O planeta dos macacos

Somos símios, uma condição que Trump nos recorda com brutal crueza.

Somos, os humanos, também animais predadores, logo matamos. Somos humanos, símios e predadores, logo matamos os da nossa espécie. É este o silogismo que Trump nos atira continuamente às ventas.

Reduzamos o assassínio do general iraniano em Bagdad à sua dimensão histórica e antropológica. Se do vulgar assassínio a situação evoluir para o descontrolo, nada de alarme.

Em 1914 um radical nacionalista assassinou o arquiduque Fernando da Áustria e o planeta voltou ao normal após uma Grande Guerra, a maior até então, a que se seguiu a Segunda e nada nos impede de avançar para a Terceira!

O assassínio de um general iraniano, no aeroporto de Bagdad, no Iraque, às ordens de um civil americano em Washington, através de um projétil disparado de um drone dirigido (provavelmente) a partir do Texas, com informações recebidas de um satélite artificial da Terra, prova dois simples factos: a globalização do ato de matar e o avanço tecnológico atingido pela espécie de símios que somos para o conseguir.

Da pedrada bíblica do Caim, que rebentou o crânio do irmão Abel a uns dez metros, até este assassínio intercontinental e espacial os símios humanos percorreram um trajeto de progresso do qual têm sobejos motivos para se orgulhar!

Obrigado ao Deus que assim nos quis à sua semelhança! Graças a Trump, aos vários Trump que dirigem os bandos de símios que habitam o planeta, havemos de terminar a obra que ele começou no Génesis e voltar ao caos primordial!

God bless America.

De resto, nada de novo quanto à morte do iraniano chefe das brigadas chiitas às mãos do americano chefe das brigadas de robots armados e dirigidos à distância.

Há milénios que os chefes dos grupos de primatas mais fortes matam os chefes dos grupos que lhes ameaçam o poder.

Chefe é o que arreganha os dentes e atira cocos certeiros à cabeça dos adversários. Neste caso com um míssil teleguiado a partir de uma funda de alta tecnologia alcunhada de MQ9Reaper.

Continuamos no âmbito da antropologia. Matar um chefe inimigo tem apenas uma finalidade: a afirmação do poder do macho que mata perante os do seu bando.

Ao mandar assassinar um general erigido em inimigo, Trump tem como único objetivo afirmar-se entre os seus fiéis e assegurar que continua a ser o seu chefe. Viva o chefe!

Internamente avisa também os seus concorrentes para não se meterem com ele nem com as suas mulheres. Trump marca um território, não com urina, mas com uma morteirada! A velha adaptação dos meios às finalidades que Darwin conceptualizou.

As consequências do seu ato são-lhe indiferentes, desde que Trump seja percebido pelos seus como o chefe, o poderoso, o que come primeiro, escolhe as fêmeas e se instala no ramo mais alto da árvore.

Estamos no planeta dos macacos, uma espécie que destrói e devasta uma plantação de bananeiras para comer uma só banana. Os javalis fazem o mesmo, mas com as culturas de superfície…

É a esta criação que pertencemos, garante Trump com uma demonstração prática de belo efeito!

Quanto aos apelos à moderação dos santinhos do costume. São muito bem vindos, mas acredito que esses querubins (verdadeiros ou falsos), ou acreditam na eficácia de pregar aos peixes, ou na bondade de pedir a um enxame de abelhas para regressar à colmeia depois de um urso lhe dar um pontapé!

Entretanto, como vemos, no estádio de desenvolvimento da nossa espécie, é mais fácil a um caçador de cabeças acertar num carro em movimento em Bagdad com uma arma apontada do Texas, do que encontrar um meio de apagar as chamas de um mortífero incêndio na Austrália!

Somos predadores, não somos bombeiros! Há que respeitar as prioridades.

 

Por opção do autor, este artigo respeita o AO90
Original e foto ilustrativa em O Tornado

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