Incêndios são sintoma da apropriação capitalista da Amazónia

A floresta amazónica arde há vários dias. Os incêndios no Brasil aumentaram 83% este ano, em comparação com o mesmo período de 2018. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais já registou 72.843 incêndios, o número mais elevado desde 2013, ano em que começou a haver registos. Desde a passada quinta feira foram detetados por satélite 9.500 incêndios. A região da Amazónia é a mais afetada e a destruição dos ecossistemas está a acontecer de forma acelerada.

A situação é dramática e está a mobilizar a opinião pública mundial. A irresponsabilidade de Bolsonaro, ao declarar que as ONG, como reação aos cortes de financiamento feitos pelo seu governo, estavam por detrás dos incêndios, lançou a maior preocupação sobre a capacidade e interesse de o governo brasileiro enfrentar esta crise que ganhou uma dimensão ambiental mundial.

A intensa desflorestação a que o vasto território da Amazónia tem estado sujeito nas últimas décadas, principalmente a partir dos anos 70, criou as condições meteorológicas para que a propagação dos incêndios atinja uma escala inusitada. O clima tropical é caracterizado por ser quente e húmido, mas a desflorestação de milhares de Km² está originar a diminuição da humidade no solo e na atmosfera e a facilitar a progressão do fogo.

As queimadas, que estão na origem dos incêndios descontrolados, são promovidas para que a floresta tropical dê lugar a novos espaços para o agronegócio, a pecuária e a exploração mineira. Os estados do Pará e Mato Grosso foram os que mais desmataram entre os anos 2000-2010, cerca de 130 mil Km² de floresta dizimada. No somatório total, a Amazónia perdeu quase 183 mil Km² em apenas uma década, o equivalente a duas vezes a totalidade do território continental português. O impacte nos sistemas ecológicos, nas comunidades locais e nas populações indígenas é incomensurável e poderá ser irreversível. Esta crise ambiental está associada a uma crise social que se agrava.

Os fortes subsídios e incentivos fiscais concedidos pelo Estado brasileiro às grandes empresas abriram o campo ao investimento capitalista, protegeram e reafirmaram a renda da terra e a especulação imobiliária, incluíram a grande propriedade fundiária num projeto de crescimento capitalista que tenta organizar, contraditoriamente, uma sociedade moderna sobre uma economia rentista e exportadora de bens primários, ao estilo dos modelos neo-coloniais. Bolsonaro quer intensificar este modelo com total abertura à apropriação capitalista globalizada da Amazónia

A política de globalização da Amazónia é a nova forma de inserção da região no mercado mundial. O corrupto regime brasileiro pretende entregar a Amazónia às grandes multinacionais globais e transformá-la na principal região produtora e exportadora de produtos primários, desde a madeira, a pecuária e as commodities do agronegócio, como a soja, a cana de açúcar, o café ou o milho, até à exploração do minério de ferro e da bauxite (alumínio) com brutais impactes ambientais.

A utilização intensiva dos recursos naturais ameaça sistemas ecológicos inteiros. A riqueza, gerada numa dinâmica económica que propicia a concentração de renda, além de impor o crescimento da miséria e da fome nas classes sociais que ficam à margem de tais processos, estabelece o esgotamento dos solos, a extinção de espécies e o aumento da violência e dos conflitos sociais.

Os incêndios que grassam atualmente na Amazónia são, sem dúvida, sintoma da crise ambiental. Porém, esta crise ambiental está a ser gerada pelo capitalismo predatório a nível global que integra um novo campo de acumulação de riqueza que se alimenta desta destruição.

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