Não há dinheiro, Bastonária

Não tirem conclusões precipitadas pelo título deste texto. O governo, tal como outros que o antecederam, tem vindo a dizer que não há dinheiro para satisfazer não só as reivindicações justas dos trabalhadores, como para investir de acordo com as necessidades nos serviços públicos seja no Serviço Nacional de Saúde (SNS), na escola pública ou em todos os outros que foram destroçados pela troika e pelo governo do PSD/CDS de Passos Coelho e Assunção Cristas.

De facto, não custa a crer que não haja dinheiro para melhorar as condições de vida dos cidadãos em geral quando se prosseguem políticas centradas com a obsessão do défice Zero, quando se gastam rios de dinheiro em Parcerias Público/Privadas garantindo aos privados rendas e lucros fabulosos passando para o Estado os prejuízos, quando se enterram na Banca milhões de milhões de euros para pagar o roubo e os desmandos de banqueiros e dos políticos que sustentam esta sua clientela.

Dinheiro que devia servir para investir em serviços públicos – saúde, educação, por exemplo – é entregue aos bancos que têm levado o país à ruína.

Quando se diz que não há dinheiro para atender às reivindicações justas dos trabalhadores, estes nas lutas que travam têm que saber do que se trata. Os trabalhadores têm que ter presente que “não há dinheiro” porque o dinheiro é utilizado para dar aos bancos e banqueiros, para pagar juros exorbitantes de uma dívida que só será pagável com uma reestruturação/renegociação que liberte recursos financeiros para o investimento e se a política obsessiva do défice Zero prosseguida pelo actual governo for abandonada.

Mesmo acreditando que em alguns casos se trata de um empréstimo aos bancos a 30 anos e que estes o pagarão, o que é mais do que duvidoso, não deixa de ser dinheiro que é desviado e assim retirado aos serviços públicos, aos trabalhadores, aos cidadãos em geral. Foi assim com o BPN, o BPP, o BANIF, o BES, o BPI o BCP, a CGD, o Novo Banco. Novo Banco vendido por tuta e meia aos americanos do Lone Star conhecido, e não por acaso, como um “fundo abutre”, que distribuirá os seus lucros pelos seus accionistas mas que cobra os seus prejuízos aos contribuintes portugueses.

É pois neste momento que apetece questionar a Bastonária da Ordem dos Enfermeiros. Na verdade, sendo Ana Rita Cavaco apoiante de Passos Coelho, assessora de governos do PSD e das políticas de austeridade que foram para além das exigências da troika é caso para perguntar se concordará com novas políticas que façam os bancos e os banqueiros pagarem pelos seus desmandos, com o fim das Parcerias Publico/Privadas, com a primazia do SNS, com a exigência de uma renegociação da dívida e com o fim da obsessão do défice Zero que é uma medida que também vai mais longe do que é exigido pela União Europeia.

Não se pode reivindicar melhores salários e condições de vida e de trabalho e ao mesmo tempo apoiar políticas e partidos que apostam em favorecer a banca, os grandes grupos financeiros e do comércio internacional, os lóbis privados para quem a saúde é só um negócio.
Não se pode reivindicar melhores condições de vida e apoiar medidas políticas que aumentam as desigualdades sociais, favorecem a concentração da riqueza no factor capital em detrimento dos trabalhadores.

Em suma, não tivesse o país que pagar rendas obscenas pelas Parcerias Público/Privadas, rendas indecorosas às empresas eléctricas como a EDP, que enterrar muitos milhões e milhões de euros na Banca e de pagar uma dívida com exigências e juros usurários e de certeza que teríamos dinheiro para investir nos serviços públicos como eles merecem e melhorar as condições de vida e de trabalho dos portugueses.

É isto que está em causa e é isto a que os portugueses têm que responder com clareza nos próximos actos eleitorais que se avizinham.

Original no blogue O Navio de Espelhos

Destaque da responsabilidade de Via Esquerda

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