Mulheres afegãs resistem aos talibãs

 Ranna Amani foi oradora convidada no Encontro em Defesa das Mulheres Afegãs, uma iniciativa que teve lugar em Lisboa, na sede daUMAR. Ranna é uma ativista no exílio do Movimento Espontâneo das Mulheres Afegãs (SMAW na sigla inglesa), refugiada na Suécia. 

O Movimento Espontâneo das Mulheres Afegãs surgiu espontaneamente nas ruas de Cabul e de outras províncias quando o regime talibã proibiu a escolarização das raparigas e começou a desmantelar todos os direitos das mulheres. O exército de ocupação dos EUA e da NATO entregara o poder aos talibãs em 2021 nos termos dos acordos celebrados entre a administração Trump e a guerrilha talibã, em Doha, um ano antes.

O encontro de Lisboa foi o primeiro de uma digressão europeia de Ranna Amani, organizada pelo Comité Internacional de Defesa das Mulheres Afegãs. Depois de Lisboa, falará em Bilbao (Estado espanhol), Marselha (França), Turim (Itália) e Genebra (Suíça).

Ranna Amani relatou como centenas de mulheres têm sido sequestradas, raptadas, violadas nas masmorras públicas e secretas do regime. Muitas desaparecem sem deixar rasto. Muitas reaparecem, mortas.

Inicialmente, a força do movimento de resistência das mulheres conquistou espaços de liberdade de manifestação e informação que lhe permitiram uma expansão rápida por todo o país. Depois, a repressão do regime abateu-se, feroz. As raparigas são agora impedidas de estudar além da instrução primária. As mulheres são sistematicamente despedidas da função pública, das escolas, dos hospitais. São apagadas da vida pública e de toda a existência independente. Impõem-se- lhe regras de vestuário e conduta.

O Movimento Espontâneo das Mulheres Afegãs trabalha atualmente, em grande parte, na clandestinidade. Mantém “casas seguras” para mulheres e escolas clandestinas para raparigas, com professoras voluntárias.

O movimento condena veementemente o imperialismo dos EUA como principal culpado do destino há quarenta anos reservado ao povo afegão, que agora culmina na eliminação completa dos direitos das mulheres. O movimento pede à “comunidade internacional” que se abstenha de dar dinheiro ao regime talibã a pretexto de ajuda humanitária. Nenhuma dessa ajuda chega às mulheres, impedidas, sequer, de trabalhar nas organizações de ajuda e humanitárias. A “ajuda” apenas sustenta o brutal e misógino governo dos talibãs.

Ranna Amani referiu que “o povo do Afeganistão, especialmente as mulheres, não podem aceitar o Emirado Islâmico do Afeganistão ou governo talibã. A conversa, que hoje circula por alguns países e por círculos da oposição no exílio, acerca da formação de um “governo inclusivo” significa fazer compromissos em matéria de direitos humanos, direitos das mulheres e liberdades do povo do Afeganistão. Nós cremos que as atrasadas crenças religiosas dos talibãs os tornam incapazes e sem independência para acolher os direitos das mulheres e as liberdades políticas e civis. A única via é, por isso, lutar pela instauração de um governo democrático e laico saído de eleições gerais e livres. Tão-pouco os partidos jihadistas e islamistas ou os restos corruptos do governo do tempo da ocupação americana representam o povo e as mulheres do Afeganistão. Pouco diferem dos talibãs e do Daesh. Não se lhes dê nenhuma participação no governo talibã a pretexto de formar um “governo inclusivo” que legitime e promova um regime misógino e teocrático no Afeganistão. Os partidos jihadistas e os senhores da guerra da “Frente Nacional de Resistência” chefiada por Ahmad Massoud, todos eles acusados de crimes de guerra e violações dos direitos humanos, têm de ser levados a tribunal, tal como os talibãs.

Por fim, Ranna apelou a:
– apoiar o Comité Internacional de Defesa das Mulheres Afegãs (https://defendafghanwomen.org), formado em Paris em 2021; – lutar, em todos os países, pela concessão de asilo político às centenas de manifestantes perseguidas e ameaçadas pelos talibãs; – contribuir financeiramente para as crianças vítimas da guerra e as manifestantes presas; – doar generosamente para as “casas seguras” e os centros de ensino clandestinos criados pelo Movimento Espontâneo das Mulheres Afegãs.

A seguir à intervenção de Ranna Amani, as e os presentes fizeram perguntas e comentários, dando azo a um debate interessante e enriquecedor sobre a vida e a luta das mulheres no Afeganistão. No final, as e os presentes prestaram sentida e vibrante homenagem às mulheres afegãs, aplaudindo longamente Ranna Amani, mulher e resistente.

Apela-se a todas e a todos para que enviem  contribuições solidárias para o Comité Internacional de Defesa das Mulheres Afegãs (https://defendafghanwomen.org/), formado em Paris em 2021, na sequência de uma carta do Movimento Espontâneo das Mulheres Afegãs.

Conta « Comité international de défense des femmes afghanes » IBAN: FR76 1027 8060 5000 0213 5650 174
BIC/SWIFT: CMCIFR2A

 

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