O adubo

Uma das personagens que a TVI promoveu hoje activamente no programa Você na TV saiu da cadeia em 2017. Em liberdade condicional. Ostentando um cadastro ligado a racismo, xenofobia, extorsão e criminalidade violenta num período que atravessa, pelo menos, 20 anos, Mário Machado foi convidado para uma entrevista acompanhada da sondagem: “Acha que precisamos de um novo Salazar? Sim ou não?”.

Condenado, entre outros crimes, pelo envolvimento no brutal assassinato racista do jovem português de origem cabo-verdiana Alcindo Monteiro (espancado até à morte no Bairro Alto), o antigo líder da Frente Nacional portuguesa é hoje uma das figuras de proa da sinistra NOS (Nova Ordem Social). Organização de extrema-direita que se tem dedicado, por agora, a organizar manifestações xenófobas e a prestar culto ao ditador Salazar. Por agora.

Em democracia, se cheirar a audiência, clique ou dinheiro, a TVI cobre. Mesmo que isso implique a óbvia “normalização” do crime, do racismo e da xenofobia ligados à morte de inocentes. Mesmo que isso implique a promoção aberta de uma ditadura incompatível com a liberdade de imprensa de que a TVI goza. Por agora.

Viu a oportunidade de negócio. Deu palco ao ódio e ao crime. Adubou-os com a ganância, o egoísmo e a indiferença que a opinião dominante de hoje cultiva e vende. Amanhã dirá que não, que foi tudo mal interpretado. Que todos temos direito à opinião. Mesmo que essa promova uma ditadura que não reconhecia o direito à liberdade, que prendia, torturava e matava quem de si discordava.

A TVI brinca com o fogo. Brinca com a vida. Brinca com a morte.

Imagem de sondagem no Facebook promovida na página do apresentador da TVI Manuel Luís Goucha (03/01/2018)

Imagem: Victor Pinto

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