Marega campeão!

Quem tem animais de criação sabe que não pode juntar galináceos ou suínos a outros animais da mesma raça porque os donos do território (galinheiro ou pocilga) os matam.

Os retratos de Frida ou Picasso, desenhados por um robot (que não concorre com humanos)
Há, dizem os mais velhos e sabidos do assunto, que untar o porco com creolina ou juntar os galináceos durante a noite, sem que deles deem conta.

Os seres humanos, quando se juntam e atuam segundo os princípios tribais ou de horda, não são muito diferentes.
Nos humanos, a justificação para humilhar, prender, torturar, escravizar e aniquilar pode ser a cor da pele.
Milhões de africanos foram arrancados dos seus lares, embarcados e enjaulados, tendo-se chegado a discutir no seio da própria Igreja (que tinha tantos escravos como os outros esclavagistas) se tinham alma.

Esta é uma chaga do passado da Humanidade. É revoltante e chocante que, depois de séculos de escravatura, de novo saltem para a luz dos dias as trevas mais negras nas relações entre os humanos, mulheres e homens providos de cérebro.

Sem o contributo de jogadores negros o futebol não era o que hoje é. Sem o Rei Pelé, que seria do perfume deste desporto? Quem seria capaz de fazer passar a bola por cima de três adversários (um de cada vez) e depositá-la no fundo das redes no último arco a passar por cima da cabeça do guarda-redes? Quem seria capaz de parar a corrida do “Pantera Negra” deixando para trás brancos e negros que quisessem travá-lo? Quem, como o grande Eusébio, seria capaz de bater a bola àquela velocidade e naquele alvo? Quem podia ombrear com a arte de George Weah? Quem, como Matateu ou Hilário, um à frente, outro atrás, encheria os campos de aceleração ou travão nos momentos ofensivos e defensivo, respetivamente? Quem? Como se pode imaginar o futebol sem Eto’o, Drogba e, por que, não Marega?

Os racistas que vão ao futebol não gostam de futebol nem dos clubes que dizem apoiar; gostam da violência de grupo que lhes garante a “ousadia” e a proteção.

O futebol abarca a Humanidade inteira num abraço de divertimento. Por vezes vira um espetáculo deprimente de violência, mesquinhez e até quase sempre de cobardia de catervas de energúmenos.

Em Guimarães, a selva, no que ela tem de mais cruelmente bárbaro, saiu de casa e foi parar às bancadas do estádio.

Os humanos têm sentimentos quando são verdadeiros humanos portadores de humanismo.

Mas os humanos portadores de maldade e covardia juntam-se, formam hordas para se promoverem através da agressão, tentando desvalorizar aqueles que, tendo outra cor de pele, suplantam no seu ofício os adversários. Só o puro instinto primitivo e descontrolado pode justificar que, após um jogador negro marcar um golo, adeptos do Guimarães se tenham unido em coro para o achincalhar, insultar e agredir.

É a mentalidade que se pode equiparar ao cérebro dos galináceos e dos suínos que rejeitam outros que não sejam os do grupo.

São assim os cérebros desta gente que se continua a passear pelos estádios e a comportar-se como galináceos ou grunhos.

Só nos faltava, em nome desta bestialidade, os surdos que dizem não ter ouvido o que todos ouviram. Pilatos também lavou as mãos permitindo a crucificação.

E faltava também um deputado achar normal este mundo de bestialidades e, recalcitrante, voltasse a insultar e a agredir todos os negros e brancos enquanto seres humanos. Os racistas nunca dizem que o são.

 

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

Original do jornal “Público”

1 comentário em “Marega campeão!”

  1. Meu caro Dr. Domingos Lopes.
    Inexplicável e inadmissível é a passividade das autoridades em relação à violência no futebol e às manifestações de racismo. O Sr. secretário de estado do desporto veio há dias dizer que está tudo sob controle, que as autoridades estão atentas, bla,bla. O que ainda ninguém ouviu dizer é que as claques vão ser banidas, que os arruaceiros serão impedidos de entrar nos estádios para causar desacatos e entoarem cânticos racistas e exibirem os símbolos fascistas. Parece que há um conluio entre o poder e o futebol, parece que a violência faz parte do circo, pelo qual passa a venda de bilhetes na candonga, a lavagem de dinheiro, a rota da droga e outras coisas pouco dignificantes. Se não houvesse conivência, não haveria perdões de dívidas ao fisco. E que ninguém se engane. Não é só nas bancadas e na “geral” que se encontram os criminosos. Os camarotes abrigam algumas “trutas”, verdadeiros instigadores, organizadores e financiadores desse circo de feras.

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