O Cabeço do Pião: entre a Terra e Marte, ou o relato de uma realidade paradoxal

No coração da Beira Baixa, limite do concelho do Fundão, existe uma aldeia que dá pelo nome de Cabeço do Pião. Integrada na freguesia da Vila de Silvares, o Cabeço do Pião avista-se da EM512 que liga as localidades de Ourondo e Aldeia de São Francisco de Assis, a qual serpenteia o Rio Zêzere, naquela zona fronteira natural dos concelhos da Covilhã e do Fundão.

Associado este lugar e o seu casario, durante longas décadas, à actividade mineira desenvolvida no Couto das Minas da Panasqueira pela empresa Beralt Tin & Wolfram, aqui se localizava o complexo da Lavaria para onde era transportado o material extraído das minas, sendo as águas do Zêzere fundamentais na altura para a sua laboração. A estrutura foi desactivada e abandonada nos anos 90 do século passado mas apresenta, na sua configuração, o paradigma do tempo em que a indústria mineira dependia totalmente da força das mãos dos muitos homens e mulheres que nesta encontraram o seu sustento.

Na actualidade, o complexo do Cabeço do Pião destaca-se da paisagem envolvente pelas suas enormes escombreiras e estruturas de apoio devolutas, testemunhos visíveis de uma intensiva extracção mineira. Um cenário árido e aparentemente sem vida é o primeiro vislumbre que assola a vista desatenta daqueles que por ali passam; mas, algures no meio da aparente desolação, há vida que teima em resistir.

É sobre esta vida que este texto incide, e é sobre ela que me atrevo a escrever pontualmente na primeira pessoa. Pois só assim é possível expressar com exactidão e desencadear no leitor a emoção que nos faz sentir. Vida de pessoas, pessoas que teimam em manter presente a memória dos tempos áureos de outrora. Tempos em que as pessoas verdadeiramente importavam.

No Cabeço do Pião existe um hostel – as Casas da Mina – inaugurado já neste século e gerido pela Câmara Municipal do Fundão, entidade responsável pelo complexo após a desactivação e desanexação da concessão do Cabeço do Pião à Beralt Tin & Wolfram. Para lá rumei um dia destes, levada pela necessidade de perceber in loco o impacto da indústria mineira no ambiente e pela curiosidade que me despoletou este lugar inóspito implantado no âmago de uma mancha verde. Pensava que a única vida ali presente era a resultante da unidade hoteleira; mas ali, naquele lugar, habitam pessoas: 29 pessoas que resistem a todos os infortúnios e a todas as contrariedades – mea culpa.

A Bina Paulo, residente no Cabeço do Pião, é a responsável pelo hostel. Desempregada de longa duração, cumpre funções no âmbito dos contratos de inserção do IEFP (Instituto de Emprego e Formação Profissional), uma situação precária que não lhe diminui o esmero nem lhe apaga o rasgado sorriso com que recebe os forasteiros que ali chegam. Fala-me do lugar, fala-me das memórias que aquele espaço carrega, com aquela chama acesa nos olhos de quem as ama. Esta é uma característica que também expressam os restantes 28 habitantes: um saudosismo dos tempos em que aquele lugar pulsava vitalidade, entre a Lavaria, a Escola Primária, o Clube, os Armazéns Gerais, o Posto da Guarda Nacional Republicana, as habitações cheias de gente. Hoje apenas lhe restam as sombras, mas essas sombras ainda fervilham no imaginário de quem ali habita, e o forasteiro que com elas toma contacto sente-se também compelido a dar-lhes forma, a esses “fantasmas” de outrora que ainda vagueiam pelo espaço entre a azáfama do trabalho árduo das minas, o riso das crianças (mais de 50, disseram-me), as festas e o cinema. Mas o riso da Eliana, filha da Bina e uma das três únicas crianças que hoje ali vivem, castra-nos a imaginação e acorda-nos para um presente totalmente paradoxal.

Toda a aldeia e valências (grande parte em avançado estado de degradação) foram construídas pela empresa mineira, quando aqui se desenvolveu sob os auspícios do Estado Novo e do volfrâmio: naqueles tempos, o trabalho nas minas era essencialmente manual, e importava que a força motriz – as pessoas – fossem dignamente tratadas. A posterior implementação de maquinaria na indústria mineira e a constante oscilação dos valores de mercado do minério diminuíram a necessidade de mão-de-obra, e gradativamente se ditou o início do fim da actividade da Lavaria do Cabeço do Pião, cuja desactivação se justificou por já não ser “economicamente rentável”. As pessoas e o lugar foram abandonados à sua sorte, e é este um fado que perdura, como me disseram, há 25 anos.

As casas habitadas que por ali resistem não usufruem de saneamento básico nem de água da rede pública; o abastecimento desta provém de um furo à bomba que a transporta por tubagens visivelmente degradadas e directamente assentes no solo, e que congelam com as geadas de Inverno. Os transportes públicos são escassos, o padeiro passa três vezes por semana e os espaços comerciais são uma quimera.

A Câmara Municipal do Fundão, na sequência da gestão do complexo mineiro e posterior planificação da revitalização e promoção turística do mesmo projectou, para além da unidade hoteleira, todo um conjunto de restauros que incluíam um museu mineiro, um espaço para restauração, delimitação e sinalização de percursos; a única obra efectivamente terminada e em funcionamento é o hostel das Casas da Mina – tudo o resto espera melhores dias, porque os milhões investidos na altura não chegaram para suavizar o impacto do legado deixado ao abandono pela Beralt Tin & Wolfram.

Este impacto torna-se nitidamente mensurável quando confrontados com as escombreiras: perto delas, a sua dimensão oprime-nos. Deambulei por duas delas, de uma aridez assaz marciana, onde teimosamente (raramente) crescem uns pinheiros bravos ou uns medronheiros – dizem-me: “é onde ainda existe terra”. Não se vê uma erva, não se vê uma flor: nada, rigorosamente nada. Uma terra de ninguém e de nada que assim irá perdurar por séculos, na qual nos sentimos forçosamente astronautas em Marte, face a face com o Olympus Mons.

Um dos percursos que fiz pelas escombreiras está integrado na Grande Rota do Zêzere, e é parte considerável dele feito à beira do rio. Neste troço são claramente visíveis os impactos destrutivos da indústria mineira, na inevitável erosão que pára nas águas, nas escorrências amarelo-esverdeadas que as coloram. Um cenário que emana um odor a morte, alimentado pela lembrança dos milhares de mineiros que, durante longos anos, sucumbiram aos “males das minas”; no entanto, e antagonicamente, lembramo-nos também que a sua vida se encontra inculcada na memória dos 29 habitantes do Cabeço do Pião e que, através dela, não morreram.

É neste património mnemónico, que oscila entre os opostos do belo e do feio e da vida e da morte, que assenta o fascínio do lugar do Cabeço do Pião e que justifica uma (ou mais) visitas. Não faço ideia se os projectos previstos para o local irão ter continuidade, se irão conseguir recuperar a totalidade das estruturas devolutas e se irão resolver (ou amainar) o incalculável passivo ambiental que ali existe e melhorar efectivamente a vida dos que ali residem, os quais estoicamente carregam o fardo cada vez mais pesado da interioridade e do esquecimento. São estas pessoas que conferem a beleza a um local que foi deixado feio, e uma estranha mas cativante harmonia é ali composta pelos contrários, lembrando-nos Shakespeare e a obra Macbeth: «o belo é feio, e o feio é belo». No Cabeço do Pião o belo está na vida que teima em despontar entre a fealdade – no canto dos grilos e das cigarras que quebram o silêncio, nas flores que a Bina planta e rega. No sorriso, na hospitalidade e na esperança inabalável das gentes que ali vivem, sob o manto de um magnífico e inolvidável céu estrelado.

Foto: A Terceira Dimensão

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