O engodo da social-democracia

A vacina pode chegar a todos, mas não vai dar para tudo. Na TAP e na GALP, para já e fora os outros casos menos pesados e por isso menos mediáticos, os trabalhadores decerto serão vacinados, mas a ideia parece ser vaciná-los no trânsito para o desemprego.

A resposta dos trabalhadores e das suas organizações de classe será determinante não apenas para o seu futuro, mas também para o futuro da sociedade portuguesa entalada entre a crise pandémica instalada e a crise económica e social em desenvolvimento.

Os trabalhadores sofrem uma grande pressão política, ideológica e social: é o preço para salvar a TAP, é o preço para o cumprimento dos objectivos da cimeira de Paris para uma transição energética absolutamente necessária para travar as alterações climáticas e “salvar o planeta”.

A história de que com a pandemia estamos  todos no mesmo barco, embora não pegue racionalmente – ninguém em seu perfeito juízo se vê no mesmo barco da família Amorim que controla a GALP que em 2019 teve lucros de 500 milhões de euros ou dos cinco grandes mundiais das tecnológicas que  na especulação bolsista capitalizaram 7 biliões (milhões de milhões) de euros, metade do PIB de todos os países da UE juntos – pega emocionalmente quando associada à ideia de que perante a imensidão do desafio, ou seja da crise, e do poder esmagador dos DDT nacionais e internacionais, é difícil uma resistência e um confronto com resultados positivos.

Na esquerda socialista em geral a resposta que se vem instalando com diversos matizes é condicionada por esta perspectiva de impotência, do sentido do desejável, mas inalcançável devido à força brutal do inimigo e da debilidade das forças que, sendo a esmagadora maioria do povo, estão condicionadas pela ideologia hegemónica do poder financeiro, logo político.

Perante a enormidade da tarefa, a recusa em desistir inspirada pela utopia, no sentido marxiano do termo, associada à ideia de que a revolução faz ela própria parte da utopia (quando para Marx utopia e revolução “são as duas coordenadas do movimento socialista”), a ideia histórica da social-democracia como resposta necessária e ou possível dos trabalhadores em diversas circunstâncias do poder do capital, surge como uma referência positiva senão mesmo como a alternativa actual.

A social-democracia de referência para os dias de hoje só pode ser a que emergiu no final da Segunda Guerra Mundial. Não poderá ser a social-democracia mãe do partido bolchevique nem qualquer outra das diferentes versões históricas da social-democracia naturalmente decorrentes da resposta política às situações económicas, sociais e de relações internacionais em cada momento histórico. Todas elas, de forma mais ou menos fundamentada se inspiraram na teoria desenvolvida por Marx e Engels, ou seja o socialismo aliado à democracia numa perspectiva de necessidade dialéctica: a democracia exige o socialismo e o socialismo exige a democracia.

As correntes revolucionária e reformista da social-democracia coexistiram na Segunda Internacional, fundada por iniciativa de Frederich Engels, até à “prova dos nove”: a Grande Guerra de 1914-1918 que, aliás, esteve na base da vitória do proletariado russo em 1917 dirigido pelo partido bolchevique de Lenin que recusou a participação da guerra transformando-a em revolução.

A Grande Guerra colocou os partidos da Segunda Internacional perante uma opção fundamental: apoiarem os seus governos na disputa imperialista e na chacina que se anunciava ou seguirem o exemplo de Lenin apoiando o proletariado contra a guerra criando condições para a luta revolucionária socialista.

O mais importante partido social-democrata, o SPD alemão dividiu-se quando Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht formaram a liga Spartakista e depois o Partido Comunista Alemão, defendendo a luta do proletariado contra a guerra e portanto contra o governo social-democrata da República de Weimar. A social-democracia não dorme e Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht foram miseravelmente assassinados a mando do governo social-democrata.

Como qualquer resposta política (logo económica, logo social) responde a uma determinada base material num determinado contexto histórico a social-democracia emerge da segunda guerra mundial como resposta a dois factores determinantes:

O primeiro, o movimento socialista revolucionário do proletariado inspirado pela derrota do nazismo e pelo papel determinante da URSS nessa derrota, sustentando a força eleitoral ganha pelos partidos comunistas italiano e francês, graças ao seu papel na Resistência; de uma forma geral o mesmo aconteceu com as forças de esquerda na Europa libertada.

A burguesia europeia destroçada pela hecatombe foi capturada pelos EUA que lhe ofereceram o Plano Marshall para a reconstrução e para a recomposição da exploração capitalista e lhe impuseram como condição a NATO, a força militar de domínio da Europa e de confronto com a URSS implantada militar e politicamente na Europa Oriental graças aos acordos de Yalta onde as outras potências foram obrigadas a reconhecer o seu papel determinante na vitória e o apoio popular às ideias socialistas.

O segundo factor foi a fraqueza do capitalismo europeu como consequência da destruição dos principais meios de produção, assim como a inexistência de um exército de reserva do proletariado dizimado pela guerra o que obrigou a burguesia a um pacto social em que o estado capitalista assumiu um papel de “equilíbrio” inédito na história da dominação e exploração do capital.

A submissão estratégica aos EUA e a colaboração activa na guerra fria assim como o pacto social tiveram como representação política a social-democracia cuja maior realização foi o Estado Social e a consolidação do Estado de Direito de que ainda hoje nos reivindicamos apesar da sua caminhada galopante para a inépcia e do seu papel estruturante na aceitação do domínio do capital.

Entretanto a crise do petróleo dos anos setenta, veio dar maior respaldo à “doutrina do choque” a partir da escola de Chicago, de Milton Friedman tão bem demonstrada por Naomi Klein, e que teve a sua experiência paradigmática no Chile com o golpe fascista de Pinochet/Kissinger/Nixon.

O crescente e imparável domínio da finança sobre a produção, nomeadamente a produção industrial impôs o neoliberalismo na economia e, portanto, na política pelas mãos de Ronald Reagan e Margareth Thaetcher.

O vertiginoso desenvolvimento das novas tecnologias em especial da informática, da inteligência artificial e das comunicações permitiu o domínio absoluto da finança sobre a vida das nações e dos povos em todo o planeta, autêntica “deusa” ex-maquina, no controlo dos cidadãos quer directamente pelo tentacular big brother quer pelos meios democráticos que estruturam a ideologia dominante, relembrando o quase meio esquecido aparelho ideológico do estado (Althusser, Sweezi, Marcuse) desde a necessidade de segurança,  o direito, a representação democrática, a escola, a religião, a imprensa, a própria família…

A hegemonia absoluta do capitalismo

Mas as ameaças da crise climática e as grandes crises económico-financeiras como a de 2008 que veio desvendar a alarvidade do funcionamento do sistema financeiro criaram factores de resistência que ameaçam a estabilidade política do sistema que entretanto trata de se defender bolsando respostas político-ideológicas de pendor fascista, que conseguiram expressão impressionante com a eleição de Trump e Bolsonaro.

Mas o carácter predador da natureza e socialmente devastador do capitalismo é demasiado brutal e evidente para poder continuar a ser disfarçado.

A própria Greta Thunberg, à frente de milhões de jovens que exigem resposta pronta contra as alterações climáticas, sentiu-se obrigada a reconhecer e a proclamar que as alterações climáticas não podem ser travadas com este modo de produção. A crise económica e social que se instala como consequência da pandemia, para a qual apesar de toda a ciência não se vislumbra ainda uma saída garantida (o vírus é mais esperto do que se esperava)  é devastadora. São duas ondas gigantescas, infinitamente maiores do que as do Canhão da Nazaré, a confluírem num remoinho que tudo pode sorver.

Por seu lado, resposta das energias alternativas à crise climática, na procura dos metais raros que permitem ter moinhos de produção de energia, carros eléctricos, painéis solares, etc. é devastadora para o planeta e produz praticamente tanto ou mais CO2 do que aquele que se quer eliminar.

A própria passagem da produção de energia a partir dos combustíveis fósseis para energias alternativas sustentáveis, no mundo dominado pela finança, ou seja pela especulação bolsista, poderá com altíssima probabilidade provocar convulsões económicas, logo sociais, logo políticas, logo militares, equivalentes a um terramoto global.

Não é, portanto, de estranhar que, perante a natural sensação de impotência, os grandes teóricos modernos no campo da economia e da finança se evidenciem sobretudo pela pesquisa das mais engenhosas e hábeis formas de tornar o capitalismo sensato, de desafiá-lo a ser verde, a respeitar quem trabalha que afinal também(!) cria valor, criar novos mecanismos de distribuição da riqueza, etc. Imaginação não falta sustentada, aliás, em laboriosas e profundas pesquizas e investigações.

Os mais ousados e revolucionários propõem mesmo que devemos “erodir o capitalismo”, ou seja, armados de uma brossa ou, vá lá, um berbequim atirarmo-nos à muralha da China!

Todo este labor, todo este entusiasmo em “substituir este sistema actual parasitário por um tipo de capitalismo mais sustentável, mais simbiótico, e que beneficie toda a gente” é inspirador.

Claro que cá estamos em pleno terreno do que deseja a nostálgica e auto-idealizada social-democracia. Daí que, quando olhamos para o capitalismo, armados duma brossa ou de um berbequim, nos contentemos com a beleza inquestionável da possibilidade de tornar o mundo melhor mesmo que nos limitemos afinal, contra vontade e sob protesto, a pertencermos ao exército dos que o tornam pior.

Mais do que do socialismo precisamos de acabar com o capitalismo! Esta afirmação anti-dialéctica e não marxiana é apenas para dar ênfase.

As provas são insofismáveis a apontarem em sentido contrário a qualquer ilusão, ou seja o capital é irreformável porque morrerá se não tiver lucro, se não “trabalhar” para o lucro e não para satisfazer necessidades que, pelo contrário, torna insaciáveis ou o lucro acaba; se não impuser um  crescimento permanente cada vez mais desvairado e vertiginoso, logo para destruir a natureza e aumentar a exploração absoluta e relativa do proletariado.

A social-democracia que capitulou já in illo tempore com a terceira via ( os próprios partidos comunistas capitularam com o euro-comunismo: uma adequação à social-democracia já deglutida pelo neoliberalismo, é obra!) persiste qual walking dead em ser uma resposta para o mundo de hoje. Os seus próceres mundiais apenas querem tratar da vidinha com um certo bom aspecto. Os bem intencionados vão perceber mais cedo que tarde qual o caminho a trilhar.

Pensar o eco-socialismo sem revolução é não sair da cepa torta e enrolarmo-nos na conversa fiada de tornar o capitalismo tolerável.

Precisamos também de acabar com a interpretação estereotipada e ideológica de revolução. Eis um tema bom para um debate dentro do Bloco.

O real peso material e ideológico do neoliberalismo tende a pôr a esquerda à procura de plataformas possíveis que sustentem a ideia de oposição radical dentro do sistema, ou seja “isto vai”.

A social-democracia não existe. Não pode existir. É uma evanescência imaterial, uma nostalgia do que já foi. Uma impossibilidade orgânica. Enfim um engodo

1 comentário em “O engodo da social-democracia”

  1. Em termos organizativos não percebo o que Mário Tomé propõe.
    Por motivos tão diferentes como a dispersão residencial dos trabalhadores pelas periferias, o cansaço pelas horas perdidas em transportes no início e no final de cada dia, a falta de uma liderança expressiva organizada e mobilizadora nos locais de trabalho, a ausência física do patrão e a consequente semi-invisibilidade da sua exploração e a inexistência de reivindicações enquadradas por uma força sindical visível e com peso, leva a que haja de facto algumas manifestações com exigências perfeitamente justas mas cujo efeito prático se não é nulo é de tal forma indirecto (apenas concessões paternalistas para calar a boca ao pessoal…) que não se vê a ligação causa/efeito.
    Os precários vão à rua, os trabalhadores dos call-centers também, uma greve de estivadores consegue ligeiras melhorias de condições laborais, há manifestações de solidariedade para com os inquilinos expropriados pela ganância do alojamento turístico, juntam-se alguns numa manifestação contra a degradação do Ambiente, há pequenas mobilizações nas grandes capitais contra o racismo, alguns grupos de estudantes queixam-se da falta de alojamentos… mas tudo funciona apenas por desespero e não há continuidade. E não há continuidade porque não há liderança e como não há liderança unificadora, não há estratégia!
    Enquanto isto há os estaleiros de Viana, a refinaria de Matosinhos, os Bancos-família, os escândalos nas Operadoras, a entrada de capital estrangeiro em empresas estratégicas… e o que se faz de concreto perante tais actos de vandalismo? Quem trabalha paga a conta e não refila, como se tem visto!
    Estamos à espera que a revolução (e estou a referir-me a mudanças radicais na relação capital-trabalho), vá fazer-se pelas chamadas ‘redes-sociais’? Abdicou-se por cansaço da agitação local ou porque é mais fácil e eficaz explicar aos trabalhadores pelo Facebook, que estão a ser comidos de cebolada?!
    Serão hackers ao serviço da ‘causa’ a destruir o castelo de cartas que são as bolsas (e em especial as tecnológicas que na realidade apenas valem pelas três ou quatro ‘cabeças pensantes’ que ocasionalmente lá têm) e dessa forma fazer desmoronar o sistema?
    Hoje o capital pode dar-se ao luxo de deixar cair uma dúzia de grandes empresas num país, porque tem participação noutras dúzias delas noutros tantos países! Uma greve geral ilimitada (claro que não há condições subjectivas nem objectivas para o fazer, mas vamos fingir que isso era possível), iria derrotar quem e onde? Sei a resposta: centenas de milhar sem trabalho, ajudas europeias a zero (zerinho!), boicote generalizado nas importações e exportações e um rombo mínimo numas quantas holdings sediadas nuns desses países frugais que vivem da habilidade fiscal, e que passados um mês ou dois deslocalizariam para países ainda mais miseráveis que o nosso, as novas fábricas e empresas grevistas.
    Só há um motivo maior que a amizade para unir as pessoas: terem um inimigo comum.
    E hoje não há guerra mundial declarada por uma super-potência, nem guerra colonial que nos mata o povo e os recursos e anda tudo polarizado entre esquerda e direita; o inimigo em vez de ser o capital, passou a ser o vizinho do lado (passe o exagero, claro).
    Gostava de perceber o que deve mudar concretamente na organização e actuação da(s) esquerda(s), mas ainda não foi desta.

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