Geopolítica alimentar e o futuro da democracia

Esta pandemia não irá infletir a geopolítica alimentar mundial e pode comprometer a democracia. Vejamos um cenário provável.

Se a epidemia e a recessão económica se prolongarem, o impacto será muito considerável. Assistimos a uma queda ainda maior da produção e a um aumento brutal do desemprego, à desestruturação das cadeias de produção e de pagamento com impacto nos circuitos financeiros globais. Dependendo da sua duração e profundidade, podemos estar a assistir ao naufrágio do sistema monetário europeu, ou seja, ao aumento da velocidade do processo de desintegração iniciado após 2008, do qual o Brexit faz parte.

Num primeiro momento, os Estados serão obrigados a reforçar e centralizar o planeamento e as políticas, incluindo, o aumento dos gastos públicos, e o dinheiro disponível para as pessoas e para as empresas. Já estamos a assistir a esta tendência, em quase todas as áreas. As grandes potências irão rever as estratégias de globalização das suas cadeias produtivas e todos deverão aumentar o grau de proteção mercantilista dos seus territórios e da sua economia.

Contudo, depois da crise, os países poderão abandonar o Keynesianismo e os mais periféricos ao sistema financeiro global vão enfrentar o “déficit da epidemia”, com o regresso de políticas de austeridade fiscal e de venda do património público. Nesse momento, irão multiplicar-se as revoltas sociais e a mudança de governos que ainda prezavam a prática de eleições periódicas e regulares, na década de 2020. Trajetória que poderá reforçar os movimentos nacionalistas que se notabilizam em vários países, desde o início do século XXI. A história não se repete. Mas o papel da alimentação nesses contextos continua assustadoramente atual.

Do ponto de vista do sistema alimentar global e, portanto, da soberania e segurança alimentar e nutricional, assistiremos, muito provavelmente, a uma aceleração das desigualdades e do acesso a uma alimentação adequada para a maioria dos habitantes do planeta. Estimativas otimistas das Nações Unidas apontam para um aumento da fome à escala global para níveis existentes há 20 anos. Tão importante como o regresso de grandes regiões do planeta ao mapa da fome, estará a aceleração da epidemia de obesidade e doenças crónicas em todo o mundo. Recorde-se que estas eram a maior causa global de mortalidade antes desta crise. O peso desta situação no orçamento dos sistemas públicos de saúde ascendia a mais de 60% em todos os países da OCDE.

A situação periférica de Portugal no sistema alimentar global e europeu condiciona, naturalmente, as opções disponíveis. Contudo, no cenário acima, parece ser importante a necessidade de desenvolver uma estratégia e política alimentar (e não apenas agrícola) que procure garantir uma alimentação culturalmente adequada e saudável à maioria da população portuguesa, em particular, aos grupos mais vulneráveis. A montagem de um conjunto de programas setoriais interligados utilizando recursos previstos para as compras públicas de alimentos seria uma componente importante dessa estratégia. Em qualquer cenário.

O futuro recomenda não ter receio no presente. Testar um conjunto de inovações institucionais, políticas e técnicas está perfeitamente ao nosso alcance e merece, neste momento, a maior prioridade política. Outro cenário poderá contribuir para engolir a democracia – a política e a alimentar.


[Original publicado no Expresso – 30.4.20]

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