Feiras proibidas, dia santo no supermercado

Como medida de combate à pandemia António Costa anunciou que os hipermercados, espaços fechados, estarão abertos, todos os dias das 9 às 22 horas. E as feiras e mercados, ao ar livre na sua maioria, e que se realizam uma vez por semana, ou por mês, são proibidos. Ameaçado por manifestações de feirantes manteve a proibição mas lançou a batata quente para a autorização municipal.

Já não frequentava grandes supermercados, antes da pandemia: uma luz branca intensa, música tecno-light de fundo e uma quantidade de escolhas que me esmagam – nunca compreendi como se pode escolher um iogurte no meio de 100. Um labirinto. Mas há duas razões que me afastam desse não-lugar. O consumo sôfrego a que foram conduzidas as classes trabalhadoras e médias, que cada vez têm menos. Só têm dinheiro para a casa, roupa, eletricidade e supermercado. No supermercado experimentam uma falsa sensação de escolha, e por isso de liberdade. Só podem comprar iogurtes, mas podem escolher entre 100 disponíveis.

Não as encontramos no teatro, aprender e gostar de ler (isso exige transmissão de capital cultural, uma riqueza, ao longo de várias gerações), ou simplesmente usar o tempo, contemplando uma paisagem. Ter tempo hoje é um luxo. A voracidade do capitalismo, explicam os psicólogos, destruiu até a nossa “atenção dirigida” – uma faculdade psíquica superior que nos distingue dos animais.

A outra razão porque não vou a estes espaços, talvez a mais importante, é a vida de quem lá trabalha: salários mínimos, horários máximos, linguagem repetitiva, desumana, padronizada. Exaustos perguntam-nos às 10 da noite: “tem cartão?”, “quer número de contribuinte?”, “precisa de saco?”.

Nas feiras e mercados ao ar livre – que frequento, com entusiasmo -, os vendedores e compradores já estavam de máscara quando ainda a DGS dizia que as máscaras não eram precisas… lembram-se? Nas feiras gritam-se pregões inusitados, criativos, vivos: “comprem tudo, que vai acabar, vai ser uma catástrofe!”; “claro que troco a toalha, até troquei de marido!”.

Nada nos diz, caríssimos, que o vírus é uma criação de laboratório – que me perdoem os entusiastas das conspirações. Mas tem-se revelado, isso é verdade, uma oportunidade para algumas empresas. Com leis como esta que favorecem, por exemplo, a entrega de uma quota de mercado dos pequenos produtores aos hipermercados. Os quais podiam fechar meses, e mesmo anos, e manter-se no mercado, o mesmo não pode um pequeno produtor. Em semanas, muitos entrarão em falência.

As grandes empresas de distribuição de alimentos da Europa (Unilever, Nestlé) controlam parte dos capitais das empresas nacionais, como a SONAE ou a Jerónimo Martins, e estão ligadas aos bancos da Europa. Bancos que por sua vez, esta semana, para todas as câmaras de TV, abriram no Luxemburgo champanhe a celebrar os empréstimos à União Europeia. Isto passou no meio de notícias de mortos e recolhimentos obrigatórios – nunca subestimem a falta de decoro. O excedente que estas cadeias acumulam a pagar tarde aos produtores (3 meses depois de receberem os produtos, “promoções” que esmagam a montante os pequenos produtores), vai para a banca. E daí é reinvestido no imobiliário (por isso com menos de 4000 euros não se vive num centro de uma cidade europeia). E regressa de novo aos bancos, que por sua vez investem na dívida pública, a tal que duplicou para salvar os mesmos bancos. E que por sua vez é paga com cortes no SNS e na Educação e no eterno congelamento de salários das classes médias.

Os mercados e as feiras vivem da pequena distribuição de roupas. E vivem do produtor ao consumidor. Quantas  destas pessoas precisarão do rendimento mínimo depois desta medida? Ou terão que vender o pequeno negócio, ficando em casa com uma miserável reforma?

Esta medida é clara do ponto de vista da saúde pública. O vírus só ataca uma vez por semana ao ar livre. É seguro todo os dias da semana, 13 horas por dia, no espaço fechado do supermercado.

No fim, estes hipermercados ainda terão benefícios fiscais e dinheiro da segurança social para justificar despedimentos, porque irão fechar das 10 às 11 da noite e não precisarão, dir-nos-ão, de tantos trabalhadores.

A piada pós crise de 2008, que a salvação de bancos era socialismo só para os ricos, foi levada a sério pela SONAE. A empresa  foi buscar uma velha máxima comunista de Karl Marx, e agora lê-se em todos os anúncios do Continente, a vermelho, nos outdoors “para o bem de todos, o melhor de cada um”.

*Dedico esta crónica à minha avó Olívia, pequena produtora agrícola da região de Alcobaça, o laço do passado que me trouxe aqui ao jornal Região de Císter. Fui para perto dela durante 1 ano da minha vida, em criança, e junto a ela aprendi a mais importante lição de toda a minha vida – o valor do trabalho concreto, sério, honesto. Uma bazuca, que transformei em flores e sentido da vida.

Original do “Jornal Região de Císter”

Deixe um comentário