Moções E e A: duas visões sobre o movimento popular

A próxima e difícil batalha autárquica concentra a atenção de todo o coletivo partidário e merece, naturalmente, referência em moções que se apresentam a debate e votação na próxima Convenção Nacional.

Uma das críticas que reiteradamente tem sido dirigida à Moção E é a de que terá uma política de alianças locais pouco clara e que, supostamente, até defenderá coligações locais com o PS. Ouvi o “argumento” em vários debates online.

Vamos aos factos. O que diz então a Moção E sobre a participação do Bloco de Esquerda na batalha eleitoral autárquica?

“Todo o empenho deve ser conduzido para a promoção de candidaturas próprias, podendo assumir, em situações excecionais, o eventual apoio a alianças populares à esquerda na forma de candidaturas independentes e cidadãs.”

Pergunto: onde está aqui a defesa de coligações com o PS? Não está, é evidente. E a falta de clareza?

Eu digo onde está a falta de clareza. Está na proposta de Moção A quando escreve sobre este mesmo assunto:

“O Bloco apresenta listas próprias, abertas à participação de candidatos independentes e não realizará coligações nem com a direita nem com o PS. O Bloco poderá renovar coligações ou o apoio a movimentos de cidadãos com balanço positivo.”

A que coligações se refere a Moção A? Mistério.

Renovar apoios a movimentos de cidadãos com balanço positivo? Muito bem.

Mas porquê apenas renovar? Por que razão impedir o apoio e a participação em novas “alianças populares à esquerda na forma de candidaturas independentes e cidadãs”, como defende a Moção E, quando as organizações locais do Bloco assim o considerem adequado para a construção de uma alternativa forte?

Mais concretamente: porquê aceitar (e bem) a participação numa lista de cidadãos em Coimbra, por exemplo, mas já não aceitar idêntica solução num qualquer outro ponto do país, em que as organizações locais também a defendam?

Perguntas claras a exigirem respostas claras, mas que, apesar da minha insistência, nunca ouvi por parte da Moção A, nos vários debates em que participei.

A Moção A parece partir do princípio de que apoios a novos movimentos de cidadãos terão forçosamente, no futuro, um balanço negativo. Estranha forma de pensar para quem garante visar a construção de um “partido grande”…

Já para a Moção E a construção da esquerda grande poderá assentar, não só nas listas próprias do BE, mas também em dinâmicas sociais unitárias que, à esquerda, ampliam a luta por programas populares.

A duas visões para a esquerda popular correspondem duas moções para a Convenção. Nenhum militante se poderá lamentar da falta de alternativa.

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