No aniversário de Maria Lamas, esta lutadora inabalável

«Não há caminho intermédio. Não é possível qualquer posição neutral, de indiferença, seja ela real ou aparente. A incerteza do dia de amanhã torna depressor, irrespirável, o ambiente internacional e reflecte-se, de forma directa, na vida dos cidadãos, fazendo que ela seja, inevitavelmente, intranquila e sombria».[1]

O discurso aqui reproduzido não é de ontem, mas podia ser, é de 1950 e foi proferido, numa conferência sobre a Paz, por Maria Lamas, esta lutadora inabalável, ao longo dos seus 90 anos, pela Liberdade e pelos Direitos Humanos.

A sua ativa intervenção no debate público nos anos 40 (depois de ter afrontado o Presidente do Conselho com As Mulheres no Meu País, com a sua politização subscrevendo as listas do MUDJ e com o apoio à candidatura de Norton de Matos) e, sobretudo, as ações em que participa na defesa da Paz durante o ano de 1950, valeram-lhe vários meses de prisão. Nos idos de 1950, Maria Lamas (com Teixeira de Pascoaes) proferira uma conferência no Clube dos Fenianos Portuenses, intitulada «A Paz e a Vida»[2]. O evento fora organizado pela Liga Feminina Pró-Paz e contou com a participação de centenas de democratas.

No mês seguinte o Movimento Nacional Democrático divulgava um manifesto contra a vaga de prisões que a PIDE efetuara na altura e, logo no início do mês de junho, as operárias têxteis da Empresa da Senhora da Hora (EFANOR), concelho de Matosinhos, paravam os teares como protesto e sinal de solidariedade para com as camaradas suspensas. Aos protestos das operárias têxteis seguiram-se os das da indústria conserveira (de Vila do Conde) em luta contra o patronato e a recusa do pagamento dos salários. Na mesma altura, em Lisboa, Maria Lamas voltava a proclamar, destemidamente, a sua «Paz e a Vida», no Museu João de Deus, a propósito do 15º aniversário da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, momento em que se formava o Conselho Nacional para a Paz, cuja direção Maria Lamas integraria posteriormente.

Numa altura em que o espectro da guerra ainda pairava sobre a Europa – numa atmosfera cortante e «saturada» da guerra fria –, a par dos movimentos anticoloniais que eclodiam pelo mundo e que, de certo modo faziam adivinhar uma guerra colonial portuguesa, Maria Lamas expressava as dúvidas sobre um futuro pacífico para a Europa e aclamava o papel das mulheres para a construção da paz que era como dizer para a efetiva cosntrução de um novo rumo político à escala mundial.

A 5 de outubro de 1910, na véspera do seu 17º aniversário, Maria Lamas recebeu a melhor das prendas, um Portugal Republicano: «Esqueci o colégio e vivi a Revolução. Passei a estar interessada na igualdade, liberdade e fraternidade da Revolução.», dizia em “confissão” aos seus leitores[3]. Os bons augúrios da República, com o voto, a escola pública e outras grandes mudanças sociais e políticas, não permaneceram, no entanto, tempo suficente para a sua consolidação. A Ditadura Militar e o Salazarismo chegavam com as verdades inexoráveis e homens e mulheres preparavam-se para viver os próximos quarenta anos apartados do mundo, interditos de todas as liberdades.

Esta Maria de que vos falo escrevia cartas a Salazar, perguntava-lhe “afinal como estava o Estado a proteger as mulheres portuguesas” e saía em 1947 por esse país fora para revelar que as mulheres portuguesas estavam nas minas a empurrar vagões, nos campos a trabalhar com os filhos às costas, nas praias a tratar das redes, das casas, da prole e das economias à espera dos homens que voltavam com a pesca (quando voltavam). A PIDE cansava-se da irreverência da D. Maria. Ligava-lhe para casa a anunciar a prisão. O luar de Agosto na cela era terrível, de endoidar, segundo nos conta ela nas cartas que chegavam de Caxias. Mas esta Maria fez sempre o que quis e, a certa altura, começou “a andar na vida de mala atrás”.

Ficha de Maria Lamas na PIDE

Maria Lamas tinha uma curiosidade e uma vontade de agir insaciáveis. Não esperava que alguém tomasse uma atitude, a própria se punha em ação e punha os projetos em andamento, quer ao nível literário quer ao nível da intervenção cívica e política. E girou o mundo em congressos falando e ouvindo falar sobre a situação das mulheres, em congressos pela Paz, contra o nuclear, contra a exploração inexplicável, inenarrével, de recursos e de gente. Alemanha, URSS, China, Japão, múltiplas viagens, palestras, gente, muita gente. A chegada de cada viagem era difícil, com a PIDE a fazer esperas no aeroporto. Partir para o exílio em Paris facilitou-lhe o contacto com o resto do mundo. Aí esteve de 1962 a 1969, bebendo do mesmo copo um Maio de 68 fulgurante com intelectuais, políticos, artistas portugueses e de todo o mundo. No regresso, Maria Lamas mantém a atividade política e cívica.

No 25 de Abril já em Portugal participando nos movimentos democráticos, com grande entusiasmo e esperança no futuro do país, afirmava: «[nesse dia] senti uma alegria diferente: uma alegria de viver, senti-me muito feliz por ter podido viver isso [o 25 de Abril]. […] foi qualquer coisa de novo que surgiu na terra portuguesa. […] Portugal vai renascer das suas próprias amarguras. Vai fazer um caminho de paz. Não há força nenhuma que possa destruir as raízes de um futuro de democracia verdadeira, de fraternidade verdadeira, de liberdade autêntica que o dia 1º de maio anunciou.» (entrevista à RTP, 1974). Estas palavras proferia-as aos 81 anos, expressando uma vontade de viver inigualável, arrebatada, vibrante.

Esta Maria sobre a qual escrevo encerra em si, e abre ao mundo, as lutas todas: pelo voto livre de todos os cidadãos, homens e mulheres; pelo direito ao trabalho digno e remunerado justamente para todos, mas muito especialmente pela igualdade nos direitos laborais; pelo direito à maternidade assistida, por creches e escolas públicas que dessem respostas às necessidades das mães trabalhadoras; pelos direitos das crianças; pela Liberdade e pela Paz. «A palavra que orientou a sua vida foi Paz, a liberdade básica que permite o exercício de todos os direitos. A Paz não era para ela apenas a não existência de guerra, era um ideal mais alto, assente numa sociedade fraterna, tolerante, solidária[4]».

No 5 de outubro de 2019, inspiremo-nos uma vez mais nesta Maria e em todas as que todos os dias continuam inabaláveis nas suas lutas. Feminismos, eco, críticos, construtivistas, espirituais, com todas as interseções, sem preceitos nem preconceitos. Fica a inspiração de Maria Lamas que «visava com mais amplitude a igualdade e a cooperação em liberdade para homens e mulheres, para toda a humanidade»[5], tendo como única certeza a urgência do tempo que passa. É que não há caminho intermédio perante a incerteza do dia de amanhã, o que o torna sempre sombrio.

[Maria Lamas nasceu a 6 de Outubro de 1893, em Torres Novas]

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[1] Maria Lamas, «A Paz e a Vida», in Duas conferências em defesa da Paz, p.29

[2] posteriormente publicada pela revista Seara Nova e em opúsculo editado pela Associação Feminina para a Paz, em 1950

[3] Maria Lamas, «Confissões de Sílvia [Fragmentos de uma confissão]». As quatro estações. Tomo I – Primavera. Lisboa: Actualis, 1949.

[4] Maria Leonor Machado de Sousa, «Maria Lamas e a Madeira», revista Islenha, Julho-Dezembro de 2011, p. 16.

[5] José Gabriel Pereira Bastos (2017, em Catálogo da Exposição Mulheres, Paz, Liberdade, p. 76), antropólogo, neto de Maria Lamas, defende que esta tem como fim uma visão mais ampla, que vai muito além do sufragismo, da sexualidade libertária, da guerra de sexos.

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