Em memória de Ana Paula Canotilho (1961-2019)

Quem, como grande parte de nós, está envolvido nas várias lutas em que a acompanhámos, sabe que a Ana Paula fez sempre diferente na sua constante procura por deixar um mundo melhor do que encontrou: como mãe, professora, artista, investigadora, mulher política e feminista, pensou pela própria cabeça – fora de cartilhas e ideias pré-concebidas, propondo um olhar distinto e libertador sobre as várias batalhas em que durante toda a sua vida se envolveu, e, sobretudo, seduzindo-nos com aquele olhar traquina e a generosidade que lhe conhecíamos e nos envolvia também.

Como dirigente feminista na UMAR, dirigente sindicalista no SPN, membro do Conselho Nacional da CGTP e dirigente do Bloco de Esquerda, deixou-nos principalmente o exemplo do modo de fazer.

O olhar positivo com que via os combates contra o que não estava certo, dava alento aos seus amigos e camaradas, em momentos em que as causas pareciam perdidas. Os combates ao lado da Ana Paula nunca foram perdidos. Em cada uma das suas causas, apontava-nos avanços que não estávamos a ver e que nos surpreendiam ao olhar para trás. Se alguma vez estivéssemos perdidos, bastava olhar para ela: onde estivesse sabíamos bem que esse era o lado certo da barricada.

A Ana Paula deixou-nos sobretudo a inequívoca certeza de que vale a pena lutar, de que é com cada um e cada uma de nós que se faz acontecer.

Uma boa amiga, mulher convicta das suas ideias e reconhecida por todos e todas pela sua personalidade admirável, que usava numa contínua procura por justiça, equidade e humanidade em cada um e cada uma de nós.

Deixa-nos uma saudade e um aperto no coração com o qual é difícil de lidar. A melhor forma de a homenagear é pegar nesse aperto e transformá-lo numa energia cada vez mais forte e mais ampla para prosseguir e intensificar as suas lutas. Contigo na memória e para nossa inspiração, cá estaremos para o fazer, Paula.

Até sempre, camarada!

Soares Luz – Porto, 28-10-2019

[Mensagem lida na homenagem realizada no Porto, no dia 8 de Novembro; as cinzas de Ana Paula Canotilho foram a sepultar ontem, dia 9, no cemitério de Pinhel, terra de origem da família, acompanhada pelos filhos e outros familiares, muitas pessoas amigas e camaradas.]

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