O QUE LEVAR NA MOCHILA?

Num artigo publicado pela Convergência, José Cardoso Moura falava de um novo modelo de luta pelo socialismo. Não discordando da essência do artigo, devo precisar o seguinte:

Antes de definir o modelo que deve nortear a luta pelo socialismo, há que estabelecer, a priori, as orientações políticas, económicas e ideológicas que definirão a arquitectura do poder político e económico de um futuro sem capitalismo.  E digo definir estas orientações antes de conceber o novo modelo de luta pelo socialismo, porque todas as revoluções ou movimentos revolucionários, até hoje, (incluindo a Comuna de Paris) falharam porque se esqueceram ou não tiveram tempo de concretizar dois princípios básicos, mas de incomensurável valor estratégico. O primeiro foi o de não terem assumido a socialização do poder político.  Ou seja, nada terem feito para evitar que esse poder fosse cair nas mãos dos dirigentes políticos (seja de que partido fossem), em vez de o entregar aos representantes das organizações populares com verdadeira consciência de classe.

O segundo princípio, prende-se com a necessidade de socializar a economia, colocando os meios de produção nas mãos dos anteriores assalariados, representados por trabalhadores cientes das dificuldades e objectivos deste avanço civilizacional.

Considero, em função de muitos estudos e análises já realizados, que a exclusão destes dois factores revolucionários levou à não evolução no sentido socialista das revoluções na União Soviética e noutros países e a sua subestimação à derrota de movimentos revolucionários, como o da Comuna de Paris.

Sem ter nas mãos o poder político nem a posse dos meios de produção, as diversas revoluções foram derrotadas por dentro e/ou por fora sem qualquer contemplação.

Assim sendo, um novo modelo de luta pelo socialismo só será consistente se os trabalhadores unidos e ORGANIZADOS não se esquecerem de levar na mochila a propriedade social dos meios de produção e a propriedade colectiva do poder político.

Vivemos num tempo, como referia António Gramsci, em que o velho está a morrer, mas  não morreu ainda, nem quer morrer, mas onde o novo ainda não quer nascer.

Estou em crer, que o tempo da recusa do novo em nascer tem muito a ver com o tempo que as esquerdas estão a perder com “brincadeiras parlamentares” em contraponto com o tempo que lhes falta para pensar os novos modelos sustentáveis das lutas colectivas e produzirem pensamento estratégico anticapitalista e socialista.

Não obstante a postura anticapitalista permanente, que deve ser acompanhada por propostas concretas adequadas às necessidades de quem trabalha, a esquerda marxista do século XXI deve pensar (com complexidade e simplicidade) a sociedade socialista do futuro. E ideias não faltam, a partir dos erros cometidos pelas anteriores experiências socialistas, mas também das suas virtudes.

A imagem neoliberal que os teóricos do neoliberalismo e do capitalismo da era da barbárie inventaram sobre o socialismo deve ser completamente desmontada pelos verdadeiros marxistas.

Ver comparar o socialismo (mesmo o da primeira metade do século XX na União Soviética) com o nazismo, sem uma indignação geral e uma resposta consistente da esquerda marxista, é doloroso e inconcebível.

Se a URSS não tivesse vencido o nazismo, muitos dos que se calaram ou pouco fizeram para desmontar estas calúnias não seriam hoje parlamentares ou dirigentes partidários.

Estamos muito longe do fim da história, mas já devíamos ter iniciado um ciclo novo (na teoria e na prática) contra o neoliberalismo e o capitalismo civilizado e/ou bárbaro, acompanhado da recriação de uma nova linguagem de emancipação.

 

Alcídio Torres

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