Nascer e morrer num Natal transfigurado

Representa simbolicamente, o Natal cristão, o nascimento do “Deus Filho”, entidade de conotações solares, participante da temporalidade solsticial, preconizada (mas não só) pela absorção do “Natalis Solis Invicti”: festa que celebrava, no Império Romano, nesta altura do ano, o nascimento de Mitra.

Daí as “noites do galo”, “missas do galo”, “fogueiras do galo”, “lumes-novos” e cânticos elegíacos, com a simbologia flamejante relacionados e expressos no seu arauto mais evidente; o galo. Anunciador quotidiano, que é, da claridade do dia; que dimana a luz e afasta as trevas.

A meia-noite, momento de inflexão solar e tempo sagrado de morte/renascimento, irá ser sincreticamente integrada no cerimonial cristão que, afinal, marca a hora do nascimento do “Menino”; como que um avatar do novo sol que ressurge.

As fogueiras e os cânticos consagrados ao astro rei (ou às mais diversas divindades solares) transmutar-se-ão, deste modo, em louvor do “mesmo”; sentido que, contudo, não prescindiu de funcionalidades mais prosaicas que garantiram, através dos tempos, a sua continuidade; peditórios, subversões e comezainas diversas. Funcionalidades que, por seu turno, não dispensavam, os inevitáveis fumeiros e os diferentes vinhos da “pandorca”.

A “consoada” incluía toda a família; abrangendo, até, os respetivos defuntos. Para isso se colocava mais um lugar na mesa ou se deixava, a mesma, “posta” durante a noite, com a luz acesa. “Para alumiar as almas”, se dizia em confidência.

Tudo isto em comunidades em que todos se conheciam e, coletivamente desenvolviam ações rituais que se tornavam costume e hoje consideramos, de alguma forma, património.

Com o gradual desaparecimento das mesmas, num mundo cada vez mais global, tudo isto mudará.

O “Menino” deixará de esperar trinta e três anos por uma morte dramática; num percurso mítico, iniciático e redentor, a que chamamos “paixão”.

E se a comemoração do Natal constitui, por definição, a repetição mítica do nascimento da divindade (consubstanciação imprescindível ao sofrimento e à morte, que há-de servir de paradigma exemplar no percurso e desiderato de salvação), percebe-se melhor a importância que a Igreja lhe dá e, naturalmente, a gravidade que decorre do seu atual olvido e menorização.

A sua morte passou a ser, na verdade, pragmaticamente bem mais precoce (mortalidade infantil, chamar-se-lhe-ia hoje) e, já agora, bem menos dramática: fazendo definhar, no esquecimento, carateres concetuais que não foram feitos para este tempo de comércio e consumo.

Mas não deixará de ser uma morte!

Contudo, curiosamente, ao contrário das mortes míticas que representam os fins dos anos velhos e a criação dos anos novos, que nestes tempos solsticiais tradicionalmente se verificavam e encontramos, ainda hoje, nos singulares combates rituais que opõem “velhos”, “chocalheiros”, “carochos”, “sécias” e afins um pouco por todo o nordeste transmontano, aqui não será o novo e o regenerado que acabará por vencer o velho e o degenerado.

Muito pelo contrário!

E o “Deus Menino”, suposto novo sol e “Salvador da Humanidade”, acabará vencido e remetido para o limbo existencial, por um prosaico velho de barbas brancas; inspiração vaga e distante de um santo irrelevante (que, acompanhado de um burro, percorria as povoações de algumas áreas do norte europeu, levando presentes e guloseimas às crianças) tornado estereótipo referencial de campanha publicitária de uma dada multinacional.

Estereótipo que, à semelhança de outras figuras mercantis como a “Barbie” ou o “GI John” (ou, entre nós, a “Popota”) incrementa todos os anos a parafernália imaginária, acrescentando novos cenários e personagens que vão, gradualmente, elaborando cenários míticos cada vez mais complexos, e alimentam utopias diversas; fomentadoras, naturalmente, de fluxos comerciais.

Transformando então, esta quadra, numa época marcada intensamente pelo consumo. Em que os supostos valores morais, associados ancestralmente à mesma, mal se conseguem perceber por entre uma mitologia mercantilista, prolífera e em crescimento: “pais-natais”, “mães-natais”, “trenós”, “renas”, “duendes”, “palácios de gelo”, “polos nortes” e “fábricas mágicas de brinquedos”.

Exemplo, afinal, de um simbólico (mas não menos real) infanticídio, contra o qual a Igreja luta, hoje, estoica e ingloriamente. Em que o dinheiro ocupa o lugar de nova divindade e, os intocáveis pressupostos de consumo, o de paradigmática doutrina de salvação.

São, de facto, os inefáveis frutos do Tempo.

 

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