Fake news de Natal

Nem no Natal escapamos, ou por isso mesmo é que não escapamos. O JN do passado dia 24 publicava em grandes parangonas que o “Salário médio no Estado subiu ao dobro do ritmo do privado”.

Se a isto juntarmos todas as peripécias em torno do Salário Mínimo Nacional (SMN) e do Salário Mínimo da Função Pública (SMFP) temos o cenário perfeito para uma desinformação grotesca mas talvez eficiente visando alimentar a ideia de que os funcionários públicos são uns privilegiados, que consomem os recursos do Orçamento de Estado à custa dos trabalhadores dos privados. Sempre a tentativa de dividir os trabalhadores do público e do privado com o objectivo de perpetuar baixos salários e menos direitos para todos.

Quem se ficasse pelo título da notícia do JN era mesmo isto que pensava. Lendo com atenção o corpo da notícia fica-se a saber que é natural que o salário médio na Função Pública seja superior ao privado já que é na Administração Pública que trabalham em muito maior número trabalhadores qualificados, licenciados e técnicos superiores como juízes e outros magistrados, economistas, médicos, enfermeiros, professores e muitos outros quadros superiores nas forças armadas, nas forças de segurança e em todos os serviços da Administração Pública.

Ficar-se pela leitura enviesada do título do JN foi o que a TVI fez no seu telejornal das 20 horas nesse dia 24.

De forma grosseira e preguiçosa a TVI resolveu só dar destaque ao título da notícia e ao facto de o SMN (600 €) ser inferior ao SMFP (635 €) a partir de Janeiro de 2019.

Aos jornalistas da TVI se quisessem ser rigorosos e correctos e sem grande trabalho bastava terem citado cabalmente o JN que contextualizou a notícia.

Quer a TVI, quer mesmo o JN se quisessem ainda serem mais rigorosos deveriam dizer, a propósito do SMN, que os patrões em sede de Concertação Social recusaram liminarmente qualquer aumento e que o governo, cedendo às pressões patronais, acabou por o fixar em apenas 600 euros, quando a CGTP-IN reivindicava 650 euros.

Se a TVI fosse séria bastaria ter citado o JN que explica que “Neste momento, o nível salarial mais baixo no Estado é o 3º, correspondente a 583 euros (mais três euros do que o salário mínimo). Quando o salário mínimo nacional subir para 600 euros (2019) aqueles trabalhadores da Função Pública passarão para o nível remuneratório seguinte, o 4º, que equivale a 635 euros. Ou seja, o valor decorre das regras e não de um favorecimento do Governo ao Estado.”

Perante tamanha desinformação não admira que depois de forma oportunista apareçam uns amarelos quaisquer a reivindicar o aumento do SMN para 700 euros, não para os patrões pagar mas sim para ser pago pelo Estado, diziam eles por cortes nas pensões de reforma acima dos 2 mil euros!

O que está em causa e sempre esteve é a pressão dos patrões do sector privado para manterem baixos salários e menos direitos laborais. O aumento dos salários na Função Pública (congelados e cortados há muitos anos), bem como melhores condições contratuais são exemplos que os patrões do privado não querem aceitar. Todos nos recordamos de grandes patrões afirmarem, há muito poucos anos, que se pudessem não pagavam salários ou que pagam o menos que puderem.

Voltando à notícia do JN, que a TVI na substancia ignorou, podemos ler o testemunho de um trabalhador privado. Leandro Rocha, veterinário conta como sucessivamente tropeçou com a precariedade laboral, num despedimento ilegal e com “condições aquém do que uma pessoa com a minha qualificação deve aceitar”. Curioso é que Leandro Rocha critique os dias de férias na função Pública mas ao mesmo tempo reconheça que não lhe é permitido marcar férias conforme o quadro legal e que “Tive semanas em que depois de 9 horas de trabalho, ainda tinha que ficar disponível por telemóvel e essa disponibilidade ninguém me pagava”,

Assim vai uma boa parte da comunicação social portuguesa. Dizem-se até de referência mas não resistem, mesmo pelo Natal, de lançarem as suas “fake news”. Os canais televisivos de informação, como a TVI, não gostam de ser comparados com o “Correio da Manhã TV” (CMTV). Porém, sempre que podem igualam e tentam ultrapassar a CMTV. Assim caminhamos até ao final de mais um ano. 2019 – ano de eleições – promete ser pior.

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