O maio de 68 e os feminismos

Cinquenta anos após o maio de 68, continua-se a discutir a importância de um movimento que trouxe uma nova relação entre a política e a cultura, que criou novas formas de ativismo e um outro olhar sobre as sexualidades, rejeitando o modelo social e cultural dominante.

Nascido num contexto internacional de guerra fria, com corrida ao armamento por parte da Nato e do Pacto de Varsóvia, de conflito sino-soviético, da guerra do Vietnam, o maio de 68 congregou em si a contestação juvenil a esta guerra, ao conservadorismo e autoritarismo, na família tradicional, na sociedade, assim como uma reflexão crítica sobre a universidade e o sistema de ensino.

O sentido libertário das novas formas de cultura criadas, no cinema, no teatro, na música, nas formas coletivas de viver, trouxe o radicalismo e a irreverência nas palavras de ordem, tais como: “Sejam realistas, exijam o impossível”, “Imaginação ao poder”, “O Futuro é agora” ou, ainda, “Debaixo das pedras da calçada a praia”, numa ligação com movimentos ecologistas que ganhavam maior força, na época.

Em França, as primeiras barricadas surgiram em janeiro de 1968 na sequência da greve de trabalhadores/as da Renault. A grande repressão policial do regime gaullista gerou solidariedades, com uma onda de greves nas empresas da região da Normandia, onde participaram também professores/as e estudantes.

As barricadas feitas por estudantes nas ruas de Paris e a ocupação das universidades, a 12 de maio, a ocupação de uma fábrica em Nantes a 14 de maio e a greve geral decretada a 13 de maio, que quase parou o país durante um mês, criaram um clima de ameaça à ordem estabelecida que fez tremer a França.

Esta aliança não formal entre as lutas estudantis e operárias criou novas lógicas de intervenção coletiva, onde o individual e o coletivo se conjugam no respeito pelas diferenças. Surge espaço político para as lutas identitárias, onde as contradições de género não se limitam ao facto das raparigas não poderem circular livremente pelos campus universitário de Nanterre e Antony e serem impedidas de entrarem nos quartos dos rapazes.

A comercialização da pílula contracetiva em 1967, a manutenção em França de uma lei de 1920 que punia o aborto com pesadíssimas penas, levou a que a luta pela contraceção e pela legalização do aborto ganhasse maior folego neste final da década de 1960.

Em 1967, tinha sido formado o grupo FMA (Feminin, Masculin, Avenir), que começou a colocar em causa a família e as estruturas autoritárias, que punham em causa a emancipação da mulher, assim como procuravam levantar o tabu sobre o prazer sexual das mulheres. No turbilhão do maio de 68, este pequeno grupo levantava a questão das relações entre os sexos, nos debates na Sorbonne ocupada por estudantes. Um outro tema emerge, a divisão sexual do trabalho militante: “Quem cozinhava, enquanto eles falavam da revolução? Quem guardava as crianças enquanto eles iam às reuniões políticas? Quem bate os comunicados, enquanto eles escrevem e organizam as ações futuras? Quem toma notas, enquanto eles falam no micro? Somos nós, mulheres, sempre! Nós vamos libertar-nos dos libertadores” (Françoise Picq, 1993:31).

As jovens estavam presentes nas faculdades ocupadas, nas manifestações de rua, mas os atores principais que os media descobriam eram homens. Eram eles que falavam nas assembleias, mas os serviços de limpeza da universidade ocupada de Sorbonne eram feitos por elas.

A libertação da palavra, característica do maio de 68, falando, debatendo, durante horas e horas, não teve igual expressão nas jovens raparigas. Os rapazes monopolizavam a palavra, mesmo se o tema fossem as mulheres e os seus direitos, muito pouco reconhecidos na divisão sexual das tarefas de militância. Nos sectores muito masculinizados, a redução ao silêncio das mulheres era, por vezes, brutal. Uma jovem que ousou gritar palavras de ordem numa assembleia de metalúrgicos foi calada por um dirigente sindical acusando- a de histérica. “Falar em público, tomar a palavra, elevar a voz, não eram comportamentos aceites para as mulheres e as jovens”. (Sylvie Chaperon, 2000:347).

Nas universidades ocupadas e nas fábricas em greve, as mulheres organizam creches, para poderem participar nas lutas. Necessidades impostas pelas longas jornadas de trabalho militante. Alba de Cespedes no seu livro Les Chansons des filles de mai, publicado em 1968, transmite a atmosfera exaltante de Paris. “Nós dormíamos muito pouco, era maravilhoso estar nestas longas jornadas durante a noite. Os comunicados que nós redigimos e imprimimos são as cartas de amor da nossa geração. Estes rapazes de cabelos longos, estas raparigas com saias curtas são os cidadãos da margem esquerda.” O sentimento de um mundo novo, jovem, igualitário transparece neste livro. Mas será que este mundo novo era realmente igualitário nas relações entre mulheres e homens? Neste caudal de lutas e reivindicações, a igualdade entre os sexos, surgia por via das relações sexuais livres, mas raramente os problemas das mulheres eram levantados dentro dos sindicatos e das organizações partidárias, mesmo pelas próprias mulheres.

Contudo, existiram associações e grupos feministas que contestaram o papel que as mulheres ocupavam na cena política: a Liga Francesa pelos Direitos das Mulheres, que representava as antigas correntes sufragistas, o MDF (Movimento Democrático Feminino) e o grupo de esquerda radical FMA, já atrás citado.

Nos finais do maio de 68, uma nova geração feminista surgiu. Formaram-se vários grupos de mulheres com um funcionamento muito informal, sem destaque para dirigentes ou coordenadoras. Na Primavera de 1970 estavam criadas as condições para o nascimento do MLF – Mouvement de Libération des Femmes. Este movimento caracterizava-se pela autonomia, pelo seu carácter não misto e por criar uma rutura na história do feminismo. Autonomia de organização e autonomia individual através da reivindicação do direito a dispor do seu corpo. Um espaço de afirmação identitária, de partilha de experiências pessoais, erguendo o lema do feminismo de segunda vaga: “O pessoal é político”. As posições entre as ativistas não tinham de ser iguais ou unificadas. Afirmavam-se perante a comunicação social, por ações espectaculares, pelas criativas palavras de ordem com sentido de humor. O seu funcionamento era sempre em assembleia sem escalões hierárquicos.

A publicação especial em 1970 da revista Partisans: Libération des Femmes: année zero (nº 54-55, julho-outubro, 1970), representa o desejo do movimento de fazer o corte com o passado das sufragistas, de um MDF, que tinha perdido vitalidade e que estava encostado ao Partido Socialista Francês, de formas de organização não ajustadas a um movimento livre e autónomo. A rutura histórica também se consubstanciava nas reivindicações: aborto livre e gratuita, denúncia e combate à violência contra as mulheres na família, a luta sistemática contra os comportamentos sexistas e a divisão sexual do trabalho, as sexualidades como novo campo de luta política.

Independentemente de se concordar ou não com esta declaração de corte histórico, o certo é que as ideias de muitas ativistas estavam marcadas pelos contributos teóricos do Segundo Sexo de Simone de Beauvoir, de que não era a natureza que determinava a inferioridade das mulheres, mas a construção social e cultural feita a partir do sexo (On ne naît pas femmes, on le devient!). As pioneiras do MLF também tinham lido estudos feitos na década de 1960 na literatura, história e sociologia e tinham mesmo participado em alguns deles, assim como em seminários.

Também as ideias marxistas de diversas matizes tinham tido influência no pensamento destas jovens mulheres. O marxismo oferecia um lugar legítimo à luta das mulheres. “Na família, o homem é o burguês e a mulher o proletário”, ou ainda “A primeira opressão de classes surge como a opressão do sexo feminino pelo sexo masculino”(Friedrich Engels, edição de 1980: 86).

O movimento não nasce apenas por ação espontânea, pois tinha acumulado teoria e experiência e é impulsionado, sem dúvida, pela onda de insubmissão desencadeada pelo maio de 68.

Ficará para um próximo artigo, as contaminações em Portugal desta nova vaga dos feminismos. Será que existiram? Qual o papel das Novas Cartas Portuguesas na criação do Movimento de Libertação das Mulheres em Portugal? Que limitações e fragilidades tiveram os feminismos nessa época? Qual a herança de 48 anos de ditadura e de isolamento do País? Muitas perguntas, a serem respondidas.

 

Bibliografia:

BARD, Christine (2001), Les femmes dans la société française au 20e siècle, Paris, Armand Colin.

CHAPERON, Sylvie (2000), Les années Beauvoir(1945-1970), Paris, Fayard.

ENGELS, Friedrich, A origem da Família, da Propriedade e do Estado, Lisboa, Presença, 1980.

PICQ, Françoise (1993) Libération des femmes. Les années mouvement, Paris, Seuil.

STUDER, Brigitte (2004), Le siècle des féminismes, Paris, Les Editions de L’Atelier.

 

 

 

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