Maria Lejárraga

A cidadã espanhola Maria Lejárraga nasceu em 1874 e foi criada numa aldeia que hoje é um bairro de Madrid. O pai era médico, proporcionou-lhe instrução académica e Maria era professora primária (1º ciclo). Rosa Montero, escritora espanhola e autora da biografia de Maria, diz que ela vivia numa Espanha de finais do Séc. XIX e princípios do Séc XX que era um país fechado, imobilizado pelo peso do conservadorismo.

Segundo Rosa Montero, em 1920 esteve para acontecer em Espanha o VIII Congresso Internacional da IWSA, associação mundial para o sufrágio da mulher ( o direito ao voto ), mas foi suspenso por oposição do governo e das associações católicas. Esse congresso realizou-se em Genebra.

Em 1908, o jesuíta Alarcón escreveu num livro que “a emancipação da Mulher era aberrante e que essas Euménides têm de ser encerradas em casas de correcção ou nos manicómios”. E é verdade que muitas mulheres foram encerradas em casas de doentes mentais em diversos países, incluindo Portugal. A revista Iris da Paz dizia: A sociedade faria muito bem encerrando-as como loucas e criminosas.

Foi neste país e neste ambiente que cresceu Maria Lejárraga. Mas ela era uma mulher culta, tinha estudos superiores, escrevia, adorava o teatro e falava diversas línguas.

Aos 26 anos casou com Gregório Martinez Sierra, que tinha 17 anos, feio, fraco de talentos, mas gostava de teatro, literatura e escrevia poemas. Quando chegaram ao apartamento, após o casamento, abraçaram-se e exclamaram: “ Já ninguém manda em nós”. Maria, sendo mulher, só podia tornar-se independente através do casamento. Rosa Montero comenta que muitas mulheres notáveis dessa época casaram com homens fraquíssimos porque, provavelmente, seriam os únicos que aceitavam casar com mulheres instruídas. Eram tempos muito duros para a mulher.

Antes do casamento, Maria publicou Cuentos Breves,uma obra para crianças, sendo o único que foi publicado com a sua própria assinatura. Maria era professora, cuidava da casa de manhã cedo, ia para a escola, vinha a correr fazer o almoço, voltava para o turno da tarde e chegava mais tarde e punha-se a escrever os romances e obras teatrais, entre outros textos.

Maria Lejárraga, escritora, ensaísta, feminista, socialista e deputada durante a República Espanhola.

O marido dormia até tarde, por vezes dava alguma ajuda nas peças teatrais e organizava empreendimentos culturais. Fez nascer revistas culturais, levou à cena revistas teatrais,  que lhe valeram grande fama, mas escritas por Maria Lejárraga.

Gregório Martinez Sierra é considerado um dos dramaturgos espanhóis mais famosos do princípio do Séc. XX, mas as obras foram escritas pela mulher, Maria Lejárraga. As suas obras foram representadas no seu país e no estrangeiro e adaptadas a filmes de Hollywood, mas com o nome do marido.

Para sua desgraça, o marido enamorou-se de uma actriz, levou-a para casa e mais tarde teve um filho dele. Aí ela separou-se, mas  dificilmente recebia a sua parte das obras que escrevia e que ele lhe exigia.

Para abreviar, esta mulher foi escritora, ensaísta, feminista, socialista e deputada durante a República Espanhola. Depois veio a guerra, refugiou-se em França, trabalhou em jornais e rádios, andou escondida dos nazis durante a II Guerra Mundial, até que uns amigos a protegeram e ajudaram-na a fugir para os Estados Unidos.

Morreu em Buenos Aires, em 1974, lúcida e activa, a poucos meses de completar cem anos.

Rosa Montero comenta que, quando a esquerda espanhola começou a recuperar os seus santos e a colocar nos nichos, esqueceu-se dela, que tanto lutou pela República e pela emancipação das mulheres espanholas.

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