Em defesa das adegas e tascos do Porto

Do ponto de vista histórico há cem anos (1919), existiam no Porto, cerca de 1 200 tascos, falo de adegas, casas de pasto e tabernas. Eram sobretudo locais de convívio popular, lugares de prazer e sofrimento (vou dar de beber à dor), da solidão e do companheirismo, dos jogos da sueca, damas e dominó; dos mealheiros, dos grupos excursionistas e das caixas de20 amigos. As cruzadas de beneficência, as reuniões clandestinas – a política e o futebol, o rádio e a escuta das ondas de liberdade, e claro, os petiscos famosos e o tintol das pipas a jorrar, branco ou tinto. Época da indústria, das centenas de fábricas e oficinas e das ilhas da cidade, milhares delas, num Porto Industrial – cidade do trabalho.

Passados cem anos (2019) – quantos tascos ainda sobrevivem no Porto?

Por incrível que pareça – e com as transformações sociais e políticas – hoje a cidade transformou-se numa urbe turística e de serviços. Face ao “tsunami” Turismo, aliado à especulação imobiliária e ao fim da indústria na cidade, os tascos vão desaparecendo. Hoje, e em grosso modo , existem no Porto, cerca de 50 tascos (adegas, casas de pasto e tabernas), dos quais, os mais típicos e tradicionais, serão no máximo uma dúzia (12 resistentes, ao avanço da modernidade e do turismo).

Cerca de 50 Tascos – alguns a sofrerem já uma enorme pressão dos senhorios com aumentos brutais de renda ou sujeitos a despejos por motivos de novos projetos imobiliários…Depois surgem os Hotéis, os Hostels e os Alojamentos Locais…A tradição e a identidade da cidade é subjugada pelo boom do turismo que assim vai liquidando o lado característico e popular do Porto. Deixamos de ser “tripeiros” e passamos, nesta onda modernista – a ser – “francesinhas”…

NÃO PODEMOS DEIXAR MORRER ESTES LOCAIS DE TRADIÇÂO

A esperança futura de manter os tascos tradicionais passa no fundamental, pela sua defesa e divulgação como lugares referenciados, devidamente protegidos e classificados como de interesse patrimonial, histórico, social e cultural da cidade (1). Aproveitar no máximo a Lei de 14 de Junho de 2017, relativa à defesa das Lojas Históricas e do Programa “Porto de Tradição”, intervindo junto da Autarquia e dos sectores do Turismo, no sentido de proteger estes locais como “monumentos vivos e populares ao serviço da cidade e também do turismo como fonte de sustentabilidade económica”.

Não podemos deixar morrer os tascos, protegendo-os como património municipal, inserindo-os nas rotas turísticas, promovendo eventos, homenagens e jantares, sessões de fado e poesia ou até pequenas feiras das adegas e tascos – a exemplo do que tem vindo a fazer desde 2013 o Grupo dos Amigos das Adegas e Tascos do Porto (gaatporto@gmail.com).

 

(1) Ver, Roteiro dos Tascos do Porto, de Raul Simões Pinto, Edições

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