Geringonça 2.0!?

Alguns apontamentos sobre a “geringonça”, o seu fim e a vontade de repetição da experiência:

1. Numa perspectiva de Esquerda, os acordos parlamentares realizados em finais de 2015 (a “geringonça”) e a entrada em funções do governo do Partido Socialista (PS) liderado por António Costa foram uma necessidade para colocar um ponto final à governação da coligação “mais troikista que a troika” da Direita neoliberal radicalizada e liderada pelo professor Pedro Coelho. Os acordos foram no essencial cumpridos mas muito mais poderia ter sido feito. A partir de uma determinada altura a continuação do apoio parlamentar ao governo do PS devia ter tido como base novos acordos que garantissem a reversão de retrocessos (como os introduzidos na legislação laboral e da habitação durante o programa da troika) e eventualmente a definição de novos avanços sociais e políticos. Pelo contrário, o esforço realizado pelos partidos da Esquerda para melhorar as políticas públicas foi frequentemente bloqueado pelo PS.

2. Com o passar do tempo ficou claro que para António Costa, a “geringonça” foi apenas uma necessidade de sobrevivência política e não representou uma mudança estratégica e de objectivos do PS. A legislatura demonstrou claramente o posicionamento do PS em matérias centrais da governação. Foi uma política que no essencial procurou garantir a estabilidade da exploração e crescimento capitalista, os lucros do patronato e a submissão às regras neoliberais da União Europeia. Como sabemos a possibilidade de conciliação do interesse da classe dominante com o interesse das classes subjugadas ou é uma ilusão ou tem limites muito estreitos e conjunturais. Disse António Costa que não valia a pena estragar um bom namoro com um mau casamento. A realidade é que o PS é casado com o patronato (provavelmente a cerimónia realizou-se em alguma ilha paradisíaca/infernal) e que a Esquerda foi apenas uma relação ocasional.

3. Os partidos da Esquerda não foram recompensados nas urnas. A “geringonça” apenas beneficiou o PS. Criou-se a ideia na opinião pública que havia um “governo de Esquerda” e uma “coligação” liderada pelo PS. Bloco de Esquerda (BE), Partido Comunista Português (PCP) e Partido Ecologista os Verdes (PEV) passaram a ser vistos como partidos do sistema e cúmplices do PS (afectado por casos de nepotismo e corrupção). Os principais órgãos de comunicação social dominados pelo Capital/patronato trataram de valorizar a redução do défice orçamental, a diminuição da dívida pública em % do Produto Interno Bruto e o cumprimento das “regras europeias” (indicadores económico-financeiros nunca devidamente explicados ou aprofundados). A Esquerda, numa sociedade inundada por narrativas pró-capitalistas e anti-socialistas/comunistas (tendenciosas e por vezes mentirosas), sem meios significativos para afirmação política e ideológica e os partidos mais à Direita com a sua narrativa desmentida pelos factos e sem real programa alternativo, não foram encarados como alternativas políticas.

4. A insistência na estabilidade política e numa nova “geringonça” foi uma opção embaraçosa e politicamente questionável da parte da direcção do BE. A estabilidade do Estado burguês e da inerentemente instável economia capitalista, é de interesse duvidoso para os trabalhadores e sem dúvida negativa para os ecossistemas já sujeitos a pressões e estragos significativos. António Costa deixou claro que o casamento com a Esquerda (entrada no governo) estava fora de questão e a insistência por parte do BE foi coroada com uma rejeição. A promessa de nova “geringonça” mesmo com maioria absoluta era apenas para amolecer e conquistar votos à Esquerda.

5. Uma convergência à Esquerda nunca deverá ser baseada numa capitulação às exigências do patronato ou da União Europeia através do PS. Deverá ser construída com base no diálogo entre partidos políticos e movimentos sociais que defendam uma transição verdadeiramente ecossocialista para a crise sistémica do capitalismo global. Uma transição que poderá ter passos reformistas mas que terá que ter no essencial saltos revolucionários para ser bem sucedida. Contrariamente à narrativa disseminada, as revoluções em geral têm sido responsáveis por ganhos e avanços na história da humanidade. Os custos das revoluções são muito menores do que os custos do funcionamento normal de um sistema como o capitalista, sobretudo em decadência.

6. A energia da Esquerda deve estar focada na construção de uma alternativa ao PS, no desenvolvimento da consciência e na mobilização dos trabalhadores, desempregados e povo em geral. Em suma, no desenvolvimento de poder de afirmação político, social e ideológico. Para isso, é fundamental a formação da militância e de novos quadros e dirigentes políticos e sociais, apostar no “cara a cara” e no esclarecimento das pessoas. A dominação social, política e ideológica da burguesia transnacional e do império global é avassaladora. Mas como na saga “Guerra das Estrelas” precisamos de organizar/fortalecer a resistência e de “Jedis” que não se deixem dominar pelo lado “negro” da Força.

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