Mesa Nacional do BE: democracia asfixiada

À pluralidade da XII Convenção Nacional a maioria responde com mais asfixia à democracia

AXII Convenção Nacional do Bloco de Esquerda que elegeu a atual Mesa Nacional (MN) definiu uma nova pluralidade dentro do partido, com a Moção E a obter uma representatividade de 21% neste órgão. Esta foi a vontade expressa pela assembleia magna do Bloco de Esquerda.

No dia 29 de maio decorreu a primeira reunião da nova MN, com uma ordem de trabalhos que incluiu, entre outros pontos, a discussão e aprovação do Regulamento Interno da Mesa e do Regulamento Eleitoral das Comissões Coordenadoras Distritais e Concelhias, bem como a eleição do Departamento Internacional, da Tesoureira Nacional e da Comissão Política.

Os eleitos pela Moção E levaram à Mesa (MN) um conjunto de propostas, no âmbito do regulamento interno da MN, liminarmente recusadas pela maioria (Moção A), apesar de o objetivo ser o de potenciar a cooperação, o debate democrático e plural, aumentar a capacidade de participação e de trabalho deste órgão, unir o Bloco nos combates a enfrentar.

1. Para promover a capacidade propositiva de cada um dos eleitos/as da MN propôs-se que a ordem de trabalhos da reunião e o envio de documentação seguissem com a convocatória da reunião. A recusa desta proposta, bem como do envio com mais de 72 h de antecedência dos documentos a votar na reunião, mesmo podendo ser objeto de alterações na própria reunião, obstam à boa preparação das reuniões da MN, bem como dificultam a participação e apresentação de propostas consentâneas com o rigor e importância que o órgão soberano do partido entre Convenções requer.

2. Face à competência de direção nacional do partido, conferida pelos estatutos à Mesa Nacional, propôs-se que se mantivesse a regularidade bimestral das reuniões da MN. A maioria aprovou a redução para 5 reuniões ordinárias da MN por ano.

3. Com o intuito de aproximar os aderentes da discussão e dos argumentos dirimidos na Mesa Nacional, propôs-se a publicitação das ordens de trabalho e das decisões minutadas, bem como dos documentos apresentados a discussão e votação, aprovados ou rejeitados. Com a rejeição desta proposta, a maioria opta pela comunicação de uma imagem unanimista que não corresponde à realidade nem caracteriza este partido.

4. Em contraponto a estas propostas, a Moção A aprovou que apenas 25% dos membros da MN podem requerer uma reunião extraordinária da MN, ao invés dos 20% que sempre constaram de regulamentos anteriores. Com o argumento explícito de coartar o direito de convocatória de reunião da MN por parte dos eleitos pela Moção E. Não houve hesitações em reduzir na secretaria qualquer agilidade democrática deste órgão.

5. A maioria representada na Mesa Nacional impediu a aplicação ao Regulamento Eleitoral das Comissões Coordenadoras Distritais e Concelhias das recomendações aprovadas no Relatório da COC2021, ficando nomeadamente por densificar as normas relativas ao voto por correspondência. Foi recusada a proposta de adiamento da discussão e aprovação deste regulamento para que pudesse existir uma melhor ponderação das recomendações da COC. A maioria optou por manter um regulamento com fragilidades claramente identificadas.

6. O atropelo por parte da maioria à democracia interna estendeu-se ainda à Comissão Política (CP), com a redução de 18 para 16 elementos, sem argumentos que suportem esta redução, mas sem se coibir de aumentar o Secretariado Nacional de 7 para 10 membros todos/as eleitos para a MN pela mesma moção. A par da desvalorização da MN, diminui-se a representatividade da CP e a capacidade de direção política. Os Estatutos conferem à CP “a direção quotidiana do Movimento, nomeadamente a ligação com os seus grupos parlamentares nacional e europeu e a aplicação das deliberações da MN sobre a orientação política das e dos eleitos”. Como é possível que a CP assegure a direção quotidiana do partido quando passa a reunir mensalmente em vez de quinzenalmente?

Acrescentando às decisões da Mesa Nacional e da Comissão Política a redução da frequência de reuniões da Comissão Política (passaram de quinzenais para mensais), fica implícita a sobrevalorização do Secretariado Nacional, apenas constituído por camaradas da Moção A por imposição dos próprios, que não representa o partido nem é um órgão estatutário, e a preponderância que passa a ter na direção efetiva do partido. Este movimento de translação para um partido centralista, verticalizado e fortemente hierarquizado acentua-se e coloca em causa a conceção que está na génese do Bloco de Esquerda.

As eleitas e os eleitos pela Moção E – “Enfrentar o Empobrecimento, Polarizar à Esquerda” veem com preocupação a tendência de asfixia, desvalorização e fechamento da Mesa Nacional, bem como a limitação da discussão política mesmo dentro dos órgãos estatutários do partido, o que configura o agravamento da deriva centralista que já se manifestava, não querendo a maioria retirar conclusões do que foi a XII Convenção Nacional. Como é possível unir o partido nos combates que é preciso enfrentar se a opção da Moção A é a de excluir em vez de promover a cooperação entre todos/as (clicar aqui para ver proposta de resolução apresentada)?

Face à recusa da cooperação e da pluralidade, afirma-se a exigência de uma esquerda que consiga, a um tempo, ser plural, combativa e influente. Este o desígnio que será prosseguido com frontalidade, amplitude e firmeza democráticas. Esta foi a génese do Bloco, desde o Começar de Novo, quando assumiu as grandes tradições dos movimentos e das lutas populares e se constituiu com a diversidade de experiências e desafios, incluindo as contribuições convergentes de todos/as que se quiseram e querem continuar a comprometer-se com a derrota do rotativismo ao centro, mesmo que disfarçado, e a busca de alternativas ao capitalismo.

Original no site da Convergência

Crédito da foto: esquerda.net

1 comentário em “Mesa Nacional do BE: democracia asfixiada”

  1. Mais do que tornar públicas as diferenças de perspectiva, estratégia, métodos ou objectivos (por muita razão que se acredite ter), deveria priorizar-se e manter o debate interno (não necessariamente nas datas de congressos ou eleições), mas sim no dia-a-dia, na discussão tranquila entre camaradas, procurando pacientemente compreender e esclarecer como certas derivas ou tentativas de controlo têm historicamente levado a divergências insanáveis e muitas vezes à ruptura de um movimento ou partido, fraccionando-o e desperdiçando o seu potencial. Isto é deitar por terra o trabalho de todos – ‘vitoriosos’ e ‘derrotados’ – feito ao longo de anos de luta.
    Quem disso beneficia no final? Quem ganha com a divisão? Um grupo? Uma facção? Um triunfo efémero e provavelmente derradeiro. Ou haverá um inimigo comum, o inimigo principal, que ganhará com o enfraquecimento do movimento que, a ser amplo, lhe faria frente?
    Com persuasão, separando factos, dividindo as questões mais complexas noutras mais simples para se poder questionar o caminho a que cada umas delas conduz e com qual o objectivo final fica mais próximo ou mais comprometido.
    É um trabalho diário, persistente, em cada contacto, em cada oportunidade que surge. Ouvir, saber ouvir, sugerir sem impor, questionar sem arrogância. Não vejo que a acusação pública, por muito construtiva que pretenda ser, funcione como ponto de partida para um caminho único.

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