O capitalismo e a terapia génica… não combinam

Recentemente a Goldman Sachs lançou um relatório onde sondou as possibilidades de lucro associadas às novas tecnologias, na cura de doenças, associadas ao genoma, como é o caso do conjunto de tecnologias geralmente apelidadas de “terapia genética”, em que uma doença, à partida, crónica, pode ficar resolvida de uma só vez.

Parece bem, certo? Mas a Goldman Sachs simplesmente conclui que tratar de uma só vez doenças crónicas pode ser… mau para o negócio.

Um exemplo simples é o da hepatite C, da perspetiva do tratamento médico e da investigação biológica, há o esforço de desenvolver uma cura que não só cura a pessoa infetada, como a impede de infetar outras pessoas e com os efeitos secundários mínimos possíveis. E depois destes desafios, surge o desafio, pelo menos do ponto de vista da ética, de a tornar acessível a toda a população. Só assim, em termos epidemiológicos, a população “se livra” de vez do problema.

Este paradigma da medicina, biologia e epidemiologia devia ser o mesmo da biotecnologia, contudo, o paradigma do mercado é diferente. Quando foi aplicada uma cura, pela GILD, por ser uma cura necessária para tantas pessoas, as vendas atingiram aproximadamente 12.5 biliões de dólares em 2015, porém, em 2018 prevê-se apenas 4 biliões de dólares. Assim, apesar de haver uma cura com mais de 90% de sucesso, a perspetiva do mercado não vê com bons olhos a descida dos lucros, porque só conseguem ver isso, o lucro.

Eventualmente, o capitalismo revela a sua mais verdadeira face, distrai as pessoas com conversas bonitas sobre como salvar o mundo e investir muito altruisticamente para combater as doenças, mas depois pergunta se curar pessoas será realmente lucrativo.

E, de facto, a Goldman Sachs perguntou isto num relatório dedicado à revolução genómica no tratamento de doenças.

Entender o conceito de terapia génica

Por exemplo, a cegueira pode ser provocada por várias doenças genéticas bem conhecidas, como é o caso do retinoblastoma. Conhece-se bem todas as causas da doença, e sabe-se que pode ser hereditária, devido a um gene mutado, devido a um erro na sequência de DNA (bem conhecida), que o tornará, neste caso, inativado, não conseguido, portanto, transcrever e traduzir a informação contida nessa sequência numa proteína funcional, neste caso a proteína Rb. Sem esta proteína, desenvolve-se o retinoblastoma, que provoca, em última instância, uma cegueira irreversível e para a vida.

Portanto, neste contexto, conhecemos bem o conjunto de células afetadas, e sabemos bem qual o problema que causa a doença: um erro na sequência de DNA associada à produção de uma proteína necessária para o normal funcionamento do olho.

Assumindo a perspetiva da terapia génica, uma estratégia seria produzir in vitro um gene funcional com a proteína em falta, e adicionar esse gene funcional ao genoma das células do olho. Estando o gene funcional, produz a proteína Rb e a pessoa fica curada… para sempre, sem medicamentos para o resto da vida, como seria o caso da doença crónica.

Como se faria esse procedimento? Há vírus que conseguem introduzir o seu próprio DNA nas células hospedeiras, neste caso, nas células humanas. Portanto, é uma questão de selecionar vírus que sejam inócuos (e “desarmar” esses mesmos vírus), e usá-los para transportar o gene de interesse para as células afetadas.

Naturalmente, há um conjunto de constrições técnicas. É necessário que o gene seja aceite pelas nossas células, que não seja inibido, que seja funcional e que não cause efeitos secundários. Portanto, todos esses estudos estão, de facto, a ser seguidos para que a terapia só seja aplicada se for segura.

Quais as vantagens? Qualquer fármaco terá efeitos secundários, é o que está na bula de cada medicamente, incluindo a simples pastilha para a dor de garganta, portanto, apesar dos possíveis efeitos secundários que estão a ser sondados, a terapia génica tem a vantagem de tratar de uma só vez e sem mais fármacos, doenças crónicas, muitas delas herdadas. E há doenças herdadas que podem diminuir a esperança média de vida das pessoas consideravelmente.

Ninguém coloca em causa o potencial de salvar vidas, e contrariamente aos OGM’s (Organismos geneticamente modificados), tem a vantagem de não passar a alteração para a descendência, portanto a pessoa com a doença no olho pode ser curada num pequeno conjunto de procedimentos e se depois tiver filhos, eles terão a informação genética inicial e não modificada, dos pais.

Quais as possíveis desvantagens? É necessário aplicar muita investigação científica e independente para cada tratamento em concreto, e analisar todas as possibilidades. Isto a nível biológico. A nível médico, é necessário que o procedimento seja funcional e o menos invasivo possível, o que à partida também estará garantido.

A nível da bio ética, toca-se, obviamente, no aspeto desta tecnologia permitir adicionar, corrigir e inativar genes, em célula especificas, podendo, portanto, alterar características fundamentais da pessoa. A comunidade científica usou o escudo da frase: “Isto vai salvar pessoas”, evitando o assunto das possíveis eugenias e, de facto, não se tem autorizado investigação em terapia génica nem em embriões, nem em utilizações que não se apliquem exclusivamente a doenças (de novo, para a pessoa mais rigorosa, o que é doença e o que não é doença?).

E agora chego ao ponto deste artigo, o capitalismo está-se a borrifar para estas preocupações, e para o capitalismo “salvar pessoas” é uma estratégia de marketing, como o relatório da Goldman Sachs revelou, perguntando se Salvar pessoas é mesmo lucrativo?

Vamos imaginar que o investimento na investigação científica permite curar a doença crónica X, toda a população com a doença crónica X fica curada… para sempre. Versus, uma outra possibilidade, a doença crónica X não é curada, mas há medicamentos que aliviam as dores sintomáticas da doença.

Para o capitalismo é mais lucrativo vender medicamentos toda a vida a uma pessoa, do que curar de uma só vez e depois “perder” um cliente já curado. É a diferença entre receber dinheiro por um tratamento pontual, e receber dinheiro durante toda a vida de uma pessoa doente toda a vida.

Notas conclusivas

Há uma série de revoluções na investigação genómica que necessitam de enormes investimentos para que a comunidade científica consiga perceber se são seguras, se podem ser usadas, como ser usadas, quais os efeitos secundários e, no fim, permitir que uma pessoa seja curada, por exemplo, de uma cegueira para a vida, ou que não tenha de morrer aos 30 anos, ou que não tenha de comprar medicamentos de alívio de dor crónica.

Nada disto pode ser alcançado pela perspetiva do capitalismo, dessa perspetiva estes tratamentos estarão disponíveis apenas para as elites, e só será feito investimento privado em curas lucrativas. Já se percebeu isso.

Por fim, isto revela que é fundamental o investimento público na investigação científica, e que apenas a perspetiva socialista serve para encontrar curas para as doenças, uma perspetiva segundo a qual o atendimento e tratamento médico chega a todas as pessoas, sem qualquer tipo de descriminação e sem ter como base o lucro.

Não se lucra das doenças das outras pessoas, pelo menos num mundo em que as pessoas são entendidas como Pessoas, e não como mercadorias.

 

 

Para consulta:

https://www.cnbc.com/2018/04/11/goldman-asks-is-curing-patients-a-sustainable-business-model.html

https://www.dailykos.com/stories/2018/4/13/1756856/-It-finally-happened-Goldman-Sachs-asks-Is-curing-patients-a-sustainable-business-model

https://ghr.nlm.nih.gov/primer/therapy/genetherapy

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26751519

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