Fundação Lava Jato: made in America

Idolatrada pela maioria votante e abominada pela minoria resistente, a operação desencadeada pelo Ministério Público Federal do Brasil e perpetrada pela Polícia Federal, a Lava Jato, mudou o quadro político brasileiro e a sua correlação de forças.

Existindo formalmente há quase dez anos, esta operação notabilizou-se a partir de 2014 pela impiedade com que investigou, acusou e condenou políticos, empresários e funcionários públicos. Com uma identidade construída e imagem anti corrupção, o seu talho político acabou por se revelar culminando na prisão de Lula, mostrando contra quem de facto corria a Lava Jato.

Já a integração do ex juiz Moro no governo Bolsonaro e a recente tentativa de criação de uma fundação de direito privado (Fundação Lava Jato), com recursos recuperados dos próprios processos julgados que deveriam ser devolvidos ao Estado brasileiro e norte americano (2500 milhões de dólares). Esta soma, a ser administrada por promotores públicos, juízes, delegados federais e outros agentes do sistema de justiça, indica que nesta operação judicial se desenvolve um projeto político de tomada poder.

Mas se quisermos entender por quem corre a Lava Jato, convém olharmos um pouco para trás e para fora.

Durante a segunda metade do século passado, enquanto se deflagrava a guerra fria, os Estados Unidos mantiveram presença ativa nos diversos países da América latina através das forças armadas de cada país. Com a conivência das elites locais, oficiais latino americanos eram formados nas academias militares dos E.U.A.; eram condecorados, agradados e seduzidos por departamentos e institutos norte americanos. Estabeleceram-se assim relações diretas com as forças armadas de cada nação latino americana. Isso garantia que os interesses da Casa Branca fossem defendidos, o reforço da hegemonia norte americana e atrasava o desenvolvimento de movimentos progressistas na região.

Mas, no passo imparável da História, a democratização chegou e os E.U.A. tiveram de mudar a sua tática, diversificando a sua permanência nos seus vizinhos a sul. Estando a via das forças armadas vedada, foi escolhido o sistema judicial como o mais viável a defender os interesses norte americanos.

O álibi, na maioria dos casos, foi a guerra às drogas iniciada na década de 80 por Ronald Reagan. O pretexto de combater o cultivo e tráfico das drogas que viriam a ser consumidas nas ruas nova iorquinas serviu para colocar agentes da D.E.A., C.I.A. e outras agências no terreno. Mais tarde, na Cimeira das Américas realizada em Miami em 1994, o documento aprovado assume a internacionalização e cooperação dos sistemas judiciais no combate em três áreas: terrorismo, drogas e corrupção. Estava encontrado o substituto das forças armadas.

No caso brasileiro, o acordo firmado em 2001, durante o governo PSDB de Fernando Henrique Cardoso, estabelece um conjunto de meios de inteligência controlados pelos E.U.A., como foi o caso do sistema de radares da Amazónia. Foram também criados intercâmbios de formação para delegados federais, promotores e juízes brasileiros, nas academias e institutos do Tio Sam. Os laços estreitavam-se entre e a máquina política e económica americana e o seu novo agente de interesses no Brasil: o sistema judicial. Agentes brasileiros passaram a interiorizar o objetivo do Departamento de Estado dos Estados Unidos: o que servia os interesses norte americanos servia os seus interesses.

Com a viragem à esquerda na América latina que acompanhou o início do novo milénio, seria de esperar uma reação mais enérgica por parte dos governos do PT em relação à presença de agentes norte americanos no território e o cancelamento de programas de formação de agentes de justiça brasileiros nos E.U.A.. Na Bolívia de Evo Morales, após a sua eleição, foram fechados os escritórios da DEA e os agentes expulsos do país. No Brasil, pouco ou nada foi feito. Após a denúncia do wikiLeaks sobre das gravações feitas à ex presidente Dilma, a reação de somente cancelar a visita oficial da presidência veio a mostrar-se manifestamente aquém da resposta necessária.

São estes agentes formados técnica e politicamente nos E.U.A. que desenvolvem a Lava Jato, o instrumento político de agenda neoliberal mais eficaz que os partidos políticos.

De início bem envolvidos no manto moralista anticorrupção, juízes, procuradores e agentes federais começaram a revelar os seus intentos políticos. Primeiro com palestras, seguido de artigos, entrevistas e finalmente os convites para cargos políticos e candidaturas.

Agentes do judicial transformaram-se assim em políticos de programa pouco assumido, mas ambicionando a implantação de um estado securitário, de cariz autoritário, que garanta a continuidade de uma economia cada vez mais desigual.

Neste ciclo político e com estes agentes, será natural o ataque à soberania económica e militar para defender os interesses das corporações norte americanas. Para que este processo escorra de uma forma mais suave, o Departamento de Estado dos E.U.A. resolveu motivar os agentes brasileiros através da doação acima referida de cerca de 2000 milhões de dólares. No total essa fundação terá 2500 milhões de dólares para gerir em projetos de sua escolha para combater a corrupção (???), com critérios de sua exclusiva compreensão.

Com Moro a fazer o seu caminho para as presidenciais de 2022, o procurador Dallagnol a construir já hoje o seu lobby para ascender a Procurador Geral da República e dezenas de agentes da justiça em cargos eleitos, será de esperar que os recursos para a fundação cumpram objetivos mais políticos. Com recursos vindos do E.U.A., será um belo caso de cashier 2 (*).

É assim também mais compreensível ver agentes federais brasileiros, armados até aos dentes, a escoltar com orgulho o prisioneiro político Lula, com as insígnias do S.W.A.T. ao peito.

 

(*) Tradução de caixa 2, a tipificação de um crime eleitoral que consiste no financiamento ilegal de campanha

Destaques e sublinhados da responsabilidade de Via Esquerda

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