, quando começou a sua luta antifascista e de esquerda na Juventude Operária Católica onde muitos deram os primeiros passos nessa época. No pós-25 de Abril, aderiu à União Democrática Popular, em Braga e, posteriormente, ao Bloco de Esquerda tendo pertencido a vários órgãos de direção distrital e concelhia. Recordo-me bem de o Toni ter sido Mandatário de uma candidatura do Bloco à Assembleia da República que encabecei no círculo distrital de Braga.

Era muito amável no trato pessoal, mas também muito frontal. E também isso tenho de lhe agradecer, mesmo por vezes discordando. Tenho hoje uma noção mais clara de que o Toni terá sido dos primeiros de todos nós a ter a perceção preocupada com os caminhos da esquerda, as confusões com uma certa socialdemocratização, com um certa institucionalização e afastamento dos movimentos e lutas, sobretudos das lutas das classes que sempre defendeu, e com uma certa perda de perspetiva estratégia da transformação radical da sociedade. Não obstante divergências, por vezes conjunturalmente mais acaloradas, sinto que estivemos juntos desse mesmo lado, dessa mesma preocupação.

O Toni foi um grande camarada de luta. Em tempos de confinamento, em que nem sequer nos é possível abraçar a família e os amigos, esta talvez seja a forma de tornar público o meu apreço por tudo o que ele foi, pela importância que teve nos percursos de muitos de nós. Devo dizer que há uma marca especial, que me toca muito profundamente, que foi a permanente atenção do Toni nas lutas sindicais, por entre negociações dos contratos coletivos ou dos acordos de empresa, em nunca deixar de lado a perspetiva da luta por uma sociedade sem exploradores nem explorados, nunca ter deixado de pugnar pelos ideais do Socialismo como força estruturante das suas convicções.

Vai fazer-nos muita falta. Um abraço solidário para toda a família.

[Publicado no semanário “Barcelos Popular” de 04.Fevereiro.2021]

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