Mariza, candidata contra o medo

Frente a uma plateia com profissionais que estiveram na primeira linha de combate à pandemia, a  eurodeputada do Bloco de Esquerda apresentou-se como candidata a Presidente da República, nas eleições do início do próximo ano.

A apresentação teve lugar no Largo do Carmo, em Lisboa, local simbólico onde em 25 de Abril de 1974 o regime fascista sofreu a sua derrocada definitiva. Simbolicamente, Mariza Matias apresentou-se aí com um cravo vermelho na mão, antes de proferir a intervenção que abaixo transcrevemos na íntegra.

“Portugal precisa de saber quem são e de ouvir quem faz a vitória sobre o medo.”

Estou aqui para vos dizer que serei candidata à Presidência da República e porquê. Mas antes de dizer umas palavras, deixem-me explicar porque pedi a vossa presença, aqui no Largo do Carmo, e vos quis ouvir.

O país ouve falar todos os dias da pandemia e do sobressalto em que vivemos. Mas fala-se cada vez menos de quem todos os dias luta nos hospitais e centros de saúde, no rastreamento e na prevenção, para salvar vidas, para permitir a abertura das escolas, para proteger os idosos nos lares. O país sabe quem são, porque nos últimos meses contou com eles todos os dias.

O país contou com gente que olhou o medo nos olhos e foi à luta. Trabalhadoras das limpezas, como a Isabel Alcobia, que todos os dias cá estiveram, nos hospitais e centros de saúde como nos vários serviços, para garantir a limpeza, tantas vezes quando o país ainda não acordou. Trabalhadores dos transportes, como o Sérgio Sousa, que todos os dias cá estiveram para assegurar as deslocações quando o país acorda. Trabalhadores da recolha do lixo, como o Paulo Rodrigues, que todos os dias cá estiveram quando o país se deita. Gente de coragem, são a linha da frente.

O país contou com gente de uma dedicação extraordinária. Cientistas, como a Inês Milagre, a quem tantas vezes falta um vínculo mas a quem nunca faltou entrega, num tempo em que precisamos mesmo do conhecimento científico para vencer a pandemia. Mas também professoras, como a Cecília Costa, e toda a comunidade escolar, que de um dia para o outro foram obrigados a reinventar a escola para que nenhuma criança fique para trás.

Elementos das forças de segurança ou vigilantes, como a Sofia Figueiredo, assim como bombeiros, como o João Almeida, essenciais ao funcionamento do Estado e dos serviços públicos. Carteiros, como o Roberto Tavares, que asseguraram um serviço essencial e nunca deixaram de trabalhar para garantir entregas durante o confinamento. E também trabalhadores da indústria, como o Luís Silva, que garantiram a produção de bens necessários. Gente que nunca baixou os braços, linha da frente.

O país contou com gente que nunca desistiu quando tudo parecia desabar. Trabalhadores que tiveram perda de rendimentos e microempresários, como o Afrozur Rahman, e tantos para quem o apoio tardou a chegar e, quando chegou, ficou pela metade. Trabalhadores da cultura e das artes, como a Catarina Côdea, e tantos outros a quem o apoio nunca chegou e que solidariamente se organizaram em redes de apoio alimentar. Estudantes, como a Andreia Galvão, e jovens precários, uma geração inteira que enfrenta a segunda crise das suas vidas e a quem disseram que têm de viver entre o desemprego e a precariedade. Gente de cabeça erguida, são também a linha da frente.

E o país contou ainda com gente de uma solidariedade imensa. Cuidadores informais, como a Rosália Ferreira, para quem a pandemia juntou isolamento ao isolamento e que, tendo o estatuto porque lutaram, tardam em ver o reconhecimento pleno que lhes é devido. Ou voluntários, como a Beatriz Farelo, que estiveram com as pessoas em situação de sem-abrigo e deram o melhor de si para reforçar uma resposta pública que não deixe ninguém para trás.

E o país contou, claro, com os profissionais do Serviço Nacional de Saúde, pilar da democracia. Médicos como o Afonso Moreira, técnicas de diagnóstico e terapêutica como a Marta Mesquita, enfermeiros como o Mário Macedo. Todos aqueles que justamente ouviram os aplausos de um povo inteiro que reconhece a dedicação que salva vidas, mas a quem o Estado tarda em garantir justiça e condições. Profissionais de saúde, cuidadores, são linha da frente.

No tempo do medo, há pessoas que cuidam de todos. Como vocês, como tantos outros. Na história desta gente não se esgota a história da pandemia. Mas estas pessoas são do melhor que o nosso país tem. Obrigada por estarem aqui hoje.

É a segunda vez que me candidato a Presidente da República e farei toda a campanha assim, a ouvir, a dar voz à gente sem medo, a apoiar a coragem de quem cuida dos outros. Portugal precisa de saber quem são e de ouvir quem faz a vitória sobre o medo.

“Portugal precisa de uma política  socialista”

Eu sou candidata para fazer essa campanha contra o medo. Já sabem quem eu sou, mas quero dizer-vos porque farei uma campanha presidencial pela segunda vez na minha vida.

Sou socialista, laica e republicana e vou à luta pelas minhas ideias, ao lado de quem não desiste de Portugal.

Portugal precisa de uma política socialista, porque é o pleno emprego, o fim da precariedade e o respeito pelo salário e pela pensão, é essa política que nos deve guiar nos meses mais difíceis do nosso século, o tempo de uma crise que ainda se vai agravar e que, no dia das eleições, ainda estará a fazer vítimas.

Portugal precisa da laicidade do Estado e do ensino, da escola que trata toda a gente com o mesmo respeito e que defende as crianças e o seu direito a aprender e crescer nas melhores condições.

E Portugal precisa da República, da liberdade e da igualdade que nos torna a todos e a todas responsáveis pela nossa gente. A República é a terra de mulheres e homens, de crianças e adultos, de brancos e negros, de imigrantes e emigrados, sem discriminações, sem intolerância, sem perseguições. A liberdade e a igualdade são as minhas bandeiras.

O meu lugar é a afirmar o respeito e a solidariedade com quem está aflito com a crise. Venho a esta campanha, como vos disse, para mostrar que não pode haver medo. O medo é o que nos destrói, é o que torna um país pequeno e submisso, é o que provoca divisões, racismo, ódio, perseguições. O medo divide, a República une. E é por isso que sou republicana, luto ao lado de quem se revolta contra a injustiça, de quem, como vocês, não se permite desistir do país, de quem  luta pelos valores de uma esquerda que não se verga às ordens do mercado, de Berlim ou de Washington, de Pequim ou de Bruxelas.

E, por isso, sou candidata frente a frente com Marcelo Rebelo de Sousa. É o presidente em funções e sei bem das diferenças com o passado.

E sei de caminhos onde nos encontramos, como na exigência pelos direitos das pessoas em situação de sem-abrigo ou na luta pela visibilidade e reconhecimento dos cuidadores informais. Mas discordamos em questões essenciais e peço o voto sobre essa diferença: Marcelo quer um regime político assente em mais do mesmo, eu quero um regime que responda à pandemia social e que acabe com os privilégios; ele aceitou um regime financeiro que se foi esvaindo em privatizações e negócios, eu quero uma banca pública de confiança; ele quer um sistema de saúde concedido em parte a hospitais privados, eu quero um Serviço Nacional de Saúde de qualidade para todos porque sei que, quando o comércio entra na Saúde, são os que menos têm que ficam a perder.

Eu não aceito a desigualdade e enfrento-a. Não terei o voto dos mandatários das fortunas, mas estarei com os jovens trabalhadores que não aceitam empobrecer nesta segunda grande crise das suas vidas.

Aqui está porque sou candidata. Não sou candidata por jogos partidários, por ajuste de contas, por necessidade de palco. Gosto do que faço: cumpro o mandato para que fui eleita, vivo feliz a dar o meu contributo e, se venho a esta campanha, é pelo entusiasmo e confiança na vossa palavra, na vossa experiência, na vossa vida, na força que podemos dar a Portugal.

Sem medo: um abraço.

Obrigada!

 

Título, subtítulos e destaques da responsabilidade de Via Esquerda

Foto de Ana Mendes em esquerda.net

3 comentários em “Mariza, candidata contra o medo”

  1. Atenção;

    Devem escrever o nome de Marisa Matias e não Mariza Matias, há sempre comentários que não queremos ver.

    Beijos e Abraços
    Vítor J. P. Tojeira

  2. Porque a candidatura de Maria Matias é muito diferente da de Ana Gomes.

    Francisco Assis, desde que apanhou uns socos e pontapés numa cena lamentável protagonizada por militantes do PS em Felgueiras (já lá vão quase duas décadas…), deve ter jurado vingança mesmo antes de entrar no carro em que fugiu da ‘populaça’.
    Seria então questão de esperar pela oportunidade.
    Desde sempre com indisfarçável pendor pela política PSD (e menos vertical que José Seguro que pelo menos teve a dignidade de sair da política), até Rui Rio se manifestou agora particularmente feliz com a nomeação para o CES dessa figura que, pelo seu perfil e experiência, é de facto uma preciosa mais-valia para a direita.
    Pois Assis viu na atitude genuinamente desprendida e sempre voluntarista de Ana Gomes a oportunidade soberana de entalar o PS apontando-a como ‘A Candidata’, esperando assim que muitos caiam no engodo criando ao PS um dilema: ou assumem (de forma mais ou menos envergonhada) a sua tendência centralóide apoiando Marcelo, ou propõem uma candidatura própria, de imediato divisora do seu eleitorado e obviamente perdedora. A alternativa que resta para muitos militantes e votantes tradicionais do PS, será então uma espécie de voto útil em Ana Gomes.
    Porém esse eleitorado, embora honesto e desejoso de Justiça, não perceberá que está a cair num logro, pois nas atribuições e exigências diplomáticas e protocolares de um Chefe de Estado, não cabe a investigação e muito menos a denúncia pública de corruptos! Ao contrário do que pensam, estarão sim a calar Ana Gomes mal termine a campanha eleitoral, período que essa candidata naturalmente aproveitará para mostrar o que sabe, mas que não terá continuidade. É que mesmo depois, os corruptos que dispõem de milhões para mandar em jornais, rádio, televisão e redes sociais, tudo farão para desmontar as verdades que Ana Gomes eventualmente denuncie, fazendo crer e ‘provando’ que eram apenas calúnias. A campanha de Ana Gomes, ao contrário da de Marisa Matias, irá provavelmente ceder à tentação de privilegiar a denúncia, em detrimento da apresentação, justificação e defesa dos princípios de uma presidência atenta aos problemas do povo e defensora dos mais frágeis.
    Qualquer que seja a opção do PS, Assis antecipou-se manhosamente procurando abrir ainda mais o caminho para a reeleição de Marcelo. Se, como parece, este se recandidatar, irá naturalmente a uma segunda volta com outro(a) candidato(a). Esse será o primeiro lance de uma jogada que antecede o cheque-mate.
    E qual é então esse lance final pelo qual Assis aspira?
    É que com tal contributo a favor da direita – união em torno do candidato que as direcções de ambos os partidos querem viabilizar – Assis aparecerá aos olhos do PSD como o estratega para uma eventual ressurreição do Bloco Central. Com este golpe de ilusionismo para as hostes socialistas, sonha tornar-se o reconhecido obreiro e, quem sabe, potencialmente líder do centro-direita; provavelmente será essa a ambição maior do vingativo Francisco!
    Quem se mete com Assis leva; a vingança é um prato que se serve frio.

  3. As minhas desculpas à Mariza: os teclados ‘inteligentes’ fazem-nos destas partidas e até ‘acham’ que errámos quando não escrevemos ‘Maria’. E corrigem-nos!

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