O Poder da Ideologia

Vale a pena ler o livro “O Poder da Ideologia”* do filósofo marxista István Mészáros. Partilho algumas passagens e notas introdutórias. Uma selecção que não resume um livro que tem bastante mais para oferecer. No final alguns comentários que o Mário Tomé teve a generosidade de me enviar após leitura das mesmas. Para reflectirmos.

Sobre a ideologia

A ideologia dominante oculta-se e faz-se passar por “ciência” e “objectiva”. Não é só a comunicação social dominada pelo poder do capital, a própria universidade e o debate teórico ao mais alto nível estão saturados pela ideologia dominante. A ideologia dominante manipula e mistifica no confronto com ideologias rivais:

“…a verdade é que em nossas sociedades tudo está ‘impregnado de ideologia’, quer a percebamos, quer não.” “…em nossa cultura liberal-conservadora o sistema ideológico socialmente estabelecido e dominante funciona de modo a apresentar – ou desvirtuar – suas próprias regras de seletividade, preconceito, discriminação e até distorção sistemática como ‘normalidade’, ‘objetividade’ e ‘imparcialidade científica’.” (P.57)

“… a ideologia não é ilusão nem superstição religiosa de indivíduos mal-orientados, mas uma forma específica de consciência social, materialmente ancorada e sustentada. Como tal, não pode ser superada nas sociedades de classe. Sua persistência se deve ao fato de ela ser constituída objetivamente (e constantemente reconstituída) como consciência prática inevitável das sociedades de classe, relacionada com a articulação de conjuntos de valores e estratégias rivais que tentam controlar o metabolismo social em todos os seus principais aspectos…”  (P.65)

“… as ideologias conflituantes de qualquer período histórico constituem a consciência prática necessária em termos da qual as principais classes da sociedade se inter-relacionam e até se confrontam, de modo mais, ou menos, aberto, articulando sua visão da ordem social correta e apropriada como um todo abrangente. Compreensivelmente, o conflito mais fundamental na arena social refere-se à própria estrutura social que proporciona o quadro regulador das práticas produtivas e distributivas de qualquer sociedade específica.” (P.65)

“O poder da ideologia predominante é indubitavelmente imenso, mas isso não ocorre simplesmente em razão da força material esmagadora e do correspondente arsenal político-cultural à disposição das classes dominantes. Tal poder ideológico só pode prevalecer graças à vantagem da mistificação, por meio da qual as pessoas que sofrem as consequências da ordem estabelecida podem ser induzidas a endossar, ‘consensualmente’, valores e políticas práticas que são de fato absolutamente contrários a seus interesses vitais. Neste aspecto, e em muitos outros, a situação das ideologias em disputa decididamente não é simétrica. As ideologias críticas que tentam negar a ordem estabelecida não podem mistificar seus adversários pela simples razão de que não têm nada a oferecer – por meio de suborno e de recompensas pela acomodação – àqueles que já estão bem estabelecidos em posições de comando, conscientes de seus interesses imediatos tangíveis. Por isso, o poder da mistificação sobre o adversário é um privilégio da ideologia dominante, e só dela.” (P.472)

Sobre a “social-democracia”

De partidos revolucionários a partidos neoliberais. A história revela-nos que a “social-democracia” sustentou activamente a ordem burguesa e o capitalismo ao longo do último século. Aquilo a que chamam as conquistas “social-democratas” foram fruto do empreendimento imperial dos países centrais e quem pagou os custos foram sobretudo os povos e os trabalhadores dos países periféricos do sistema, a grande maioria da humanidade. Os governos “sociais-democratas” não realizaram alterações no metabolismo social do capital:

“As chamadas ‘mudanças graduais’ da socialdemocracia reformista, introduzidas por medidas legislativas em passo de lesma durante muitas décadas, podem ser ‘constitucionalmente’ derrubadas quase da noite para o dia, como o demonstram amplamente as selvagens leis anti-sindicais do passado recente, associadas com a ‘desnacionalização’ indiscriminada da ‘prata da casa’ (orgulho não apenas dos governos trabalhistas do pós-guerra, mas também dos conservadores mais dispostos ao consenso). No mundo real da politica, o paradoxo filosófico confortador da tartaruga que vence a lebre não funciona.” (P.419)

“Consequentemente, o quadro de orientação estratégico da socialdemocracia ocidental apresenta um fatídico ponto cego ideológico. As insuperáveis limitações da política parlamentarista como tal para se obter o domínio das forças controladoras fundamentais do metabolismo social capitalista jamais são sequer consideradas, muito menos contestadas seriamente a partir das mudanças em curso e das novas possibilidades emergentes, e em respostas a elas. Ao contrário, como resultado de sua carcaça institucional paralisadora, a teoria socialdemocrática é transformada em um exercício manipulador de relações públicas com o objectivo de ser eleito ou permanecer no cargo.” (P.419)

“Dois importantes fatores são desprezados por aqueles que nos apresentam tal idealização do envolvimento e da acomodação parlamentarista socialdemocrata.

Primeiro, a postura originalmente repressiva dos principais governos capitalistas ocidentais em relação às classes trabalhadoras nativas foi historicamente alterada, em larga medida como resultado das determinações materiais emanadas da sua orientação imperial, no último terço do século XIX. As exigências objetivas desta orientação tornou-lhes necessário estabelecer a paz com suas classes trabalhadoras nacionais, de modo a poderem expandir suas operações no além-mar com maior eficácia. Do ponto de vista das classes dominantes, fazia muito sentido assegurar a total cooperação da força de trabalho nacional, em vez de continuar a antagonizá-la reforçando medidas repressivas ultrapassadas, o que colocaria em risco (ou até abalaria completamente) o próprio empreendimento de expansão imperialista.

O segundo fator foi um corolário do primeiro. Como resultado em larga medida da expansão imperial dos países capitalistas ocidentais no final do século XIX, suas economias anteriormente muito restritas (que experimentaram crises sérias entre as décadas de 1850 e 1880) adquiriram novo impulso. Em consequência, continuaram a se expandir a taxas antes inimagináveis, permitindo que o capital ocidental, bem-sucedido em seu empreendimento imperialista e mais dinâmico do que nunca, concedesse a sua força de trabalho nacional, a partir das margens de lucro ampliadas, uma renda real muito maior do que no período histórico anterior. Ao mesmo tempo, os trabalhadores dos países subjugados tinham de experimentar e suportar níveis de degradação material e humana absolutamente inimagináveis no Ocidente. Apenas a forma mais intensa e impiedosa de exploração capitalista pôde garantir aos países ‘metropolitanos’ dominantes as taxas de superlucro obtidas, atrás das quais eles embarcaram inicialmente em sua aventura imperialista.” (PP.420-421)

“A título de registo histórico, diga-se que o sucesso eleitoral muito idealizado dos partidos socialdemocratas ocidentais no passado foi obtido na ordem direta de sua transformação em administradores ‘responsáveis’ e ‘bem-educados’ (isto é, seguros do ponto de vista do capital) da ordem socioeconómica capitalista. O capital permitiu-lhes permanecer no governo (dominados pela ilusão de que dominam o país) precisamente porque não poderiam interferir nos imperativos materiais e políticos do sistema, em virtude do abandono mais ou menos abertamente proclamado de todos os objetivos socialistas radicais. Vários governos socialdemocratas alemães, franceses, britânicos, austríacos, etc., incluindo várias décadas de ‘domínio’ socialdemocrata ininterrupto em alguns países escandinavos, não conseguiram realizar a menor mudança estrutural na ordem socioeconómica capitalista.” (P.423)

Sobre a estratégia socialista

A estratégia para se construir o ecossocialismo e uma democracia socialista deve passar por uma capacidade de acção social e política que vá muito além do “jogo parlamentar”:

“De tudo isto, sem dúvida, pode-se deduzir que não se deve esperar o genuíno envolvimento da massa em um empreendimento revolucionário sem a profunda crise das estruturas materiais dominantes da sociedade. Entretanto, esta inequívoca rejeição da perspectiva voluntarista e elitista não implica a defesa de uma ‘concepção fatalista da filosofia da práxis’ , que pede para esperar até que a própria crise tenha realizado sozinha o trabalho necessário. Significa apenas que a transformação radical do ‘panorama ideológico da época’ não pode ser definida em termos estritamente ideológicos como o trabalho da consciência sobre a consciência. Mais exatamente, deve conter, como um componente organizacionalmente articulado da estratégia geral, a negação prática materialmente eficaz das estruturas reprodutivas dominantes, em vez de reforçá-las através da ‘economia mista’ e de várias formas de ‘participação’ na reestabilização socioeconómica e política do capital em crise. Sem tais componentes de negação radical e contestação prática, não somente cem anos do chamado ‘socialismo parlamentarista’, mas também 45 anos da ‘via italiana para o socialismo’ só conseguiram levar à socialdemocratização do movimento da classe trabalhadora ocidental, incluindo sua ala anteriormente radical, e ao beco sem saída da ‘grande concessão histórica’: grande apenas na medida da derrota que assinala para o movimento socialista.” (P.486)

“Deve-se enfatizar aqui que a negação prática materialmente eficaz das estruturas reprodutivas dominantes não implica a ilegalidade, ou mesmo a rejeição apriorística da estrutura parlamentar. Todavia, envolve a sustentação organizacional de um desafio contínuo às restrições mutiladoras que as ‘regras do jogo’ parlamentarista unilateralmente impõem somente às classes subalternas. O que nos preocupa no presente contexto é que, enquanto os representantes parlamentares das classes dominantes fazem uso irrestrito, como fato natural, das forças extraparlamentares do capital – que não só dominam totalmente as bases materiais da sociedade como também se acham rigorosamente organizadas na esfera politica e cultural, com imensos recursos à sua disposição -, a idéia de oposição e ação extraparlamentar, do outro lado da confrontação sociopolítica, é vista como uma blasfémia.” (P.486-487)

Por Mário Tomé:

Já é tempo de olharmos para a social-democracia – e se tivermos atenção ao próprio Mészáros – como uma ideologia nostálgica ou uma nostalgia ideológica. A social-democracia acabou e não vai regressar; nem como resposta da burguesia à luta dos trabalhadores nem como tentativa de alternativa à luta revolucionária. Kaput.

O alvo não é portanto a social-democracia por muitos “social-democratas” que pululem por aí. A realidade material que determina a ideologia dominante é o neoliberalismo.  Como disse o Soros está é uma guerra de classes e “nós” estamos a ganhá-la. E a arma mais poderosa do capital é a ideologia. Quanto ao vastíssimo proletariado tem de contentar-se com a luta política alicerçada  na ciência social que nos foi disponibilizada pela grandeza da investigação do cerne do Capital feita por Karl Marx, e seus desenvolvimentos.

A burguesia com toda a brutalidade do seu poder material e a eficácia da sua ideologia avassaladora e o proletariado com a sua utopia e a sua capacidade revolucionária se conseguir apropriar-se do conhecimento, ganhar consciência de si próprio e descobrir o segredo da unidade na luta.

 

*Publicado pela Boitempo Editorial (Brasil):

https://www.boitempoeditorial.com.br/produto/o-poder-da-ideologia-94

Pedro Cardoso e Mário Tomé

 

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