Fazer a luta toda!

“disputeis, curvado o corpo todo,

As migalhas da mesa do banquete:

Erguei-vos! e tomai lugar à mesa…

Que há lugar para todos:”

Antero de Quental

 Livro primeiro – capítulo V – Vida –    

   Odes Modernas    

 

Por volta do ano 78 do século passado, o nosso deputado veio fazer vários comícios ao Alentejo, acompanhei-o em alguns desses comícios e nas horas que os antecediam, sendo eu na altura um dirigente da organização juvenil coube-me a tarefa de fazer algumas intervenções sobre a juventude. Antes de uma dessas ações foi organizado numa aldeia um convívio e que belo convívio a população aderiu em massa, no recinto havia alguns tratores e zorras e outras máquinas agrícolas a certa altura um velhote veio ter comigo e apontando para o deputado, que estava sentado num reboque sozinho e pensativo, disse:

– Meu jovem devemos estar onde está o povo, é ele a raiz e a força, sem ele ficamos sós cada um com os seus fantasmas e a sua vidinha é com o povo que fazemos a luta e alcançamos o que tanto ambicionamos.

O deputado, passados alguns meses, foi tratar da sua vidinha para outras paragens, cada um é livre de tomar opções. Durante a campanha que agora terminou lembrei várias vezes esta história: DEVEMOS ESTAR ONDE O POVO ESTÁ!

E, onde está o povo? Estás nas coletividades; nos clubes de bairros, de aldeias, de vilas e cidades; nas sociedades recreativas e desportivas; nas empresas, nos locais de trabalho; nas comissões sindicais e nos sindicatos; nas comissões de melhoramentos e de defesa dos seus interesses e até nas tascas; nas escolas; nos serviços públicos e pasme-se até nos quartéis e esquadras.

Por muitas voltas que se deem a resposta é simples e como tal é aí que a nossa organização tem que assentar, se quisermos ter um papel interveniente na vida das pessoas, se quisermos aspirar a outros objetivos e anseios. Não para tomar por dentro as várias organizações, movimentos, estruturas, mas estar inseridos neles e participar ativamente com as nossas ideias, opiniões e soluções a todo o momento, com a nossa radicalidade e irreverência, procurando ir sempre mais longe nas conquistas e nas transformações sociais. Falar a linguagem do povo, sem sobrancerias e tiques de vedetismo, simplicidade de fala, gestos e ações.

O trabalho parlamentar é importante, mas é apenas e só uma frente de trabalho, onde afirmamos algumas das nossas propostas, lutamos pela sua concretização, pela nossa afirmação. Porém neste quadro a nossa força será sempre efémera, enlearmo-nos em demasia neste trabalho leva a perder de vista o que é essencial e prioritário para nós. Nunca podemos esquecer que somos um Partido/Movimento com propostas radicais e ousadas em todos os campos da sociedade, que luta por mudanças e transformações a todos os níveis.

É fundamental para o nosso trabalho a consolidação de núcleos que sirvam de fator de mobilização e dinamismo da nossa atividade. Os núcleos não substituem as concelhias como estas não substituem os núcleos. A pasmaceira organizativa que vivemos não serve, leva à diluição da organização e da desmobilização de muitos aderentes que não encontram respostas para os seus problemas e anseios.

Sem medo e com ousadia é preciso recentrar toda a nossa atividade e militância é preciso ocupar os centros de luta, ocupar as ruas e lutar pela defesa dos trabalhadores dos ataques e ameaças que sofrem, lutar contra os despedimentos, por melhores salários, pela dignificação do trabalho e das carreiras.

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