Está aberta a época dos fogos!

Há algumas décadas atrás quando fazia uma viagem de estudo de finalista pelo interior do País, ligada ao curso de Eng.º Florestal (na altura chamava-se Eng.º Silvicultor), algures aí pelas Beiras e em pleno período estival, quando averiguávamos o dispositivo de combate aos fogos, alguns populares de tez morena pelo trabalho contínuo ao sol e pobremente vestidos, sazonalmente empregues pelos então designados Serviços Florestais, louvavam a época de fogos que lhes permitia meter uns escudos na algibeira minorando as suas dificuldades de gente assalariada que vivia de biscates. Sob o enquadramento de guardas florestais e sem qualquer formação, a não ser a proveniente da labuta obtida nos anos anteriores, esta gente trabalhava dias seguidos, dormindo no campo, com ferramentas rudimentares e enfrentavam o fogo quase de peito aberto. Em troca dumas míseras jornas que lhes permitia, contudo, fazer entrar em casa algum pão. Custava-me a crer, mas a época de fogos era bem-dita por aquela gente… Afinal, a miséria herdada do salazarismo em toda a sua crueza…

Quase tudo mudou. Os todo-poderosos Administradores Florestais perderam o seu protagonismo, os guardas-florestais, verdadeiros ermitas, deixaram as suas casas no topo das serras (muitos deles odiados pelas populações a quem podiam dar voz de prisão se o gado entrava nas matas…) e os que restam foram integrados pela GNR. O combate aos fogos passou a fazer-se à distância, frequentemente usando meios sofisticados e o voluntariado nos Bombeiros (cada vez mais difícil) deu lugar a profissionais pagos (pelo menos na época dos fogos) e com formação na Escola Nacional de Bombeiros. As Associações Humanitárias que integram os Bombeiros Voluntários deixaram de depender de bem-feitores e vendas de rifas e passaram a ser suportadas pela Proteção Civil e Municípios.

Como bem sabemos estas mudanças não se traduziram na diminuição do efeito dramático dos incêndios. O eucalipto cavalgou (passe a expressão…) pelas encostas, do litoral ao interior, ocupando ¼ da área florestal, e o despovoamento das zonas rurais, com o abandono da agricultura, deu lugar a uma floresta sem gestão, com os donos ausentes e com uma tremenda acumulação da biomassa combustível em matos que deixaram de ser utilizados na cama do gado ou como fertilizantes. Passámos duma média de 30.000 ha ardidos há 40 anos para 450.000 ha em 2017, não havendo na última década qualquer ano com menos de 100.000 ha de área queimada. As ignições terão aumentado em média 10 vezes no mesmo período. Dramático! Mas, afinal, o que se passa para Portugal ser o país que mais gasta no combate ao fogo relativamente à produtividade florestal e ter a maior área ardida em proporção de toda a Europa? Em 2018, o fogo da serra de Monchique, como os seus 27.000 ha representou mesmo o maior fogo de todo o continente europeu. Repito, mas o que se passa, quando os meios rudimentares e o amadorismo de há 40 anos cederam o seu lugar ao incremento de meios e cada vez mais dinheiro a ser atirado para o combate. Os pacotes legislativos não param de crescer, recentemente foram criados novos organismos para a questão dos fogos florestais (AGIF), acabou de sair a lei orgânica do da Proteção Civil, do ICNF, criaram-se centenas de brigadas de sapadores florestais, programas específicos como de fogo controlado, aldeia segura, etc. (pelo menos conheço uma dezena de planos nacionais…), os municípios passaram a ter planos específicos de proteção contra incêndios e gabinetes técnico-florestais bem apetrechados…a força aérea e o exército têm já formação na área e participam cada vez mais ativamente…mas então…como é isto possível?

Não, não vai ser uma tarefa fácil diminuir o risco de incêndio e a resposta sendo também técnica é principalmente política. Há quantos anos se começou a dar importância à prevenção (ainda agora uma percentagem de gastos muito inferior ao combate)? Entretanto a monocultura florestal avançou, bem como as áreas abandonadas mescladas de aldeias de gente mais isolada e cada vez mais envelhecida, rodeadas da constante ameaça do fogo. E as redes primária e secundária para diminuírem, respetivamente, a propagação do fogo e protegerem as populações, que foram, até recentemente, ficando desenhadas apenas nos Planos com uma execução baixíssima? O controle de queimas e queimadas e a ameaça de coimas pela não limpeza de terrenos tem levado proprietários com baixos recursos, mas muita idade a fazerem eles próprios a limpeza, usando o fogo que é mais barato. Catorze morreram o ano passado, quando se diz que a não houve vítimas de fogos o ano passado… Este é o cenário do nosso interior desertificado…

Desengane-se quem num cenário de alterações climáticas e depois dum longo período de desleixo (bem patente no modo como arderam recentemente as matas litorais, como a de Leiria, depois dum contínuo abandono de gestão) que teremos soluções a curto prazo, por mais organismos que se criem, novos planos ou mais meios aéreos e salas de comando com o topo de gama de equipamentos. Tudo isso é importante, é verdade.

Mas saliento que tal pouco representará sem as políticas de apoio aos pequenos proprietários, o cadastro florestal, as medidas para a criação duma paisagem biodiversa e resiliente ao fogo (e os proprietários devem ser pagos para a manterem!) em vez dum país ao serviço das celuloses e da expansão da monocultura. Que nem os últimos Planos de Ordenamento Florestal (PROFs) se atreveram a pôr em causa…. Ah! E os programas de revitalização do interior e criação de emprego… Sim, sim…tudo isto conta muito mais.

E não nos podemos esquecer das medidas de emergência para a proteção dos solos e requalificação pós-fogo. Esta é uma tremenda lacuna. Basta olhar à volta e ver as serras despidas de vegetação e solo, para vermos que após o ciclo de fogos recorrentes…virá a desertificação. Afinal a desertificação dos solos depois da desertificação humana…

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